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A perda do meu melhor amigo, Raulindo

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28.06.2020 - 15:05:50

Goiânia – Eu mal dormida noite, de madrugada, uma sensação anuviada da tristeza de uma grande perda se apoderou de meus pensamentos. Iniciava-se menor o segundo domingo da grande família.
 
Em 12 dias da ausência de meu irmão Raulindo, ainda me vejo como anestesiado, sentindo cada vez mais forte sua presença quase física e mental. Incrédulo.                                                    
 
Adoro todos meus outros sete irmãos, mas com ele a aproximação sempre foi maior, pois quando éramos jovens adultos, os mais novos curtiam a adolescência ou a infância. Foi sempre meu melhor amigo. Nossa identificação era tanta que quando ele e Ana retornaram da lua de mel, de uma viagem à Alemanha, os recém casados foram morar em minha casa, até se ajeitarem na nova vida.
 
Lembro-me do orgulho que demonstrou no lançamento de meu livro de memórias, ano passado, em Goiânia, com seu entusiasmo por ser o personagem central de várias crônicas sobre nossa vivência. Dizia sobre o escrito: “o caso do Seminarista, do Scoda conversível, o parceiro das aventuras da Pizzaria 110 ou da P-16, o cara sou eu”.
 
Mas o que mais me preocupa é a tristeza da poltrona vazia do apartamento da mamãe, por ele ocupada sistematicamente toda manhã de domingo, quando saía da missa e ia para grandes e agradáveis conversas com dona Nenzinha no ápice da jovialidade de seus quase 99 anos. As falas duravam toda manhã. É uma provação muito dura para mamãe, que só o tempo aliviará.
 
Em minha última ida a Goiânia, ele onde morava, fomos eu, a Clas, ele, o amigo Valterli e seu filho Bruno, tomar uma cerveja no Bar Vitória, um dos mais afamados botecos da cidade. Raulindo era um aficionado pelas delícias de boteco, um apaixonado por uma boa cerveja, que sabia beber como ninguém, sem a menor pressa em esvaziar o copo.
 
De lá fomos apreciar uma bela feijoada em seu apartamento nas vizinhanças. Coincidentemente lá estava reunida toda sua família – sua mulher Ana, as filhas Lalá e Lu, que moram em Brasília, e Gustavo.
 
Como bom anfitrião e apaixonado pela boa música do clássico popular, mantinha uma das mais ricas discotecas com milhares de discos em vinil, com todos os grandes sucessos do recente passado. A primeira coisa que fez foi me homenagear colocando na vitrola os grandes clássicos do faroeste americano, como “O Dólar Furado”, “Django” e “Alamo”. Depois as músicas de seu gosto. Seu maior ídolo sempre foi Altemar Dutra, com a canção “Sentimental eu sou, eu sou demais”. Fazia uma segunda voz ao ouvi-la. Foi tão boa a tarde, que seu filho Gustavo brincou que até parecia despedida. E foi.
 
Raulindo sempre foi uma pessoa correta, discreta, sistemática, excelente administrador e do mais agradável convívio.
 
Torço para que minha ficha nunca caia e as lembranças permaneçam sempre vivas em mim.
 
Saudades.
 
José Osório é jornalista e escritor
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por José Osório

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