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Aos Nossos Amores

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06.11.2017 - 09:01:19
Goiânia – A felicidade parece não haver sido desenhada no processo da criação humana. Se por um lado, a felicidade parece ser intangível e inalcançável, visto que a existência humana parece um calvário, sobretudo quando se envolve em uma família pautada pelo descontrole e que parece uma torre de Babel, em que a comunicação parece não fazer parte de sua estrutura; em contrapartida, é justamente na tristeza que a poesia acende sua chama e preenche o ecrã com tintas que a mescla com uma melancolia que exala beleza de modo abissal em Aos Nossos Amores (1983), um dos grandes trabalhos do excelente diretor francês Maurice Pialat.
 
A partir desta obra, a carreira de Pialat sofre uma guinada e crava definitivamente seu nome como um dos maiores expoentes do cinema francês pós-Novelle Vague. A jornada de Suzanne, interpretada pela deslumbrante Sandrine Bonnaire, é despida de modo astuto pela lente cinematográfica do diretor de modo a escancarar suas fragilidades e de como tenta, através do sexo fugaz, contornar suas frustrações e seu desamor.
 
Suzanne troca de namorados com uma facilidade gritante e seu relacionamento familiar se deteriora a cada instante, promovendo uma insatisfação perene e acarretando numa agressividade incomum, à medida que o pai sai de casa e as brigas homéricas no seio familiar se agravam, ao ponto de Suzanne, sua mãe e seu irmão mais velhos se digladiarem, não somente com trocas de farpas, mas inclusive com violência física. A presença da Sandrine, monumental em cada cena, é unânime para se ascender a condição da película ao patamar de obra-prima e o de tatuá-la definitivamente na história do cinema.
 
Pialat vale-se de uma mise-en-scène impecável, muito bem polida e calcada no cinema clássico, sobretudo quando invoca a câmera invisível no melhor estilo de Howard Hawks. A incerteza da juventude já havia sido trabalhada por Pialat no belíssimo Antes Passe no Vestibular (1978), mas é com Aos Nossos Amores que ele atinge um resultado praticamente impossível, visto a força que seu filme exerce e a presença deslumbrante de sua atriz principal. Os momentos cujo enfoque da câmera se voltava ao rosto de Suzanne, pontuada pelo silêncio, são capazes de demonstrar todo o turbilhão de sentimentos pertencentes à personagem.
 
A naturalidade é um retrato magistral pelo qual o diretor é capaz de extrair de todo o elenco, e a película emerge sobre o rito de passagem da adolescência à maturidade, passeando pela descoberta do sexo, do amor, do profundo desejo e de como todas estas sensações são complicadas. Pialat realiza uma epopeia dos sentimentos de uma juventude inquietante que clama por amor, por um pouco de atenção e afago, mas cuja realidade é duríssima de encarar, visto que as relações são cada vez mais conturbadas. As dores do crescimento assolam Suzanne e Maurice Pialat edifica um dos maiores filmes do cinema inebriado pela poesia proveniente da tristeza e da profunda melancolia. 
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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