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A família francesa do violino

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09.03.2020 - 11:29:01
Othaniel Alcântara Jr.

A primeira banda1 “permanente” composta exclusivamente por instrumentos de cordas (com arco) de que se tem notícia ficou conhecida pelo nome Les Vingt-Quatre Violons du Roy. Trata-se de um conjunto musical mantido pela corte francesa, pelo menos desde o início do Seiscentos até 1761, quando foi oficialmente dissolvido. Na opinião do musicólogo Dallas Kern Holoman, certamente essa é a fonte do nosso conceito atual de seção de cordas das contemporâneas sinfônicas/filarmônicas. O texto intitulado “Os 24 Violinos do Rei” (publicado em 24/04/2019) apresenta um histórico mais detalhado sobre essa corporação musical.

 
Gostaria de destacar, dentre as características apresentadas no texto supracitado, que as composições destinadas ao grupo Les Vingt-Quatre Violons du Roy, apresentavam uma partitura em cinco partes. Ou seja, nesse sistema, a execução de cada uma dessas cinco pautas era atribuída a um dos cinco subgrupos compostos por instrumentos da família francesa do “violino”: dessus, a voz mais aguda (equivalente ao violino); haute-contre, taille, quinte, as vozes intermediárias (três tipos de violas); basse, para o registro mais grave.
 
No entanto, é preciso deixar claro que, de acordo com os relatos dos pesquisadores Matheus Theodorovitz Prust e François Raguenet (c. 1660 – 1722), a família de instrumentos de cordas (com arco) francesa – os violons -, na realidade, é diferente da italiana. Esta última é amplamente conhecida e difundida na historiografia musical: violino, viola, violoncelo (ou  violone).
 
Particularmente, a pesquisa de Matheus Prust aponta para a existência de significativas diferenças (Tabela 01, abaixo), no tocante à construção (dimensão, tessitura etc.) dos violons setecentistas quando comparados às violas da braccio2 italianas.

 

 
Tabela 01 – características3 dos violons

 
Fundamentado na pesquisa de Matheus Prust, sabe-se que o  dessus, o mais agudo, “é o único com correspondente italiano – o violino – sendo que os demais são caracteristicamente franceses”. As partes intermediárias (haute-contre, taille e quinte) eram representadas por três subgrupos de violas, as quais, embora afinadas em uníssono, possuíam tamanhos diferentes. A parte mais grave, por sua vez, era confiada ao basse.
 
A propósito, o basse de violon costuma ser descrito em fontes documentais mais antigas com diversos outros nomes, como: violone, basso di viola, violone grosso e até mesmo contrabasso4. Mas, independente desse fato, cumpre esclarecer que, embora ligeiramente maior, esse instrumento é considerado o equivalente francês do violoncelo italiano (mesmo registro do violone), criado por volta de 1675 e que se espalhou pela Europa nas décadas iniciais do século XVIII. Melhor explicando, mesmo que, por vezes, seja chamado de contrabasso, o “baixo” francês (8 pés) possuía  um corpo menor do que o atual contrabaixo (de 16 pés).
 
Enfim, na prática, o instrumentarium padrão das bandas de violons permitiu uma gama de possibilidades de execução e sonoridades peculiares mais apropriadas ao ambiente musical francês. Nesse sentido, procedendo um breve exercício comparativo entre universos estilísticos díspares, infere-se que, na Itália, por exemplo, existia uma maior preocupação com a escrita solista, sobretudo para o violino (equivalente ao dessus de violon francês). Tal cenário motivou o desenvolvimento de gêneros musicais como, por exemplo,  a sonata e o concerto, os quais “favoreceram o florescimento de uma complexa técnica de execução, que alcançou níveis virtuosísticos”. Em contrapartida, nas composições francesas havia uma preferência pela textura resultante do amálgama sonoro resultante daqueles cinco timbres distintos: um tipo de violino (dessus), três diferentes tamanhos de viola (haute-contre, taille e quinte) e um baixo.
 
