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A peste

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15.10.2018 - 16:51:44

Finalmente chegara a chuva. Ela estava no cinema quando o aguaçal entoou uma sinfonia familiar contra o teto do shopping. Protegida do temporal, respirou aliviada. Estava segurando o fôlego fazia alguns meses. Muito sol, poeira e suor.
 
Secretamente, ela culpava o clima por algumas das coisas estranhas que estavam acontecendo à sua volta. As manchetes e noticiários só falavam de uma coisa: as criaturas esquisitas que estavam ocupando os cantos da cidade. Elas saíam à noite dos bueiros, afugentadas pelo calor sufocante do subterrâneo.
 
No começo, parecera normal. Era esperado praquela época do ano, quer dizer, não era totalmente incomum. Não era o que pensava Aurora. Pra ela, as criaturas pareceram maiores e em maior quantidade do que nos outros anos. E não se preocupavam mais em se esconder. Eram avistadas de dia dentro dos ônibus e até mesmo nos andares mais altos de imponentes prédios comerciais. As pessoas nem gritavam ou fugiam mais.
 
A imprensa tentava alertar para a gravidade da situação, especialistas abusavam dos argumentos de autoridade prevendo que a situação beirava à calamidade pública. Governos estrangeiros chegaram a esboçar preocupação. Alguns grupos se uniram e fizeram a proposta de isolar a cidade pra que as criaturas não se espalhassem para outros lugares. Mas as pessoas se acostumaram. Quer dizer, nem todas. Aurora até comparecera a uma manifestação, milhares de pessoas gritavam pedindo que a população se indignasse e cobrasse atitudes do governo e demais instituições para combater aquela praga que ameaçava a cidade antes que fosse tarde demais. Não fora o suficiente.
 
Os outros estavam convencidos de que não havia nada demais com as criaturas e até pensavam que elas traziam benefícios. Se livravam de outros bichos que picavam ou assustavam velhos e crianças, a cidade estava mesmo precisando daquelas criaturas. Até que chegara a chuva. Aurora acreditava que as criaturas deviam voltar para os esconderijos. A água a protegeria do Sol e do suor – e das criaturas. A lama parecia até uma inconveniência pequena diante do mal estar que dominava a cidade nos últimos tempos. Água era esperança. Aurora pensava que se as criaturas fossem embora, a cidade voltava ao normal. O normal não era o melhor, ainda faltava muito praquela cidade ser tão boa que não houvesse nenhum problema. Mas o normal era melhor do que aquela alteração esquisita das coisas.
 
Ela se aninhou melhor na cadeira do cinema, apertou forte a mão do seu companheiro e sorriu. Mais tarde ela saberia que esperara das águas mais do que ela podiam oferecer. Mas não agora. Agora ela sentia que ia ficar tudo bem. 
 

Manuela Costa é escritora e estudante de Audiovisual na Universidade de Brasília. Trabalha com comunicação digital na área ambiental e de Direitos Humanos desde 2015. Publicou o conto As Dores de Josefa e outros dois textos pela editora Nega Lilu em 2016.

 
 
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por Manuela Costa

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