Logo

A paella e o subjuntivo

WhatsAppFacebookLinkedInX
10.07.2014 - 16:18:47
(Foto: Thiago Borges)

Goiânia – Quando você é médico, e não importa qual seja sua especialidade, você vira a salvação da sua família. Qualquer dor, mancha ou tosse de algum parente ou vizinho se converte em uma ligação para você. São ossos do ofício, e acho que dá para viver bem com isso.

Quando se é professor de português a demanda é bem menor, mas existe. E eu confesso que adoro, nada me incomoda menos que uma pergunta sobre o uso da língua.

Só é ruim quando eu não sei responder, mas isso se torna motivo para estudar mais ainda. Dia desses minha sobrinha, que mora em Brasília, enviou uma questão da prova dela pelo whatsapp e eu acabei dando uma aula de colocação pronominal.

Semana passada, estávamos jantando em família para comemorar o aniversário da minha mãe, e ela me disse que o Marcelo Rezende, apresentador do Cidade Alerta, tem mania de dizer coisas como “se eu sou esse delegado…”. Ela me perguntou se estava certo.

Eu estava terminando de mastigar para responder, quando meu irmão, que fez Física, Engenharia e Análise de Sistemas me atropelou e começou a discursar. “Ele sabe que não está certo, ele é jornalista, é um cara muito culto. Mas ele fala assim para se aproximar do público, para ganhar audiência, para falar a mesma língua da maioria que assiste o programa, é estratégia”. E eu não precisei explicar mais nada.

Meu outro irmão, que é fotógrafo, resolveu tirar onda comigo porque um dia, distraidamente, eu disse que ia comprar “quinhentas” gramas de salaminho. “Foi estratégia também?”, brincou o engraçadinho.

A verdade é que todos estavam certos. A língua portuguesa é riquíssima, tanto quanto nossos ambientes e o modo de falar em cada um deles. Diferentemente da linguagem escrita, que segue a norma culta e precisa ter um padrão, a linguagem oral é mais livre. Não quer dizer que tudo esteja certo, mas muito é permitido.

No caso de Marcelo Rezende, o certo seria dizer “se eu fosse o delegado”. Trata-se do pretérito imperfeito do subjuntivo, que nesse caso expressa ideia de condição ou desejo. Mas quando ele mistura as conjugações e usa a “língua do povo”, ele se aproxima mais do telespectador, que o percebe sendo “gente como a gente”.

No meu caso foi um lapso mesmo. Mas em alguns lugares, se você pede quinhentos gramas, trezentos gramas de alguma coisa, as pessoas ficam olhando com vontade de rir, achando que você está falando errado. Acontece que grama, unidade de peso, é substantivo masculino. A grama é aquela verdinha, do vizinho, do campo de futebol.

É muito mais rico você adaptar sua linguagem ao meio quando você conhece bem a língua e faz bom uso dos trocadilhos e da fala popular. Mas existem muitos apresentadores que têm um vocabulário popular até demais, cheio de erros grotescos que passam longe de fazerem parte de um plano consciente. Aí já beira o desrespeito a quem espera uma programação de qualidade.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]