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A urgência e o método

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03.03.2026 - 10:30:27

Para quem não leu o texto anterior desta coluna, inauguramos hoje uma mudança de perfil e frequência. Com um novo nome — “Laboratório Público — Ciência, política e meio ambiente” —, e agora a cada 15 dias, passamos do perfil genérico dos últimos três anos a um recorte mais específico, condizente com meus interesses atuais e com questões que entendo serem centrais para o tempo que vivemos. A pergunta de fundo será sempre: “Qual o papel social da ciência, e como isso influencia a maneira pela qual produzimos conhecimento?”

Pare e inevitável iniciar essa nova fase falando sobre a polilaminina e todo o debate público das últimas semanas em todo do trabalho da bióloga Tatiana Sampaio, professora da UFRJ. A menos que você tenha tirado férias e desligado a internet recentemente, deve ter ouvido ou lido algo a respeito. 

A polilaminina é uma versão de laboratório da laminina desenvolvida para estimular a regeneração de conexões nervosas após lesões na medula espinhal. A laminina é uma proteína natural do corpo humano que atua como suporte estrutural e guia para o crescimento e organização das células, especialmente no desenvolvimento e na regeneração de tecidos, incluindo o sistema nervoso. A equipe de Tatiana investigou o uso dessa molécula como potencial terapia regenerativa para paralisia decorrente de traumas de coluna, tendo realizado aplicações exploratórias em pacientes com lesão medular com resultados promissores. A autorização da Anvisa, em janeiro de 2026 para iniciar a chamada “Fase 1” de ensaios clínicos projetou sua pesquisa para o centro do debate científico e público recente, com todo o ruído característico das redes sociais e da polarização que se projeta sobre qualquer assunto na esfera pública hoje em dia.

Como tenho dito, precisamos hesitar mais e responder menos, estimular dúvidas em vez de nos apressarmos em solucioná-las.  Para isso, é preciso encontrar uma entrada para o assunto que reposicione as peças no tabuleiro, que permita dar a volta à polarização e aos binarismos e expô-los em sua inutilidade para responder a muitas das perguntas mais relevantes — ou antes para mostrar como nos impedem de ver e silenciam elementos importante da questão.

Há, nesse sentido, um aspecto da polilaminina central para os rumos do debate, mas ainda pouco explorado: a maneira pela qual ela coloca em tensão, para não dizer em choque direto, tragédias e esperanças pessoais, de um lado, e o processo coletivo da ciência de outro.

É um problema sem resposta fácil, que não favorece nem os entusiastas nem os céticos, e que toca fundo na relação entre ciência, política e sociedade. É o tipo de visada que faz hesitar e perceber que estamos falando de questões muito complexas, que merecem ser debatidas e enfrentadas, mas que a velocidade e o ruído do debate acabam negligenciando.

Se meu filho sofresse um acidente e um trauma medular, é óbvio que eu recorreria à Anvisa e à Justiça, se precisasse, para que ele pudesse ser tratado com a polilaminina. Importante esclarecer, nesse sentido, que o chamado “uso compassivo” é legalmente permitido em casos em que não há tratamento e onde os riscos envolvidos justificam o uso de uma substância experimental. 

Não me parece justo, portanto, falar em desinformação ou em comoção exagerada diante do que está ocorrendo. Eram já 28 ordens judiciais para a disponibilização da substância até o fim de fevereiro, com os pedidos se multiplicando a cada dia com a divulgação crescente do estudo. A reação é proporcional ao tamanho das tragédias e das dores individuais envolvidas. Não é possível fugir disso.

Por outro lado, não se podem negar os impactos da controvérsia e desses pedidos sobre a própria pesquisa. Não sei dizer qual a capacidade dos laboratórios da Cristália — empresa que se tornou parceira da pesquisa e que a está financiando — para atender à demanda que se avoluma. Até aqui, pelo que pude apurar, têm declarado que vão seguir atendendo às ordens para uso compassivo. Todavia, a depender do volume, pode-se chegar a um limite concreto de produção, e isso trará uma série de outros problemas. Faz sentido começar a produzir em escala industrial uma substância ainda não testada e aprovada porque representa uma esperança? Não sei responder, mas é uma questão verdadeira e que pode em breve se colocar.

Pode ser que, à medida em que se multipliquem as aplicações, a polilaminina não se mostre tão eficaz ou que surjam efeitos inesperados e então o entusiasmo arrefeça e a esperança morra. Espero que não. Tomara que os casos de recuperação se multipliquem e tenhamos um tremendo problema positivo com que lidar. 

Mas, se o abacaxi aumentar de tamanho, com mais e mais relatos de medulas reconstituídas, tornando mais e mais provável que a substância seja responsável por isso, como garantir que os protocolos científicos sejam seguidos de forma adequada? Serão ainda anos de estudo para que um medicamento chegue de fato ao mercado e ao SUS.

Sabemos bem as consequências da introdução apressada ou pouco transparente de novas tecnologias em nossas vidas — agrotóxicos, energia nuclear, organismos geneticamente modificados são fontes de questionamentos legítimos sobre falta de transparência na relação entre a ciência, interesses econômicos e a tecnocracia que toma decisões em nome do dito “bem comum”. A mesma Anvisa que avalia a segurança da polilaminina é a que decide a liberação de defensivos agrícolas. O desespero e a esperança daqueles com traumas medulares devem justificar uma aceleração ou simplificação de procedimentos que parece absurda quando falamos em agrotóxicos? 

E há outras tensões éticas que se colocam, como aquela entre a necessidade de grupos de controle e testes com placebo e a gravidade trágica da condição dos pacientes, como aponta o economista Daniel Negreiros Conceição em artigo no Le Monde Diplomatique. É moralmente aceitável, nesse caso, convidar uma pessoa para um tratamento experimental em que ela pode receber a substância ou um placebo para que se garanta a robustez dos resultados? É o que parecem exigir alguns dos críticos — e é compreensível que a questão se coloque, pois faz parte do protocolo científico —, mas não é possível fugir do debate ético e de questões difíceis que se situam na interface entre ciência e sociedade.

“Mas estamos falando de um remédio com potenciais efeitos benéficos, e isso é diferente de um agrotóxico” — o exemplo da talidomida deveria bastar para trazer cautela. Lançada no fim dos anos 1950 como sedativo e antiemético para gestantes, a talidomida causou má-formação nos membros de milhares de bebês. Foi retirada do mercado em 1961 e é emblemática porque foi diretamente responsável pelo endurecimento global dos protocolos de aprovação de medicamentos. 

O que isso diz sobre como decidimos coletivamente o que é urgente e o que pode esperar? Bem, a história da talidomida não terminou em 1961. Ela continua sendo usada no Brasil, de forma controlada, para hanseníase, mieloma múltiplo e outros problemas de saúde. A substância foi ressignificada, com outros protocolos, para outras condições. Isso mostra que o processo científico, lento e coletivo, tem uma lógica própria que não é nem burocracia inútil nem inimiga da esperança individual.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / [email protected]

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