Logo

Aprendemos algo?

WhatsAppFacebookLinkedInX
03.09.2024 - 08:25:53

Na semana que passou, a convite da ESA, Escola Superior de Advocacia, da OAB Goiás, participei de um rico debate com o jornalista Valmir Salaro e a advogada Mirelle Gonsalez a respeito do célebre caso da Escola Base, que rendeu dois bons documentários recentes disponíveis na Globoplay: a série documental O Caso Escola Base, realizada pelo Canal Brasil, e o longa documentário Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado, original da própria Globoplay.
 
Como se sabe, Valmir foi repórter policial da TV Globo durante várias décadas e cobriu inúmeros crimes célebres. Todavia, ficou ainda mais conhecido por ter sido o autor do furo, em 1994, sobre a denúncia de abuso sexual de crianças em uma escola infantil de São Paulo que depois se revelou falsa e ficou conhecida como um dos grandes erros da polícia, do judiciário e da imprensa brasileira.
 
Quem acompanha os desdobramentos da história sabe que Valmir, além de um verdadeiro pilar do jornalismo, é um grande ser humano. Tornou o aprendizado com seu erro uma espécie de profissão de fé. Além de ter participado dos dois documentários, já há anos percorre o Brasil dando palestras e participando de debates, sobretudo em escolas de jornalismo, para discutir o caso e refletir sobre que lições a imprensa deve tirar do episódio que acabou prejudicando seriamente os proprietários e coordenadores da escola. Como disse a ele, não há nada mais fora de moda e, talvez por isso mesmo, tão necessário quanto o exemplo de alguém que reconhece um erro, pede desculpas e procura reparar, na medida do possível, suas consequências.
 
Paradoxalmente, vivemos um tempo em que a verdade está profundamente em questão, mas onde, por outro lado, predominam a atitude de ser dono da razão, a lacração nas redes e a impermeabilidade ao diálogo e à dúvida. Nunca esteve tão óbvio que a verdade tem muito de construção coletiva e, no entanto, seguimos demandando verdades prontas, rápidas e inquestionáveis em um mundo profundamente complexo.
 
Em tempos de fake news, relações promíscuas entre investigadores e jornalistas, julgamentos apressados, linchamentos virtuais e cancelamentos identitários, a reconstrução da sequência de eventos feita pelos filmes, que levou à condenação midiática de Maria Aparecida Shimada, Icushiro Shimada, Maurício Alvarenga e Paula Milhim, oferece muitas lições sobre o papel da (des)informação, da ciência e do jornalismo na esfera pública.
 
O caso começou com duas mães que detectaram comportamentos que julgaram estranhos nos filhos e fizeram a denúncia à Polícia Civil. Um delegado embriagado pela popularidade súbita pediu um exame pericial de uma das crianças que retornou com um parecer positivo para violência sexual – posteriormente descobriu-se que a criança sofria de prisão de ventre e que, na verdade, era essa condição a responsável pelas lesões encontradas pela perita. Ao laudo, somaram-se depoimentos e entrevistas feitas com as próprias crianças, num procedimento que claramente as levava a responder aquilo que as perguntas induziam.
 
Valmir levou o assunto para o Jornal Nacional e assim se colocou em movimento um julgamento público que só seria desmentido meses depois, com os acusados sofrendo as pesadas consequências.
 
O jornalista foi apenas um elo de uma sucessão de conclusões apressadas e erros com os quais deveríamos aprender. Penso, entretanto, que as coisas pouco mudaram nesses 30 anos, se é que não pioraram. 
 
Toda a estrutura do Estado de Direito é construída em torno de uma série de garantias precisamente para que ninguém seja condenado à revelia. Para a vida democrática, é melhor um culpado inocentado por falta de provas do que um inocente preso por cerceamento a seu direito de defesa ou pelo não cumprimento do devido processo legal. Todavia, na prática, o que seguimos observando na vida real são julgamentos apressados, condenações públicas e o judiciário com frequência atuando a reboque da opinião popular, para não falar da relação complicada entre imprensa, polícia, ministério público e poder judiciário.
 
Na conversa da semana passada, evitei usar o adjetivo “promíscua” para qualificar essa relação, que envolve o vazamento de informações sigilosas, o acompanhamento espalhafatoso de operações policiais e julgamentos, pressão sobre autoridades. A democracia tem zonas cinzentas que não devemos igualmente julgar de forma apressada. É legítimo que a imprensa busque acesso a informações que são de interesse público por trazerem à luz ações obscuras dos poderes constituídos ou de empresas. Todavia, quando esses procedimentos passam a produzir um curto-circuito no próprio processo legal, pré-definindo condenações, há algo que precisa ser consertado.
 
Nesse sentido, além dos filmes e do debate sobre o caso Escola Base, recomendo fortemente os podcasts Altamira e O Caso Evandro, dirigidos pelo excelente Ivan Mizanzuk e disponíveis nas principais plataformas de áudio. São dois casos de violência contra crianças, envolvendo também especulações sobre satanismo. O primeiro ocorreu em meados dos anos 1990 no litoral do Paraná, e o segundo, entre 1989 e 1993, na cidade paraense. Em comum com o caso Escola Base, envolvem investigações tendenciosas, teorias conspiratórias, exposição midiática, condenação pública de acusados e grandes erros judiciais que destruíram a vida de várias pessoas. Se, no caso da escola e no do menino Evandro, os acusados ganharam ações contra o estado e foram indenizados, no Pará, os acusados tentam até hoje rever suas condenações. A investigação e o processo acusatório foram seriamente questionados pelo surgimento de um homem que assumiu a autoria dos crimes e de vários outros semelhantes no Maranhão. Não obstante, o delegado Eder Mauro (PL-PA), responsável pela investigação, é hoje deputado federal e um dos líderes da Bancada da Bala e do bolsonarismo no Congresso.
 
Mais um fato a demonstrar a precariedade de nossas instituições democráticas e a dificuldade de julgamentos imparciais.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]