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Água, imaginário e espiritualidade

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17.02.2020 - 11:13:53
 
“Águas de Março”, música composta por Tom Jobim, é considerada uma das mais belas letras da historiografia musical brasileira. Em seus eloquentes versos constam trechos como este: “São as águas de março fechando o verão/É promessa de vida no meu coração”. Numa feliz iniciativa, a Organização das Nações Unidas instituiu desde 1992 o dia 22 de março como sendo o Dia Mundial da Água.
 
Da mesma forma que a natureza como um todo, o precioso líquido tem sofrido nas últimas décadas lamentáveis ataques a sua integridade, numa materialização infeliz do que propusera o filósofo da ciência, Francis Bacon, que advogava a malfadada tese de que a natureza deve submeter-se ao homem assim como um escravo se submetia aos caprichos de seu senhor.
 
A água não vitaliza apenas as formas de vida vegetais e animais, dentre as quais o ser humano. Neste último, ela dá vida a todo um universo de simbolismos, arquétipos e psicologias peculiares que se enfeixam sob a chave do imaginário, que é definido, conforme Gilbert Durand em “As Estruturas Antropológicas do Imaginário”, como sendo “o conjunto das relações de imagens que constituem o capital pensado do homo-sapiens”. Assim, a água dá vida não só ao corpo humano, mas vivifica também, e de maneira plena, o psiquismo da humanidade.
 
Em A Água e Os Sonhos: Ensaio Sobre a Imaginação da Matéria, Gaston Bachelard expõe de maneira bastante didática as complexidades que envolvem a água e o psiquismo, apontando como a poética se debruça sobre essa estreita relação para a elaboração de composições importantes no universo das artes em todos os tempos e lugares. Nessa obra, Bachelard menciona instigante estudo de Marie Bonaparte, que põe em evidência importantes matizes psicológicos do poeta Edgard Allan Poe em sua relação com a água como elemento que vincula sua poesia a dados biográficos envolvendo sua mãe.
 
Na literatura goiana, por sua vez, uma das mais bem elaboradas narrativas da contística brasileira, Nhola dos Anjos e A Cheia do Corumbá, de Bernardo Élis, tem o elemento aquoso como espacialidade fluida que galvaniza o drama dos protagonistas. Com a enchente que se segue às chuvas torrenciais, a água invade e arrasta o arremedo de residência de Nhola dos Anjos e do filho Quelemente.
 
O texto magistral de Bernardo Élis põe em evidência um importante aspecto referido por Gilbert Durand em seu tratado sobre o imaginário. Segundo o pesquisador francês, importantes elementos da simbologia do imaginário podem apresentar uma ambivalência no que diz respeito a suas correspondências na vida humana e animal. Assim, a água clara, cristalina, refrescante, opõe-se naturalmente às águas tormentosas, escuras, furiosas de enchentes, tsunamis, lama, deslizamentos.
 
Outro importante conto do único escritor goiano pertencente à Academia Brasileira de Letras que apresenta uma singular correlação entre o elemento aquático e a “desumanidade” do ser humano é A mulher que comeu o amante, em cuja narrativa o leitor quase vê na tela da imaginação as cenas descritas graças à extraordinária estilística de Élis, que se caracteriza por exuberante sinestesia.
 
Nessa peça contística, a personagem feminina dá cabo da vida de seu parceiro improvisado diante de um poço, cujas águas são tranquilas e belas, para ficar com o amante, que parece ser a próxima vítima da sinistra figura cujo etos de mulher perversa também é explorado por Gilbert Durand sob as lentes do imaginário na cultura universal.
 
O livro mediúnico de Chico Xavier, intitulado Contos Desta e Doutra Vida, atribuído ao espírito do escritor maranhense, Humberto de Campos, traz uma singular narrativa que guarda instigantes correspondências com o conto de Bernardo Élis. Obviamente, o texto se encontra impregnado do imaginário espírita. E a água, no caso, remete à fala de Jesus a Nicodemos, no evangelho, quando o Mestre Nazareno afirma que é necessário nascer de novo, tanto da água quanto do espírito.
 
No próximo mês de abril, a Pontifícia Universidade Católica de Goiás realiza o seu já tradicional encontro de Ciências da Religião. O “X Congresso Internacional em Ciências da Religião” terá como tema geral “Religião, espiritualidade e saúde: os sentidos do viver e do morrer”, que será trabalhado em diversos grupos de estudo e simpósios temáticos.
 
A Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais-Aephus realizará no Simpósio Temático 5 do X Congresso Internacional em Ciências da Religião, sob a rubrica de “Espiritismo, Espiritualismo e Espiritualidades”, o seu 3º Fórum de Pesquisa Filosófica e Social sobre o Espiritismo. Criada por iniciativa da Prof. Dra. Ângela Teixeira de Moraes, a instituição abriga em seu Conselho Acadêmico diversos pesquisadores doutores e mestres de diferentes áreas das Ciências Humanas, que têm disponibilizado em e-books no site institucional (https://aephus.org.br/) trabalhos oriundos de pesquisas apresentadas em torno da interação epistemológica entre o espiritismo e as humanidades.
 
Assim, no X Congresso Internacional em Ciências da Religião desdobraremos em texto mais amplo a ser publicado nos anais do encontro e, mais ampliado, no próximo e-book institucional da Aephus, uma abordagem em literatura comparada que tratará da correlação, via imaginário, dos textos de Bernardo Élis e Chico Xavier/Irmão X acima mencionados numa perspectiva interdisciplinar entre o capital pensado da literatura e o capital pensado do espiritismo franco-brasileiro, numa cartografia interacional entre espiritismo e literatura.
 
Gismair Martins Teixeira é Pós-Doutorando em Ciências da Religião pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás. Professor da Secretaria de Estado da Educação de Goiás, lotado no Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte.
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por Gismair Martins Teixeira

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