José Abrão
Goiânia – Após quase 30 anos de negociação, saiu do papel o Acordo Mercosul-UE, que vai reduzir tarifas e barreiras aduaneiras e sanitárias entre os países sul-americanos e a Europa, valendo desde o dia 1º de maio. Trata-se do maior acordo comercial do mundo, cobrindo dois continentes com 720 milhões de pessoas e um PIB somado de US$ 22 trilhões. A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) publicou um estudo que mostra como o tratado impacta a indústria e o mercado goiano.
De forma geral, o estudo mostra que Goiás tende a ser um dos estados mais beneficiados pelo acordo, principalmente porque a pauta de exportação é bastante alinhada à demanda do mercado europeu. A União Europeia compra 12,5% de todas as exportações goianas, um percentual que pode aumentar com o acordo.
A redução das tarifas também facilitará a entrada de insumos, máquinas, equipamentos e outros produtos europeus no Brasil. Isso tende a reduzir o custo de produção de diversos setores da indústria goiana, aumentando sua produtividade e competitividade. O total de exportações de Goiás para a UE é de US$ 1,68 bilhão, e a expectativa é de um aumento de US$ 218 milhões. Espera-se a abertura de 24.200 empregos nos setores exportadores nos próximos anos.
Segundo o economista Luiz Carlos Ongaratto, o acordo “é um divisor de águas” por dar acesso direto ao maior bloco comercial do mundo. “Para Goiás, representa a oportunidade de expandir vendas, atrair novos investimentos produtivos e modernizar o parque industrial local por meio de parcerias estratégicas”, afirma. “O acordo zera tarifas de quase todos os produtos industrializados logo no início, o que incentiva Goiás a vender menos matéria-prima bruta e mais produtos processados com maior valor agregado”, avalia.
Ongaratto salienta que a Europa já é um parceiro consolidado do nosso estado, porém ainda com uma participação relativamente baixa no total, que tem a China como principal parceiro. “Com o acordo, esse canal de vendas ganha mais força, trazendo maior estabilidade de receita e potencial de escala para o setor produtivo goiano”, pontua.
A seu ver, o grande gargalo atual não é só produtivo, mas regulatório: “precisamos acelerar a adequação às exigências ambientais e sanitárias europeias”. Ele acrescenta que isso é um desafio, mas que, no longo prazo, é uma grande oportunidade. “Cumprir esses requisitos eleva o padrão de qualidade da indústria goiana, deixando nossas empresas prontas para competir”, completa. Entre os setores mais beneficiados, ele aponta a agroindústria, a mineração, a metalurgia, o setor de couros e a indústria química.
O economista avalia que, com o passar do tempo, o acordo também deve trazer efeitos positivos para o mercado de trabalho: “O aumento do comércio internacional estimula a criação de novos postos de trabalho, eleva a massa salarial e atrai capital estrangeiro para expandir fábricas no Estado”.
Uma oportunidade única
Emílio Bittar é CEO da Coming Indústria e Comércio de Couros, fundada há 44 anos e que exporta desde 1994. Sediada em Trindade, a empresa compra couros daqui e de outros estados e vende para várias partes do mundo.
O empresário acompanhou os 30 anos necessários para que o acordo saísse do papel e, como pontuou Ongaratto, reconhece as adequações sanitárias e de origem como a principal questão a ser ajustada. “O mercado europeu impõe diversos obstáculos para que nós levemos os nossos produtos do agronegócio ou produtos agrícolas para o mercado europeu. Ele sempre tem uma conduta de proteção de mercado. Com esse acordo, a gente tem uma abertura melhor entre a Europa e o Mercosul”, diz.
A seu ver, o acordo também chega em um momento oportuno, já que o governo Trump tem taxado pesadamente vários países do mundo, inclusive parceiros comerciais de longa data, como o Canadá, e não apenas o Brasil. “A Europa diz assim: ‘Olha, se eu tiver dificuldade com os Estados Unidos, eu vou ter facilidade com o Mercosul’. Então, nós temos agora uma possibilidade de ter uma cota muito boa de produtos para a Europa. Menos burocracia, menos documentação. Vai facilitar, inclusive, os custos de transporte para todos os exportadores que querem o mercado europeu”, pontua.

