Fernando Dantas
Goiânia – Atrair novos clientes e fidelizar consumidores, acessar novos mercados, criar novos postos de trabalho e ampliar faturamento. Todo empreendimento de alimentação fora do lar trabalha com esse foco, especialmente agora, com o fim das restrições impostas pela pandemia da covid-19 e a retomada econômica do setor. Uma das alternativas para alcançar esses objetivos – e que têm trazido resultados positivos – é a participação em eventos gastronômicos. Os festivais retornaram, com as medidas de segurança possíveis, e movimentam estabelecimentos como hamburguerias, pit dogs, bares e restaurantes. Somente neste ano, na região metropolitana de Goiânia, dois eventos já foram realizados com sucesso – Comida di Buteco, de abril a maio; e Festival Brasil Sabor, em maio -; e um ocorre até o próximo domingo, 3 de julho, que é o Festival Burger Time.
Entre os motivos para a volta da realização de eventos e o crescimento econômico da área de alimentação estão a queda nos índices de contaminação pela covid-19, a ampla vacinação da população e a maior segurança para frequentar, novamente, ambientes fora de casa. Essa é a avaliação dos idealizadores do Festival Burger Time, evento que teve sua primeira edição em 2019 e que retornou para o segundo ano agora, em 2022. “O adiamento do Burger Time, por dois anos, se deve à pandemia e à necessidade de que tudo ocorresse de forma tranquila, sem expor ninguém a qualquer perigo, tanto clientes quanto os próprios donos e profissionais de hamburguerias e pit dogs”, informa Cynnara Bretas, uma das realizadoras do festival. Ela enfatiza que com a realização de eventos de forma mais segura, foi possível investir melhor na segunda edição do Burger Time. “O foco é exatamente realizar um festival que possa garantir a segurança das pessoas para frequentarem os empreendimentos e até atrair novos clientes, além de fomentar e valorizar os negócios que participam do evento, especialmente pequenos e médios empreendedores”.
O Burger Time teve início no dia 17 de junho, com a participação de 48 estabelecimentos, entre pit dogs, hamburguerias, bares e restaurantes. O objetivo do evento é eleger o melhor sanduíche e hambúrguer da capital, além de apoiar os estabelecimentos participantes, por meio da promoção, capacitação e valorização desses locais. Público e jurados terão até o próximo domingo, dia 3 de julho, para visitar os estabelecimentos, saborear os hambúrgueres e sanduíches e votar nos melhores, de acordo com duas categorias: hamburgueira e pit dogs. A expectativa dos organizadores é alcançar mais de 30 mil hambúrgueres e sanduíches vendidos nos 17 dias do evento, um crescimento de quase 50% em relação à primeira edição. A lista completa com os participantes está disponível no site: www.festivalburgertime.com.br.
Quem está na disputa pelo título de melhor hambúrguer é a Turco Hamburgueria, localizada no Parque Santa Rita, em Goiânia. O empreendimento foi criado há um ano e meio, em plena pandemia da Covid-19. No início, o atendimento era totalmente no formato delivery. Após quatro meses de atuação no mercado, Kaio Jardel, de 36 anos, mais conhecido como Turco, e a esposa dele, Wanessa Rodrigues, de 34 anos, conhecida como Dona Turca, ampliaram o negócio para o presencial também. “Investimos, porque queríamos empreender e por uma necessidade de mudança de atividade. Eu trabalhava com produto infantil e ‘Dona Turca’ com assistência técnica de eletrodoméstico. Estávamos cansados dessas atividades”, relata.
Mas o hambúrguer não era a primeira sugestão deles de negócio. Kaio Jardel explica que a ideia era investir em uma pastelaria delivery, mas por causa da pandemia, os dois pesaram os prós e os contras, e resolveram abrir uma hamburgueria. “Tínhamos projeto pronto, cardápio pronto para pastel. No meio do caminho teve a pandemia e decidimos não abrir pastelaria por conta da dificuldade de transportar via delivery. Já o hambúrguer se acomoda melhor e consegue se manter em condição para ser transportado para entrega”, relata.

Após a mudança de foco, a atividade teve início no sistema delivery e migrou para o formato híbrido: presencial e delivery. Kaio Jardel lembra que os dois formatos alcançaram resultados positivos. “Não tivemos dificuldade de operar, nem na pandemia, nem depois. Houve um fortalecimento em ambos. Meu delivery aumentou com a abertura da atividade presencial, porque gerou credibilidade”, explica. Com a conquista de clientes, a visibilidade ficou maior e um dos retornos foi o convite para integrar a lista de participantes do Burger Time. “A filha de uma cliente nos indicou, recebemos o convite dos organizadores e resolvemos aceitar. A Turco Hamburgueria tenta sempre se inserir em movimentos de mercado que dizem respeito à alimentação, especialmente de hambúrguer. E um evento tão direcionado e focado como esse, com certeza não poderíamos ficar de fora, porque se trata do meu principal produto”, salienta.
