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A Saga de Anatahan

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04.09.2017 - 09:03:41
Goiânia – A capacidade extraordinária de vincular uma primorosa composição estética envolta em ilusionismo e sensualidade é uma marca singular na obra do diretor austríaco Josef von Sternberg, um autêntico mestre do cinema, cujo domínio no que tange às técnicas cinematográficas margeiam sua obra com uma contundência única. Quando seu nome é citado, logo a recordação da diva Marlene Dietrich insurge devido a uma parceria de valor inestimável à sétima arte marcada por grandes filmes: Anjo Azul (1930), Marrocos (1930), Desonrada (1931), O Expresso de Shanghai (1932), A Vênus Loira (1932), A Imperatriz Vermelha (1934) e A Mulher Satânica (1935).
 
Entretanto, mesmo após um período de extrema criatividade a serviço do cinema, é com A Saga de Anatahan (1953) – o seu canto do cisne -, que o diretor atinge, de fato, o seu grande filme. Sternberg discorre a respeito de eventos verídicos que contempla soldados sobreviventes japoneses, durante a segunda guerra mundial, que se adentram em uma ilha do pacífico e que ficaram por lá, durante sete anos, recusando-se a acreditar na derrota japonesa. A paisagem do local é um assombro, sendo constituída por uma selva de onde irrompem raízes de cedros enormes em meio a trepadeiras e musgos.
 
O próprio diretor narra a película que expõe sobre os fatos decorridos e o estado emocional dos personagens. Há diálogos entre os japoneses, embora não haja legendas, é a voz de Sternberg que se sobrepõe em um recurso confeccionado de modo preciso. No local, vive um casal cuja mulher Keiko (Akemi Negishi) – sucessora à altura de Dietrich – consegue se esquivar da ferrenha vigilância do marido (Tadashi Suganuma) e provoca o desejo sexual dos homens com sua beleza descomunal que encanta e enfeitiça os soldados, o que acarreta uma sequência portentosa em que ela, ao tomar um banho em uma espécie de um ofurô em meio à chuva, aguça ainda mais os sentidos e a imaginação masculina, levando-os a uma disputa por poder, a uma degradação moral e à morte. A referida cena é inesquecível e exala fortes tintas eróticas que talvez tenha subsidiado Walter Hugo Khouri na execução de Noite Vazia (1964), especialmente, na cena em que a chuva no apartamento de um de seus personagens irradia uma sensualidade ímpar em meio aos corpos ardentes.
 
Os homens se tornam reféns de Keiko, a qual, conscientemente, ou não, demonstra-se soberana e escancara a irrelevância masculina ante a uma mulher. Josef von Sternberg se vale deste microcosmo para emular os males intrínsecos da humanidade em suas disputas por poder e a mítica presença feminina que é o centro e a causa, por meio de seu fascínio, que acarreta a degradação do homem. Ao se aperceber dos dissabores provenientes do status do poder, Keiko desaparece, misteriosamente, da ilha se abdicando de seu poder por ter vislumbrado o quão nocivo ele pode ser. Ela reaparece na cena final, juntamente, com os sobreviventes da ilha que foram resgatados por um navio americano após sete anos. Os soldados japoneses retornam como heróis para a sociedade, apesar do sentimento íntimo ser contrário. O cenário envolve acalanto e alegria pelo reencontro entre entes queridos mergulhado em memórias que se fundem à face melancólica de Keiko, imiscuindo a imagem de vivos e mortos por meio de uma composição estonteante envolvendo luzes e sombras.
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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