Finalizando, efetivamente, a corporação de músicos apelidada de “24 Violinos do Rei” teria atingido o ápice de suas qualidades técnico-artísticas durante o reinado de Luís XIV e sob a liderança do compositor Jean-Baptiste Lully (1632-1687).
 
Nessa trilha, sabe-se que, no contexto da política absolutista implementada pelo “Rei-Sol”, a manutenção dessa bande de violons pela monarquia francesa foi essencial no processo de concepção e consolidação de uma estética musical nacional. 
 
Não obstante, após a morte de Jean-Baptiste Lully, em 1687, teve início um processo progressivo de italianização do gosto musical francês. Como consequência, gradualmente ocorreu a substituição daquele instrumentarium – descrito na Tabela 01 – pela família do violino italiano.
 
——
 
NOTAS:
 
1) Banda/Band/Bande: "Esse termo foi utilizado amplamente para designar as orquestras da corte de Luís XIV. É legado pela tradição de agrupamentos musicais que uniam instrumentos de diferentes características sonoras, chamados de bandes, as bandas […]. O vocábulo passou a representar a orquestra francesa no século XVII". (Prust, 2019, p. 22).

2) Não se deve confundir as violas da braccio (brazzo) – família italiana do violino em vários tamanhos – com as violas da gamba (sustentadas pelas pernas), as quais possuíam trastes em seus braços (Harnoncourt, 1993).

 
3) Dados disponibilizados por Matheus Prust em sua dissertação de Mestrado intitulada Le Roy des Instruments: a constituição da família do violino na França e os seus usos na corte de Luís XIV, de 1653 a 1687. Nessa tabela, segundo o próprio autor, foram adotadas as medidas das reconstruções atribuídas aos luthiers Chitto e Laulhère (2009), bem como informações pautadas no tratado Harmonie Universelle de Marin Mersenne (1637).
 
4) Por volta de 1700, o termo contrabasso passou a designar, mais especificamente, o “baixo” de 16 pés (atual contrabaixo). Durante o século XVII, havia sido usado para reforçar a parte do baixo na música de igreja. Foi citado pela primeira vez na orquestração da famosa cena de tempestade de Alcyone de Marin Marais (1656-1728), em 1706. Confusamente, foi chamado por violone (seu antecessor) (Vargas, 2017; Spitzer; Zaslaw, 2004).

LEIA TAMBÉM:


Os 24 Violinos do Rei (postado em 20/4/2019)

Les Petits Violons (postado em 16/9/2019)

La Grande Écurie (postado em 2/10/2019)

A música na corte do "Rei-Sol" (postado em 3/10/2019)

Lully e o "cajado" da morte (postado em 18/9/2019)

“O que é uma orquestra?” (postado em 14/3/2019).   

Conjuntos pré-orquestrais (postado em 22/3/2019)
 

A “Orquestra” de Monteverdi (postado em 4/4/2019)

A batuta (postado em 23/5/2019) 

REFERÊNCIAS:
 

Harnoncourt, N. (1993). O discurso dos sons. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
 
Holoman, D. K. (2012). The orchestra: a very short introduction. New York: Oxford University Press.
 
Prust, M. T. (2017). Le roi des instruments : a constituição da família do violino da França e seus usos na corte de Luís XIV de 1653 a 1687 (Dissertação de mestrado). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.
 
Raguenet, F. (2014). (P. Kühl, Trad.). Paralelo entre italianos e franceses no que concerne à música e às óperas, Paris, Jean Moreau, 1702. Revista Música, 14(1), 175-195. 
 
Spitzer, J.; Zaslaw, N. (2004). The birth of the orchestra: history of an institution, 1650-1815. New York: Oxford University Press.
 
Vargas, A. L. N. (2017). Edição crítica de Ariane et Bacchus de Marin Marais (1656-1728): um estudo sobre os princípios editoriais. (Dissertação de mestrado).  Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.
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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

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