Kaio Jardel cita que o festival abre novas possibilidades de mercado e de conquistar novos consumidores. “O próprio roteiro que se cria dos estabelecimentos, como hamburguerias, estimula os clientes a quererem participar e conhecer os locais, até mesmo de forma turística. Fora que tem toda movimentação de mídia e redes sociais, gerando visibilidade ao assunto. Deixa o tema em alta e traz notoriedade aos participantes. É como se o festival validasse a Turco e a Turco validasse o festival. É um ganha-ganha para as hamburguerias que participam e validam o evento. É importante também para o cliente, porque ele detecta que aquela hamburgueria foi escolhida pelo festival e isso eleva exponencialmente o negócio”, comemora.
Acesso a novos mercados
Para o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Goiás), os eventos gastronômicos funcionam como ferramenta de acesso a mercado e ampliação de clientes, por isso a entidade sempre apoia festivais no Estado, como é o caso do Burger Time. “Quando a gente apoia os pequenos negócios na participação desses festivais, estamos fortalecendo e apoiando a economia local. As empresas têm ganhos individuais, como aumento de suas vendas e, consequentemente, faturamento, fidelização de clientes já existentes e, principalmente, diversificação de pessoas que frequentam os espaços. Então, amplia público, visão e alcance”, enfatiza a gerente Sebrae da Regional Central (Goiânia), Larissa Ribeiro.
De acordo com ela, há ainda o ganho coletivo, já que ao agrupar as empresas em um festival, o evento se estabelece no mercado e cria um produto turístico. “É possível posicionar as pequenas empresas e as colocarem como ferramenta de nossa cultura. Atualmente, a gastronomia goiana é uma referência como produto turístico e uma atração para o Estado de Goiás. Os festivais ajudam os pequenos negócios a se beneficiarem do título que temos da nossa gastronomia goiana”, informa.

Gerente do Sebrae em Goiânia, Larissa Ribeiro destaca que a instituição sempre apóia eventos gastronômicos como forma de engajar os pequenos negócios. (Foto: Divulgação/Abrasel Goiás)
Larissa acrescenta que isso fortalece as empresas, já que alguns festivais se transformaram em plataformas de negócios. “É um fortalecimento e apoio para os pequenos negócios, porque sozinhos eles não alcançariam público e visibilidade. Quando estão conectados a grupos de empresas ou festivais, se fortalecem e se posicionam de uma forma diferente nesse mercado. Além disso, nós apoiamos, em sua maioria, negócios familiares. Então, é um apoio à economia local, ao fortalecimento e à geração de emprego, beneficiando do dono aos empregados que estão ligados aos pequenos empreendimentos”, relata.
A gerente complementa, ainda, que por ser apoiador do Burger Time, o Sebrae acompanha ‘de perto’ a realização do evento para entender como o festival pode impactar, de forma positiva, os negócios de pequenos e médios estabelecimentos que integram a lista de participantes. “Temos relatos de empreendedores de pequenos negócios do setor que comemoram o aumento e a diversificação de clientes, o crescimento de vendas e faturamento e a satisfação em participar de um evento gastronômico, que têm um alcance e impacto nos negócios deles. Por isso, nós apoiamos pré, durante até pós-festival, para estimular que a empresa possa olhar para dentro de sua atividade e ajudar na gestão, e na visão fora do negócio, como estratégia para acessar novos mercados e ampliar clientes”, reforça.
Valorização do turismo e gastronomia local
Uma das categorias do Burger Time é a de Pit Dogs, pequenos empreendimentos considerados patrimônio cultural e imaterial de Goiás e de Goiânia, com leis publicadas em 2020 e 2021. Esses quiosques, geralmente montados em praças e calçadas, e que fazem sanduíches preparados na hora, representam um dos principais símbolos da culinária de rua. Além de movimentar a gastronomia, já que o lanche de pit dog é tradição no Estado, esses estabelecimentos contribuem para estimular a economia e o turismo no Estado. “Existem pessoas de outros estados que quando vêm a Goiás, especialmente a Goiânia, não podem ir embora sem antes passar em um pit dog e saborear um X-Salada, X-Bacon, X-Tudo e por aí vai. É uma tradição importante, que precisa ser valorizada no Estado”, destaca Cynnara, organizadora do Burger Time.
Segundo dados do Sindicato dos Proprietários de Pit Dogs de Goiânia (Sindpitdog), são 2,9 mil estabelecimentos espalhados pelo Estado, sendo 2 mil somente na capital. O segmento emprega 40 mil pessoas em Goiás, sendo 25 mil na grande Goiânia. “É um setor que sofreu bastante com a pandemia da Covid-19, com decretos restritivos, fechamento e redução de tempo de funcionamento, mas que agora vem se recuperando, por causa da vacinação e fim de medidas restritivas. Além de tudo isso, nosso produto é querido e saboreado pelos goianos, é patrimônio. A população, inclusive, tem a tradição de ao fim de qualquer evento festivo, frequentar pit dogs. O Burger Time veio para fortalecer ainda mais nosso segmento”, reforça o presidente do Sindipitdog, Ademildo Pereira.
