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A máquina de desesquecer palavras

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20.03.2016 - 16:36:00
 
A dois incríveis poetas que conheço em feliz amizade, Germano Xavier e Gilberto Mendonça Teles.
 
 
“A gente às vezes se vê vontadeando amanhecer diferente, mudando tom, criando com as letras tonali(ber)dades.” As pessoas, como já disse Manoel de Barros, pensam que, se-assim, é igual gente que gosta de escovar palavra ou, em súmula, que não bate lá-muito-bem. 
 
De todo caso, foi que: um dia a cidade deu de prestar mais atenção a uma moça chamada Isabel. Que parecia saber das coisas. Cabeleira bonita, mãos bem-feitinhas, contava com orgulho que em casa tinha pé de laranja, goiabeira e ainda daria jeito de plantar umas mudas de couve, alecrim, salsinha e espinafre. Gostava de “ouvir canto de pássaro silencioso-sibilante pela manhã, quando eles vinham bulinar o vento e dançar o dia de variedades”. Erigida de uma esbelteza pura, mas firme, deu com o tempo de esvoaçar tanta diferença que, a torto e a direito, foi tendo de explicar os porquês daquela sua, digamos, estranhez: 
 
— Nada, não, gente. Isso é só de coisa de linguagem. 
 
— De linguagem? — à maioria ocorria pedir confirmação. 
 
— É, de linguagem — embora reticente, ela concluía. E dava de costas, não por falta de consideração com os outros nem desdiscernimento, mas por precisão de seguir a vida, vida como de qualquer um, dessas com manhã, tarde e noite, trabalho registrado, ônibus para ir e voltar, parcimônia nos divertimentos, e toda a hora livre que tinha em silêncio dentro de casa, como lhe apetecia, “Bordando tapete, só pode, de tão entretida”. Então-que. Assim por diante. 
 
Passado mais tempo, a estranhez ficou maior, tomando conta de tudo quanto ela… falava. 
 
Se antes era coisa de uma ou outra palavra na frase — por exemplo: “É, Seu João, hoje não está para inventura, e olha que até vai chover uns bons poucados, hein?” —, isso foi tomando proporções bem grandes, ao ponto de Isabel não conseguir dizer nem mais uma frasezinha sem que fosse quase inteira em suas principais palavras… se-como… inventadas. Como ela também passou a ter dias cada vez mais reclusa, as gentes iniciaram confabulações de que talvez a mulher estivesse era confusa das ideias, mais isso e aquil’outro.  
 
— Quando o mundo é calcaçado em repeticências assim, de nhãcedo-sido até a gente antenoitar, sei não… fica na semelhecença de que a gente nem farevive, não é, Dona Nina? 
 
Isabel dava de entender que as pessoas estavam… mas-ora… e, aqui-acolá, antecipava moda de explicar em tim-tins. Pois de conjetura a conjetura pela cidade já-toda, descobriu-se, mais em seguida, que ela nem-nada não bordava; vinha era trabalhando duro numa máquina não-muito-grande-nem-pequena. Que talvez fosse tal o motivo da deslucidez toda.
 
As pessoas, é claro, medravam. Em silêncio, mesmo em rebuliço, entre-ti-ta-lá-lá… Até que, após semanas de palavrações, decidiram correr com ela dali. Chamariam a polícia? A clínica de gente abilolada? Chamariam quem para recolher a tal mulher, deusdocéu? 
 
— Mas ela não faz mal a ninguém, faz? — ponderava Chico de Lima, também interessado. Não é que fizesse, “Mas vai saber?”, emendou-se outro dentre os em decidindo-se.
 
Eis que: num sábado de chuva bem ralinha, antes de se saber se ia ou se não ia, Isabel então resolveu convocar a parentada toda, amigos, vizinhos, vizinhos dos amigos, até quem fosse desconhecido, mas se importasse, enfins, para uma tentativa de esclarecimento. Ouviu de primeiro uma série de acusações, resmungues, jaculatórias — “é que estavam com receio, e que máquina era aquela que ela ficava lá mexendo?”. Ao que calmamente Isabel respostou:
 
— É de desesquecer palavra.
 
— Aí, não estou dizendo? Adoidou de vez… — e seria o maior tumulto, todos concordando, discordando… De finalmente que foi certo correrem mesmo com ela de lá. Convocaram gente para vestir nela camisa de força, é claro, “Só assim para ela sarar, Dona Edélzia, não chora”, tranquilizavam a mãe. Quando os homens chegaram para levar, Isabel despalavrou duas ou três sandices quaisquer e entrou, sem maiores resistências, no carro branco.
 
Sim, levaram à força. Coisas, como se diz, de não linguagem…
 
Depois de umas duas semanas, o quarto de Isabel ainda fechado, ninguém com coragem até ali para entrar e examinar a tal máquina causadora da toda desavença, até que a mãe encorajou, entrou, ficou cabreira… Se aproximando, testou, usou, experimentou a máquina. Funcionava! “Daí talvez a inventação toda de palavra, de pôr em tudo tanta minudência…”, concluía a mulher. Que nunca contou, afinal, para ninguém do que se tratava, “em respeito à Isabel”. Para desdeixar os outros curiosos, no fim concordou com mostrar o papelzinho anotado à mão pela filha, dando epígrafes à máquina: Açular palavra, escovar. Nesse mundo a palavra amor anda vazia. Pois-é preciso gente dentro dela. Convidando para maisamar. 
 
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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