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A idiotia do consenso

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07.10.2011 - 11:15:25

Não é de hoje que a frase clássica do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues é citada aos quatro ventos: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Embora já perfeitamente absorvida ao mais elementar glossário de citações, parece que seu intuito ainda não foi compreendido. E a situação fica ainda mais grave nesses fragmentados tempos de internet, onde tudo é feito com várias páginas abertas, um bate-papo online rolando, ouvindo MP3 no computador e atendendo ao celular. Hoje tudo é fast. Questionar é coisa de chato. Pensar diferente é crime de lesa-pátria. Alinhar-se é o natural. Eu não sou assim. Gosto de nadar contra a corrente, nem que seja só para exercitar. Onde há consenso, que eu leve a discórdia. Não vejo isso como um prazer, e sim como um dever. Se alguém tem que empostar a voz para dizer aquilo que você não quer ouvir, tudo certo, cá estou!

 

O último consenso que vimos foi na morte de Steve Jobs. O coro dos contentes se afinou para saudar a memória do empresário que deixou uma fortuna de U$ 7 bilhões aos seus herdeiros e zero para instituições de cunho social, diferentemente do também bilionário (e atualmente defenestrado) Bill Gates. Gênio foi o mínimo da adjetivação. O máximo? Bem, para dar uma ideia, deus foi elogio médio. Imagine o teto… Jobs foi o que todo grande empresário é: criativo, inovador e acumulou fortuna vendendo caro sua criação. Simples. Roubou ideias dos outros, foi roubado em ideias. Normalíssimo quando estamos tratando do ambiente corporativo. Está longe de ser um idealista de uma causa. Não levou tiro de ruralista como a Irmã Dorothy. Não tomou tiro de policial bandido como a juíza Patrícia Acioli. Inventou um lance massa, agregou conceito, o vendeu caro, acumulou fortuna. Simples. Não tem nada de venerável.

 

Sou usuário de um produto da Apple. Assim como nesse exato momento uso calça jeans, tênis, camiseta, vim de carro para o trabalho, peguei o elevador para descer os andares do meu prédio, liguei a televisão para assistir ao telejornal matutino. Todos esses itens foram inventados por pessoas que, se o processo foi justo, devem ter sido remuneradas pelos seus feitos. E não tenho adoração alguma pelos seus criadores. Eles colocaram os produtos à venda, eu paguei e os uso. Nossa relação é comercial. Não tenho compromisso sentimental com nada disso. Marca nenhuma ganha meu coração. Nem a Coca-Cola, nem a Apple. Nem a Ford, nem a Ambev. Marca nenhuma.

 

Talvez a grande sacada de Jobs foi ter agregado um marketing tão violento à maçãzinha roubada dos Beatles que o entendimento geral é de que você não comprou um computador, mas o passaporte para entrar em um grupo seleto. Os escolhidos. A tribo da modernidade. O hype do mundo. Nada mais deprimente que o sentimento de pertencimento à uma marca que, repito, vende seu produto.

 

Você percebe que o mundo está pegando um caminho muito errado quando um empresário é mitificado. Há duas gerações, eles eram os inimigos. Hoje, os heróis. Mas cada geração tem o ídolo que merece. Cada sociedade endeusa aquele com quem pode sonhar. Se sonha assim, fazer o quê? A idiotia do consenso está a caminho da vitória acachapante, falta só o golpe de misericórdia na razão que é iminente. Os chatos ganharam. Os coxinhas tomaram o poder. O politicamente correto insípido e branquinho tal qual o fundo de um IPad é lei. Toda vez que percebo isso, a ideia de morar naquela casinha do meio do mato tal qual J.D. Salinger me seduz mais.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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