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A história do espanhol que, durante a Guerra Civil, escondeu-se em buraco

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13.04.2020 - 08:27:19
 
Goiânia – O recolhimento a que todos estão submetidos, diante da ameaça do novo coronavirus, permite-nos conhecer experiências com alguma semelhança e nos mostra como as pessoas, em determinadas circunstâncias e momentos diferentes, se comportam frente ao isolamento social.
 
A televisão tem sido o veículo desse processo e por ela vamos conhecendo, em filmes, situações diversas e adversas, e nos revela que estamos sujeitos, de repente, a uma mudança radical em nossas vidas.

Estamos há apenas 20 dias enfurnados para evitar a propagação do vírus, e já muito inquietos em função desse problema.
 
Um filme que vimos na tarde de ontem dá bem uma dimensão do problema vivido pelos espanhóis, e que nós, em proporções diferentes, estamos enfrentando.
 
Higinio (Antonio de la Torre) e Rosa (Belén Cuesta) estavam casados há apenas alguns meses quando a Guerra Civil estourou, representando uma séria ameaça à sua vida. A partir da ideia de Rosa, eles decidem usar um buraco cavado em sua própria casa como esconderijo provisório para ele. O medo de possíveis represálias e o amor que sentem um pelo outro os condenará a uma prisão que durará mais de 30 anos. O filme conta a história dele, mas ele não foi o único que viveu essa situação.
 
 
O professor Rainer Sousa, mestre em História, em recente artigo publicado na internet, ajuda-nos a entender os fatos que geraram essa situação a que chegaram os espanhóis. Conforme explicou, a crise econômica no início do século XX fez surgirem grupos políticos em oposição ao regime monárquico na Espanha. Socialistas, anarquistas e comunistas defendiam desde a melhoria das condições de trabalho à extinção de qualquer forma de governo instituído.
 
A insatisfação gerou fortes manifestações populares e a monarquia, de sua parte, tentou conter a crescente instabilidade com a intervenção militar, quando o general Primo de Rivera tornou-se líder do Governo espanhol. A repressão foi respondida com o repúdio violento da população, que em 1930 derrubou o governo.
 
As mudanças vão se sucedendo, observando-se uma divisão entre os espanhóis, surgindo os grupos políticos de esquerda e de direita, que se organizam em duas grandes representações: a Frente Popular, comandada pelos comunistas; e a Falange Espanhola Tradicionalista, que agrupava os ultraconservadores fascistas.
 
Os conflitos entre os grupos se ampliaram, instalando um clima de guerra civil na Espanha (1936-39), batalha vencida pela Falange, que tinha à sua frente o chefe do Estado Maior, general Francisco Franco.  
 
 
As pessoas ficaram divididas, com marcas e sentimentos feridos, e essa situação gerou desconfianças, dúvidas, luta entre vizinhos, e os grupos com maior força foram eliminando os adversários.
 
Alguns cidadãos, sobreviventes das brigas e prisões, criaram espaços para se esconder, muitos o fazendo em suas próprias casas, construindo abrigos ou locais onde permaneceram escondidos. Um deles, Higino torna-se espectador privilegiado de momentos diversos em sua casa, inclusive o estupro de sua mulher, quando se atrapalha para ir socorrê-la, deixando cair o lampião no colchão de sua cama e inicia um incêndio, obrigando-a a lutar para apagá-lo. Só depois desses instantes de tensão é que sai de seu buraco. Depois, o anúncio da gravidez e as dúvidas, na sequência, que se multiplicam: ela vai para a casa de parentes longe, para ter o filho; volta com o bebê como se fosse um sobrinho; a criança cresce, fica mais parecida com o estuprador do que com o marido, a dificuldade de relacionamento entre eles etc. 
 
Com a anistia dada em 1969 Higino teve dificuldades em sair de casa. Só com muito esforço abriu a porta da residência e viu o sol brilhar em seu rosto depois desse tempo todo no esconderijo.
 
O seu receio, de ser reconhecido nas ruas e preso, não se confirmou e ele até estranha quando um desconhecido o cumprimenta ao passar por ele.
 
Esse drama, “La Trinchera Infinita”, com 2h27, de 2019, é dirigido por Jon Garaño e José Mari Goenada. Produção: França e Espanha. 
 
 
*Jales Naves é jornalista e escritor
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por Jales Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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