Logo

A peste

WhatsAppFacebookLinkedInX
15.10.2018 - 16:51:44

Finalmente chegara a chuva. Ela estava no cinema quando o aguaçal entoou uma sinfonia familiar contra o teto do shopping. Protegida do temporal, respirou aliviada. Estava segurando o fôlego fazia alguns meses. Muito sol, poeira e suor.
 
Secretamente, ela culpava o clima por algumas das coisas estranhas que estavam acontecendo à sua volta. As manchetes e noticiários só falavam de uma coisa: as criaturas esquisitas que estavam ocupando os cantos da cidade. Elas saíam à noite dos bueiros, afugentadas pelo calor sufocante do subterrâneo.
 
No começo, parecera normal. Era esperado praquela época do ano, quer dizer, não era totalmente incomum. Não era o que pensava Aurora. Pra ela, as criaturas pareceram maiores e em maior quantidade do que nos outros anos. E não se preocupavam mais em se esconder. Eram avistadas de dia dentro dos ônibus e até mesmo nos andares mais altos de imponentes prédios comerciais. As pessoas nem gritavam ou fugiam mais.
 
A imprensa tentava alertar para a gravidade da situação, especialistas abusavam dos argumentos de autoridade prevendo que a situação beirava à calamidade pública. Governos estrangeiros chegaram a esboçar preocupação. Alguns grupos se uniram e fizeram a proposta de isolar a cidade pra que as criaturas não se espalhassem para outros lugares. Mas as pessoas se acostumaram. Quer dizer, nem todas. Aurora até comparecera a uma manifestação, milhares de pessoas gritavam pedindo que a população se indignasse e cobrasse atitudes do governo e demais instituições para combater aquela praga que ameaçava a cidade antes que fosse tarde demais. Não fora o suficiente.
 
Os outros estavam convencidos de que não havia nada demais com as criaturas e até pensavam que elas traziam benefícios. Se livravam de outros bichos que picavam ou assustavam velhos e crianças, a cidade estava mesmo precisando daquelas criaturas. Até que chegara a chuva. Aurora acreditava que as criaturas deviam voltar para os esconderijos. A água a protegeria do Sol e do suor – e das criaturas. A lama parecia até uma inconveniência pequena diante do mal estar que dominava a cidade nos últimos tempos. Água era esperança. Aurora pensava que se as criaturas fossem embora, a cidade voltava ao normal. O normal não era o melhor, ainda faltava muito praquela cidade ser tão boa que não houvesse nenhum problema. Mas o normal era melhor do que aquela alteração esquisita das coisas.
 
Ela se aninhou melhor na cadeira do cinema, apertou forte a mão do seu companheiro e sorriu. Mais tarde ela saberia que esperara das águas mais do que ela podiam oferecer. Mas não agora. Agora ela sentia que ia ficar tudo bem. 
 

Manuela Costa é escritora e estudante de Audiovisual na Universidade de Brasília. Trabalha com comunicação digital na área ambiental e de Direitos Humanos desde 2015. Publicou o conto As Dores de Josefa e outros dois textos pela editora Nega Lilu em 2016.

 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Manuela Costa

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]