Para o mercado do couro especificamente, do qual ele faz parte, a principal vantagem vai ser a redução de diversas barreiras sanitárias, embora, naturalmente, não as elimine. “Nós assumimos os compromissos que estão vinculados ao Acordo de Paris, não só na questão sanitária, mas na questão do combate ao desmatamento e preservação da biodiversidade também e no combate ao trabalho infantil e ao trabalho forçado. Essas regras vão se manter”, explica.
A Coming já exporta para mais de 30 países, mais da metade deles asiáticos, com predominância da China. “Mas o maior concorrente da China é a Europa, só que ela está com volume pequeno agora. Por conta desse acordo, a nossa empresa já está preparada. Nós estamos programando já cotar fretes diferenciados para o Mediterrâneo, estamos prospectando participar como expositores de feiras na Europa”.
Apoio ao setor
A gerente de Internacionalização da Fieg, Juliana Tormin, afirma que o acordo representa uma oportunidade histórica, tanto para Goiás quanto para o Brasil, pois amplia o acesso da indústria a um mercado mais exigente e com maior poder de aquisição. “Para transformar essa oportunidade em negócio, depende muito da preparação das empresas para atender a todas as exigências europeias, que são bem diferentes das do mercado interno e até mesmo das de outros países que fazem parte do Mercosul”, afirma.
“A Fieg tem o papel de apoiar essas indústrias na parte de inteligência comercial, na parte de capacitação, orientação técnica, oportunidades e acesso a esses mercados, para que a gente consiga ajudá-las a converter esse potencial em acordo, em resultados concretos para Goiás”, completa.

Ela lembra que os outros países do Mercosul terão as mesmas oportunidades e que vários produtos europeus também vão ser barateados. Por isso, o empresário tem que ter em mente que pode encarar uma competição mais acirrada. “O acordo é bem abrangente. A gente tem desde a parte de alimentos e bebidas, todo o complexo agroindustrial, a parte de proteínas animais, mineração, produtos químicos, os fármacos, máquinas e equipamentos, os biocombustíveis, e o setor sucroenergético também é beneficiado”, relata.
Já a importação de produtos europeus também vai favorecer a indústria goiana, em particular na aquisição de insumos e maquinários. “Para os maquinários que têm no Brasil, mas que não atendem da forma que a indústria precisa, vai conseguir importar da Europa com o imposto reduzido. Isso é um ganho muito grande para a nossa indústria também. A parte de insumos: muitas indústrias importam insumos de outros mercados e, se estiverem dentro da lista que está negociada, também podem importar com redução, o que vai tornar o produto mais competitivo”, aponta.
O consultor de Comércio Exterior da Fieg, Flávio Falcão, é responsável por atender empresas goianas que desejam iniciar ou ampliar suas exportações, orientando todo o processo para que elas possam acessar o mercado internacional de forma planejada, estratégica e segura.
Na sua avaliação, a federação tem papel fundamental em auxiliar as empresas goianas a aproveitar os benefícios do acordo com a Europa. “O principal é a emissão do Certificado de Origem, documento obrigatório para que os produtos exportados tenham acesso às preferências tarifárias previstas no acordo. Em Goiás, a Fieg é a única entidade habilitada para emitir esse certificado”, conta. “Além disso, orientamos as empresas sobre as Regras de Origem, prestamos consultoria técnica durante o processo de emissão do certificado e esclarecemos como utilizar corretamente os benefícios do acordo”, completa.

E a procura já começou: “temos observado um interesse crescente das empresas, principalmente na busca por informações sobre as oportunidades do acordo e sobre os procedimentos necessários para exportar com segurança e aproveitar as vantagens comerciais oferecidas”.
Alguns segmentos também enfrentarão uma concorrência maior de produtos importados. “Nesse cenário, a Fieg tem um papel essencial na preparação das indústrias goianas, orientando as empresas para que aumentem sua competitividade, conheçam as oportunidades e os desafios do acordo e estejam preparadas para competir em igualdade de condições com os produtos da União Europeia. Portanto, o acordo traz desafios, mas o saldo esperado para Goiás é positivo. As empresas que se prepararem desde agora estarão em uma posição muito mais favorável para aproveitar as oportunidades geradas pela abertura comercial”, finaliza Falcão.