Localizado no setor Cidade Jardim, em Goiânia, o Avalanche Burger é um dos pit dogs que participam do festival, em 2022. São 35 anos de empreendedorismo na capital, com uma história que começou na década de 1980, com o proprietário Anivaldo Divino dos Santos, que hoje está com 58 anos, e o irmão dele. Na época, os dois investiram na abertura de um trailer de sanduíche (que com o passar dos anos se transformou em uma sala comercial), mas logo um deles resolveu mudar de área de atuação. A partir disso, Anivaldo assumiu os negócios e passou a gerir a pequena empresa do ramo de alimentação com a esposa, Ana Maria de Moura.
Durante os anos dedicados à atividade, vieram três filhos que, conforme cresceram, passaram a ajudar no negócio. Quem conta toda a história empreendedora da família é uma das filhas, Ludmylla Moura. “Com a renda do pit dog, meu pai e minha mãe conseguiram dar estudo aos filhos. Eu me formei em Nutrição e meu irmão em Contabilidade. Agora, minha irmã mais nova entrou no curso de Medicina Veterinária, também graças ao trabalho do pit dog. Mas todos contribuem com o Avalanche. Eu, por exemplo, aproveito a minha formação na condução dos negócios, já que é uma atividade voltada para a alimentação”, considera.

Ludmylla diz que visualizou no Festival a oportunidade de dar mais visibilidade ao negócio da família. “Sempre falo para o meu pai que precisamos movimentar o empreendimento. Com a pandemia, vimos a necessidade de investir em marketing para atrair novos clientes e até fidelizar aqueles que já frequentam o local. Isso porque no período restritivo, tivemos que trabalhar mais com delivery e o marketing foi uma ferramenta importante de aproximação. Agora, o foco é movimentar para que todos possam voltar a frequentar o estabelecimento e percebemos que o Festival é a oportunidade ideal para isso. Tanto que em apenas uma semana de evento, várias pessoas nos visitaram, porque ficaram sabendo do Burger Time”, revela.
Para Fabrício Amaral, presidente da Goiás Turismo – instituição patrocinadora do Burger Time -, o Estado só tem a ganhar com a promoção de concursos e festivais que valorizam o empreendedorismo gastrônomico. “Além de manter e divulgar nossa cultura gastronômica, os eventos ajudam na retomada do turismo no nosso Estado, gerando emprego e renda às cidades. As empresas geralmente são pequenas, o volume de trabalho é expressivo, o custo benefício é muito rápido. Com certeza, é um dos pilares econômicos do turismo e, na nossa capital, não é diferente”, exclama.
Para o presidente da Fecomércio, Sesc e Senac Goiás, Marcelo Baiocchi, fazer parte da realização do festival é relevante, porque o evento valoriza a cultura gastronômica regional. “Nós, do Senac Goiás, ficamos felizes em co-realizar o festival já que incentiva a economia e o turismo gastronômico da nossa capital. Também ficamos satisfeitos por inspirar as pessoas, mostrando que a qualificação profissional é fundamental para aperfeiçoar o desenvolvimento do negócio”, informa.
Segundo o diretor regional do Sesc e Senac, Leopoldo Veiga Jardim, um evento como esse promove o empreendedorismo, já que dá oportunidade para que os pequenos empresários possam ser mais divulgados. “Entendemos que, assim, é possível valorizar o talento das pessoas e incentivá-las a buscar cada vez mais aprendizado e novas técnicas para qualificar o produto e ampliar o sucesso do seu comércio”, pontua o diretor.
Novas contratações e clientes
Em maio deste ano, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel Goiás) e o Sindicato de Bares e Restaurantes do Município de Goiânia (Sindibares Goiânia) também realizaram o Festival Brasil Sabor. De acordo com as entidades, houve crescimento de cerca de 30% no número de clientes que visitaram os 48 estabelecimentos que participaram do evento, inclusive de pessoas que não conheciam os bares e restaurantes. Isso resultou, ainda, em investimentos em estrutura e atendimento, como a contratação de novos profissionais para atuar nos estabelecimentos.
Dados da Abrasel Goiás e Sindibares Goiânia revelam que, somente na capital, o segmento é responsável por empregar mais de 50 mil trabalhadores. Até o final do ano, esse número deve chegar a 60 mil postos de trabalho. São 20 mil bares e restaurantes em Goiás, sendo 17 mil empresas do setor na região metropolitana do Estado. Com a contribuição de eventos gastronômicos e a perspectiva de retomada econômica do segmento, o setor está otimista e espera movimentar mais de R$ 7 bilhões, em 2022, no Estado de Goiás.
De acordo com o presidente da Abrasel Goiás, Danillo Ramos, a realização do Brasil Sabor reforçou o importante momento vivido pelo País de retomada do setor de eventos e do aquecimento do turismo gastronômico. "É um festival que tem tradição em todo o País e que estimula a criatividade dos restaurantes, que criam uma receita exclusiva para o evento. Melhora também a visibilidade e o faturamento dos estabelecimentos participantes, além de ser uma oportunidade para conquistar novos clientes e oferecer suas inovações a preços acessíveis", explica.

Presidente da Abrasel Goiás, Danillo Ramos enfatiza que, além de aumentar o faturamento, os festivais contribuem para que os estabelecimentos invistam na contratação de profissionais. (Foto: Divulgação/Abrasel Goiás)