O Brasil está diante de uma decisão que vai muito além da organização da jornada de trabalho. Acabar com a escala 6×1, sem reduzir salários, significa reconhecer que milhões de trabalhadores não podem continuar vivendo apenas para trabalhar, descansar pouco e recomeçar tudo de novo na semana seguinte.
A proposta defendida pelo governo Lula, prevista para votação no dia 27 de maio, estabelece limite de 40 horas semanais, dois dias de repouso e manutenção salarial. A medida pode beneficiar ao menos 37 milhões de trabalhadores e trabalhadoras. Não se trata de privilégio. Trata-se de devolver ao povo brasileiro algo básico: tempo para viver.
É preciso, porém, atenção. Há parlamentares tentando transformar uma conquista em armadilha, defendendo redução de jornada acompanhada de corte salarial. Reduzir jornada diminuindo salário não é modernização. É retrocesso. É fazer o trabalhador pagar por um direito que deveria protegê-lo.
A escala 6×1 representa um modelo ultrapassado de organização do trabalho. Um modelo neoliberal que naturaliza o cansaço, esgota o corpo, adoece a mente e empurra milhões de pessoas para uma rotina sem convivência familiar, estudo, lazer ou participação social.
Trabalhadores descansados produzem melhor. Experiências internacionais já demonstraram que a redução da jornada, quando feita sem redução salarial, pode melhorar o bem-estar, aumentar a satisfação e, em muitos casos, elevar a produtividade. Menos exaustão significa menos afastamentos, menos rotatividade, mais foco e mais eficiência.
Há também uma dimensão de saúde pública não pode ser ignorada. A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho associam jornadas muito longas, especialmente acima de 55 horas semanais, ao aumento do risco de AVC e morte por doença cardíaca. No Brasil, a Previdência Social registrou 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025, alta de 15,66% em relação a 2024.
Esses números mostram que o cansaço deixou de ser uma experiência individual e se tornou um problema coletivo. Quando o trabalho adoece, perde o trabalhador, perde a família, perde o sistema de saúde, perde a economia e perde o país.
A mudança também é urgente para as mulheres. A escala 6×1 pesa ainda mais sobre quem enfrenta, além do emprego formal, a sobrecarga do cuidado, da casa, dos filhos, dos idosos e da organização da vida familiar. Segundo o IBGE, em 2022, as mulheres dedicavam 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e/ou cuidados de pessoas, contra 11,7 horas dos homens. Mesmo entre pessoas ocupadas, elas ainda realizavam 6,8 horas a mais desse trabalho por semana.
Para essas mulheres, dois dias de repouso não significam apenas descanso. Significam a possibilidade de respirar, reorganizar a vida, estudar, cuidar da saúde, conviver com os filhos e existir para além da sobrevivência.
O fim da escala 6×1 sem redução salarial é uma medida de valorização do trabalho e de inteligência produtiva. Um país moderno não pode crescer baseado na exaustão de quem trabalha. Precisa crescer com organização, tecnologia, qualificação e respeito à vida.
O Brasil não deve competir pelo cansaço do seu povo. Deve avançar pela capacidade de organizar melhor o trabalho, distribuir melhor o tempo e garantir que desenvolvimento também signifique dignidade para quem produz a riqueza deste país.
*Fábio Tokarski é engenheiro civil, professor da Universidade Federal de Goiás e presidente do Inova Brasil.

Parabéns pela reportagem e posições muito importantes do Professor Fábio Tokarski,tomara que seja eleito para melhorar a representação de Goiás na Câmara dos Deputados.