Logo

Alento Climático

WhatsAppFacebookLinkedInX
29.09.2024 - 09:18:56

Dedinhos 'coçando', o cabaré pegando fogo, cadeirada, bets, tapa na orelha e nas redes sociais todo show de horrores que antecipam o Halloween. Difícil é manter a sanidade mental com o celular ligado e as notificações chegando em milésimos de segundos. Mas no mundo real tem gente estudando, trabalhando, pesquisando e produzindo algo significativo para o bem da Humanidade.
 
É  o caso do artista e paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), que está fazendo escola e atraindo cada vez mais adeptos às referências e replicações de suas formas orgânicas genuinamente brasileiras. Está previsto para 2028 a inauguração do Instituto Burle Marx, em Petrópolis, RJ, na Casa Cavanelas, projetada por Oscar Niemeyer e reformulada para acolher escritórios, galeria de arte, residências artísticas, loja, café e um mirante para se admirar o paisagismo do alto.
 
Mas por hora e bem mais perto, foi aberta a leve e inspiradora mostra "Paisagem Aclimatada", do jovem Talles Lopes, com curadoria de Divino Sobral, na Cerrado Galeria, que reforça a ideia do modernismo e da identidade nacional.
 
Auto-centrado na arquitetura, ponto de partida de sua formação acadêmica, o artista produz desenhos, aquarelas, pinturas e um misto de site specific que se fundem em apropriações de projetos icônicos, design e botânica sob um olhar atento ao resgate do histórico colonial e modernista brasileiro. 
 
A beleza e sintonia das obras vão de encontro com a simpatia e postura de Talles. Seus cabelos crespos, sua pele clara e seus olhos levemente esverdeados não negam uma miscigenação sadia, serena e talvez, um pouco selvagem, tão características do mulato. Ele busca mesmo o autoconhecimento, a distinção entre ser artista ou arquiteto, sua "autocolonização", parafraseando o texto curatorial, por Paulo Tavares, em citação ao sociólogo Gilberto Freyre. 
 
Seu trabalho é um reflexo perspicaz de uma cultura que se desenvolveu apoiada em origens rústicas e sofisticadas, transgressoras e eruditas, tropical e barroca, assim como o design dos vasos do suíço, Willy Guhl.  Eles expressam a simplicidade leve do design modernista com a dureza concreta da cor cinza do cimento.
 
Investigar e imergir neste universo paisagístico do modernismo e da arte contemporânea é abraçar a brasilidade e mergulhar em águas mornas. Um alento, um oásis tropicano, uma pausa para reconhecer a qualidade da produção nacional e sua autenticidade.
 
Parabéns, Talles, continue climatizando o circuito da arte com sua beleza, leveza e autonomia.
 
"Paisagem Aclimatada", mostra de Talles Lopes, na Cerrado Galeria, registros por Laura Macêdo
 
Vasos com plantas ornamentais, design do suíço Willy Guhl e na última foto, pintura em tela por Roberto Burle Marx ao lado dos desenhos de Talles Lopes:

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Tatiana Potrich

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
09.10.2026
A voz que desafia o século da barbárie

O anúncio de Navi Pillay como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026 não é apenas o reconhecimento de uma biografia monumental. Em um tempo marcado pela brutalidade em escala universal — guerras que se arrastam sem perspectiva de solução, crises climáticas e sanitárias tratadas como pauta secundária, desigualdade que concentra renda e poder […]

Karina Picon
08.10.2026
Quem cuida de quem cuida?

Olhar para uma tomada cheia de adaptadores e cabos ligados ao mesmo tempo ajuda a entender o que acontece com a gente no dia a dia. Quando o cansaço bate forte, a gente costuma achar que a nossa força simplesmente acabou ou que não estamos dando conta. Mas quase nunca paramos para olhar o principal: […]

Rimene Amaral
08.10.2026
A riqueza não sobrevive à vida

A notícia de uma doença misteriosa que matou uma funcionária do Instituto de Pesquisa sobre a Peste Irkutsk (uma peste pneumônica), na Sibéria, colocou uma pulga atrás de muitas orelhas. A funcionária, de 28 anos, morreu na última semana devido a uma pneumonia, e as autoridades não divulgaram mais informações sobre a morte. O Rospotrebnadzor, […]

José Mário Schreiner
06.10.2026
Agro conectado, economia integrada

Durante muito tempo, era natural que os setores primário, secundário e terciário tivessem seus próprios espaços de discussão, negócios e exposição. Isso porque cada atividade tem suas particularidades, desafios e oportunidades. Mas a realidade mudou. As cadeias produtivas estão cada vez mais conectadas, e as fronteiras entre os setores, menos nítidas. É nesse contexto que […]

Sam Cyrous
06.10.2026
O que faz uma vida (e uma história) significativa?

Recentemente colegas e amigos têm pedido que explique o que o tal do StoryTelling — uma moda dos últimos anos no Brasil, e algo algo com o qual trabalho desde 2007. Pensei muito se escreveria sobre a minha formação com Peseschkian, o autor do clássico “O Mercador e O Papagaio”, a minha participação ativa com […]

Marcos Spadoni
05.10.2026
AVC em jovens: o risco também se constrói nos hábitos do dia a dia

Fast food em excesso, consumo frequente de bebidas alcoólicas, cigarro, sedentarismo, noites mal dormidas, estresse constante e ganho de peso. Hábitos que parecem fazer parte da rotina de muitos adultos jovens podem, ao longo do tempo, criar um terreno perigoso para a saúde vascular. Isso porque favorecem condições como hipertensão, diabetes, obesidade e alterações no […]

Ana Carla Abrão
03.10.2026
O país na segunda-feira

Ana Carla Abrão Há mais de dois mil anos, Aristóteles escreveu que nenhuma comunidade política se sustenta apenas sobre leis e instituições. Para que uma cidade exista de fato, dizia ele, é preciso haver entre seus cidadãos alguma forma de amizade. Não a amizade que nasce do afeto, da intimidade ou da afinidade. Mas aquilo […]