Enquanto atravessamos o surto pandêmico do novo coronavírus, vislumbramos seus efeitos e as inevitáveis mudanças na maneira como vivemos. Essas já estão acontecendo e é preciso adaptar-se. Com a arquitetura não é diferente.
O isolamento proporcionou um redescobrimento das habitações e a relação que temos com elas. Foram transformadas em verdadeiros “coworkigs” utilizados por toda a família e, por isso, trava-se diariamente uma batalha entre as necessidades produtivas do trabalho e a interferência da rotina doméstica.
Os ambientes devem, agora, ser planejados de modo a suprir as demandas da família que passa mais tempo em casa. Os cômodos subutilizados são abandonados para que surjam espaços integrados para ampla convivência dos moradores. O mobiliário acompanha o conceito, fazendo-se multifuncional, com várias atividades sendo realizadas no mesmo local. Fomos colocados, à força, diante de uma realidade residencial híbrida. Mas esta, apesar de significativa, não foi a única que induziu mudanças no estilo de vida que conhecemos, ou conhecíamos.
A concepção da responsabilidade social e ambiental, se amplificou, preterindo o cotidiano individual em prol do bem coletivo, já que percebemos uma sensível trégua nas agressões humanas ao planeta. Começa a sociedade a refletir sobre como é preferível estar em locais aconchegantes, mas sem excessos; sobre evitar consumo em demasia e desperdício. A urgência em economizar favorecerá a consolidação de habitações que reverberam hábitos sustentáveis.
Práticas como uma maior conexão com a natureza através do paisagismo decorativo e priorização de atividades que envolvam o reaproveitamento de objetos, como o movimento DIY (Do it yourself – ou “Faça você mesmo”), em detrimento de novos gastos, começam a ganhar muita força.
Nesse sentido, nunca a arquitetura teve tanto relevo, movendo-se na direção dessa nova ressignificação do lar. A nova ordem impõe a prevalência de três R´s, seja qual for o perfil dos habitantes de uma casa: Reorganize, Reinvente e Reviva. Os espaços residenciais já começam a expor essa tendência e responsabilidade social e ambiental cada vez andam mais juntas.
O Reorganize caracteriza-se como uma nova modelagem para aqueles que se encontram insatisfeitos com a disposição interna de suas habitações, por, entre outros motivos, não atender mais à rotina da casa. Uma nova proposta, utilizando do mobiliário e peças decorativas existentes ilustra a possibilidade de recriar espaços, de maneira funcional sem que seja preciso adquirir outros itens.
O Reinvente engloba, principalmente, projetos de habitações alugadas, nos quais é inviável recorrer a grandes intervenções. Considera-se, assim, igualmente, o mobiliário existente, restaurando-o e evitando-se que seja descartado (reciclagem). Além disso, admite-se que alguns artigos sejam obtidos em empresas de segunda mão, priorizando o comércio local. A medida incentiva a identidade urbana da região, e valoriza os pequenos estabelecimentos que sofrem as sequelas da pandemia.
Por fim, o Reviva, contemplando projetos que transformam o interior das residências, abrindo espaço para intervenções significativas, incorporando o hibridismo da nova concepção habitacional.
O produto final desses três R's são transformações conscientes e pragmáticas que visam a promoção de uma qualidade de vida e saúde mental dos usuários, comprometidas com a obrigação da consciência ambiental e com o novo rumo a ser tomado pelos indivíduos em suas casas.
Tudo mudou. Um novo normal surgiu, como andam dizendo. Nossas casas nunca mais serão como antes. A Arquitetura, felizmente, como ciência em constante evolução e adaptação, tem as ferramentas para fazer essa nova normalidade algo melhor.
*Ana Luísa Martins Tibúrcio Peña é arquiteta