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A feição do novo governo

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06.01.2019 - 08:32:00

Goiânia – A feição do governo Bolsonaro começa a tomar forma. Os ministros já escolhidos e as primeiras declarações daqueles que concentrarão maior poder já permitem desenhar os contornos da fisionomia governamental. Sob a observação consensual de que teremos uma administração com forte tendência liberal na economia e conservadora nos costumes, dá para ver boa parcela de braços de empresas estatais, a começar pela área da energia, na sala dos leilões.            

Há muito, a Eletrobras sinaliza o desejo de privatizar suas seis distribuidoras de energia com sede no Norte e Nordeste. Só a concessionária responsável pelo serviço no Amazonas acumula 2,5 bilhões de reais em inadimplência com dívidas e obrigações. Meses atrás, o futuro presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, chegou a defender a própria privatização da empresa, tendo recuado nos últimos dias para evitar barulho e movimentos contrários. Mas, ao dizer que a Petrobras vai se ater ao seu core business – exploração e produção de óleo – separa para venda ativos que não fazem sentido integrar o portfólio, como a Liquigás,  empresa de gás de cozinha.            

Mesmo sob precaução, os comandos da economia, a partir do super-ministro Paulo Guedes, sinalizam com a ideia de forte enxugamento do Estado, cujas estruturas estarão focadas exclusivamente em seus produtos e serviços, abrindo campo para a iniciativa privada avançar na rota de estatais fora do prumo. Será um desafogo, com boa receita para os cofres do Tesouro, a par da chegada da competitividade e da desburocratização em espaços vitais.            

O Brasil redireciona, assim, sua trajetória econômica, atraindo interesse de investidores e criando condições para voltar a integrar o ranking das grandes economias. A meta parece consistente, claro, se for vencido o desafio das reformas fiscal, tributária e da Previdência, na mira do governo.            

Na frente política, o governo buscará, inicialmente, apoio em bancadas específicas, a começar pelos três Bês (boi, bala e bíblia – bancadas do agronegócio, armamento e evangélica). A força iniciante do novo governo dará um empurrão em direção às reformas, apesar de o presidencialismo de coalizão, mais cedo ou mais tarde, querer apresentar sua fatura. Será impossível livrar-se desse grosso cipó que amarra partidos na árvore governista.            

As bancadas especializadas verão atendidas partes de suas demandas, como armas para produtores rurais, desimpedimentos burocráticos do Incra, impulsos ao agronegócio e aprovação de uma pauta conservadora com foco nos valores da família (principalmente na frente educacional).            

No campo dos negócios externos, a pluralidade deve inspirar as relações com os mercados, nem sempre sob a batuta do bom senso. Pode haver complicação nas negociações comerciais com a China e com os países árabes, na esteira da anunciada intenção de endurecer com os chineses e de transferir a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém. O alinhamento incondicional e sem restrições aos EUA, com o previsível encontro de interesses geopolíticos, poderia afetar as relações multilaterais do Brasil? Eis uma área de grande interrogação.            

Entre os vizinhos as relações podem também ser objeto de realinhamento, a partir da fragilidade com que se apresenta, hoje, o Mercosul. Caso não haja mudança nos eixos desse mercado, o Brasil até dele pode se afastar, como anuncia a futura ministra da Agricultura, a deputada Tereza Cristina.            

Na ampla frente social, os primeiros apontamentos são para o Nordeste, território sensível ao petismo e onde Bolsonaro teve o pior desempenho. Por isso, parece razoável uma teia de obras, como a conclusão da Transposição do São Francisco, a perfuração de poços por todo o Polígono das Secas e a continuidade do programa Bolsa Família. Se o buraco social for fechado com sólida argamassa, o governo ouvirá loas aos seus feitos sob o velório do PT na região.            

Resta saber quais serão as manifestações das fortes classes médias do Sudeste e dos bem organizados setores trabalhistas. Alguns pontos de atrito estão à vista, como o que pode ocorrer ante a eventualidade de uma reforma sindical. Será um grande barulho. Mas a maior tuba de ressonância que fará chegar o grito até as margens abrigará os profissionais liberais. Se a economia resgatar seu poder de fogo, esse contingente baterá palmas. A recíproca é verdadeira.            

Essa é a primeira paisagem dos tempos bolsonarianos.    

Gaudêncio Torquato é jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato  _________

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por Gaudêncio Torquato

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