Michelle Rabelo
Goiânia – Em meio ao protagonismo da polarização entre PT e PL, a escândalos como a ação da Polícia Federal (PF) contra Jaques Wagner ou a ligação entre o Banco Master e o filme Dark Horse, o empenho de candidatos da terceira via, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, além da já esperada repercussão do anúncio dos vices de cada candidato, é impossível trabalhar com qualquer previsão concreta. A opinião é do diretor do Grupo Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, que esteve em Goiânia nesta quinta-feira (6/8) a convite da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg).
Em uma conversa longa com lideranças e empresários do setor industrial, ele debateu o cenário eleitoral e as perspectivas políticas do Brasil, deixando claro que “a eleição está apenas começando”. Segundo o especialista, apesar da vantagem registrada atualmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro, os números representam o cenário da pré-campanha e ainda podem ser modificados pelos debates, pelo horário eleitoral, pela situação econômica do país e por acontecimentos inesperados.

Na opinião de Hidalgo, a partir da próxima semana – quando terá início a propaganda eleitoral, o brasileiro vai começar a, de fato, tomar ciência sobre quem são os candidatos, quais as suas propostas e em quais escândalos cada um está envolvido. “Além disso, precisamos lembrar que a palavra dessa eleição é corrupção. Isso porque, em todas as principais pesquisas, ela voltou a aparecer como o maior problema do país. Antes, segurança pública, saúde e endividamento ocupavam maior espaço nas respostas. Hoje não. Sendo assim, daqui até outubro, o candidato cujo nome aparecer ligado a qualquer notícia de corrupção será fortemente impactado”.
Cenário
Para o diretor do Grupo Paraná Pesquisas, a análise do cenário precisa levar em conta também o fator “imponderável” – um acontecimento capaz de alterar o ambiente político. Ele recordou que acontecimentos imprevisíveis, como a morte de Eduardo Campos durante a campanha de 2014 e o atentado contra Jair Bolsonaro em 2018, interferiram drasticamente nas últimas eleições presidenciais. “Ninguém consegue prever o que pode acontecer numa eleição”.
Além de episódios políticos, Hidalgo considera que este ano a situação econômica terá um peso maior na definição do voto, principalmente em um eventual segundo turno. “O preço dos produtos no supermercado, o fato de o brasileiro não estar conseguindo parcelar as coisas e o cenário preocupante de endividamento terão um peso diferente na decisão final, a depender das propostas apresentadas por cada candidato”.

Números
Segundo a média dos levantamentos analisados pelo presidente do instituto, no primeiro turno Lula aparece com 41% das intenções de voto, enquanto Flávio registra 32,9%. Ronaldo Caiado teria 5%; Renan Santos, 4,5%; e Romeu Zema, 3%. Com esses percentuais, Hidalgo prevê que a eleição será decidida no segundo turno. Um ponto importante, porém, é o protagonismo da polarização entre PT e PL. “Esse movimento acaba fazendo com que as pessoas só falem sobre Lula e Flávio. Até os outros candidatos, quando entrevistados, são perguntados insistentemente sobre os dois. Ao invés de abrirem espaço para que Caiado, Zema ou Renan falem sobre suas propostas para saúde, educação, segurança pública e etc, tudo sempre acaba na disputa entre lulistas e bolsonaristas”.
Em um confronto direto, Lula teria atualmente uma vantagem entre 3 e 6 pontos percentuais sobre Flávio. O pesquisador ressaltou, contudo, que essa projeção corresponde apenas ao momento em que os levantamentos foram realizados. “Se o segundo turno fosse domingo, Lula ganharia, mas a eleição não é domingo”, afirmou.
Outro ponto levantado pelos especialistas é que cerca de 70% dos eleitores de Caiado e Zema tenderiam a votar em Flávio no segundo turno. O eleitorado de Renan, por sua vez, seria dividido entre os dois principais candidatos, indecisos e eleitores que não escolheriam nenhum deles.
Analisando a candidatura do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, Hidalgo entende que o goiano precisa costurar uma campanha “assertiva e encantadora”. “Para tornar o projeto viável, ele terá que aproveitar cada segundo dos debates, das entrevistas e do horário eleitoral, além de torcer para que o Flávio escorregue novamente. Assim, uma migração de votos seria natural”.
Murilo Hidalgo
Economista e pós-graduado em Marketing pela FAE Business School, Murilo Hidalgo possui certificação profissional em Gestão de Inovação pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e já atuou como professor nas instituições Unicuritiba e Universidade Positivo. Sócio do Instituto Paraná Pesquisas há mais de 36 anos, é responsável por mais de 1.300 projetos de pesquisa publicados em todo o Brasil.
Diante do currículo, o especialista foi escolhido para comandar o terceiro encontro da série Brasil em Movimento – iniciativa da Fieg, voltada a lideranças empresariais e industriais, cujo objetivo é analisar a conjuntura política, a economia e os reflexos do período eleitoral nos negócios do país. Segundo André Rocha, presidente da entidade, o projeto nasceu para reforçar que “a Casa da Indústria não é somente a casa do industrial, mas também do empreendedor, do comerciante, do produtor rural, de quem gera emprego e renda, movimentando a economia goiana”, diz, frisando que, neste sentido, muitas empresas definem seus investimentos pensando nos caminhos que a economia do Brasil deve seguir, o que está diretamente ligado ao nome escolhido para a Presidência da República.

De acordo com o presidente da Fieg, a intenção é incluir todo o público de empresários e empreendedores em um debate saudável e construtivo sobre a democracia. “Essa é uma das questões de que nós mais estamos precisando no Brasil: acabar com essa polarização. Com respeito, tolerância e muito diálogo, a gente acaba errando menos”, destaca, ao lembrar que já passaram pelo ‘Brasil em Movimento’ o comentarista político Caio Coppolla e o cientista político Felipe Nunes. “Em setembro será a vez do ex-ministro da Fazenda Marilson da Nóbrega”.
Presente no evento desta quinta-feira (6/8), o secretário de Estado de Indústria, Comércio e Serviços (SIC) de Goiás, Joel de Sant’Anna Braga Filho, aproveitou para destacar outro viés da iniciativa: o de mobilizar o setor produtivo goiano para falar de polícia. “A partir de informações confiáveis e análises pertinentes, os empresários conseguem entender, de fato, o cenário, tomar posições, projetar novos investimentos e olhar com mais segurança para o futuro”
