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A música clássica no jazz

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12.09.2014 - 22:20:14

Goiânia – Este relato é verdadeiro e aconteceu com um colega meu. Vamos à cena: encontro o rapaz, à época estudante, com um semblante assustado, surpreso, no corredor da instituição de ensino onde trabalho. Acredito ter sido o primeiro a conversar com ele naquelas condições. Ouvi sua história, cômica na verdade, que incluía frases proferidas por um professor, segundo seu relato, transtornado: “Você está achando que isso não é sério?” ou a melhor de todas “Você já viu alguma foto de Beethoven sorrindo?”

Vamos esclarecer: ele havia sido flagrado em sala de aula, pelo seu professor de piano, digamos, exercitando sua criatividade, sua capacidade de improvisação, ao deixar uma sonata de Beethoven estilisticamente próxima ao jazz, uma de suas paixões.
 
Os anos se passaram e várias vezes esse episódio veio à tona em nossas conversas. Nem sei quantas vezes contei essa história dentro ou fora da sala de aula. E mais, foi até inspiração para um amigo de infância, o personal trainer Allan Vasques, que gosta de fazer uns rabiscos nas horas vagas.

Depois de insistir muito, consegui autorização para publicar sua criação aqui, desde que ficasse claro que se trata de um desenho feito por um artista amador. Então abaixo, um típico trio de jazz, formado por um piano, uma bateria e um contrabaixo acústico.


 
Na verdade, esses “cruzamentos” de gêneros musicais não são novidade(s). Um caso parecido é do pianista americano Bill Evans (1929-1980), uma celebridade do jazz moderno. Evans teve uma sólida formação musical, inclusive graduando-se em piano pela Southeaestern Louisiana College, em 1950. Teve contato com o jazz na escola regular; gênero que escolheu para a sua vida profissional. Foi pianista da banda (sexteto) do grande trompetista e compositor Miles Davis, inclusive participando da gravação de Kind of Blue (1959), álbum que para boa parte da crítica especializada é o mais importantes da história do jazz.

Nesse trabalho, o pianista faz, por exemplo, amplo uso da harmonia modal, uma das características dos impressionistas franceses Debussy e Ravel. Aliás, Evans sempre buscou elementos composicionais característicos da tradicional música erudita europeia e muitas vezes lamentou o distanciamento dessa música com a prática da improvisação, expediente comum na época de J. S Bach.
 
Falando no gênio do barroco alemão, ouça nos vídeos abaixo, a famosa “Siciliana” da Sonata no 2 para flauta e cravo (BWV 1031). O primeiro trata-se de uma releitura do lendário Bill Evans Trio.
 

No segundo vídeo, a versão original interpretada pelo renomado flautista James Galway.

Voltando à história inicial, como esse tipo de "releitura" é vista pelos guardiões das tradições e ritos da música erudita? Acredito que a reação do nosso personagem professor, responde a esse questionamento: não com bons olhos, pelo menos por boa parte deles, por se tratar de uma ousada intervenção no patrimônio musical da chamada “música de concerto”.

Estamos falando, obviamente, de um dos pontos de vista vigentes nos conservatórios e universidades atuais, aquele ainda subordinado à ideia de sacralização da “grande arte”, iniciada no Romantismo.
 

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

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