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A dialética da utopia no documentário O Dilema das Redes

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23.09.2020 - 08:12:01

No ano de 1983 os cinemas traziam à tela o filme O Dia Seguinte (The Day After), uma produção norte-americana dirigida por Nicholas Meyer. Naquele período, o mundo ainda vivia sob a ameaça iminente de um conflito nuclear devastador para a civilização, conforme ficou recentemente ratificado por vídeo divulgado na plataforma Youtube (no link  https://www.youtube.com/watch?v=_ZUxyHYvXmQ&ab_channel=BBCNewsBrasil), que apresenta a explosão da maior bomba nuclear já produzida, a Czar Bomb, da extinta União Soviética. A explosão foi tão extraordinária que liberou mais energia do que todas as bombas comuns que foram detonadas ao longo dos anos da Segunda Guerra Mundial.

O filme de Meyer mostrava o cotidiano de uma grande cidade norte-americana cuja rotina é interrompida drasticamente em função do início da Terceira Guerra Mundial. Após a explosão de uma ogiva atômica no centro da metrópole, um médico tem de caminhar por entre ferragens retorcidas de automóveis para chegar ao hospital em que trabalha para tentar salvar vidas em meio ao caos absoluto. Em seu caminho, uma chuva de fragmentos radioativos que se pareciam com neve caindo. Após a exibição do filme, em muitos cinemas se podia observar um outro espetáculo: a massa de espectadores cabisbaixos, visivelmente assustados diante da possibilidade daquilo tornar-se realidade logo mais.

Lançado há pouco pelo serviço de streaming da Netflix, o documentário “O Dilema das Redes” talvez alcançasse efeito parecido nos cinemas, se fosse exibido nas telonas e se as salas não estivessem interditadas em razão do contexto de pandemia de Covid-19 mundo afora. George R.R. Martin, criador da icônica série “Game of Thrones”, já se manifestou, dizendo-se assustado com o conteúdo apresentado pelo documentário, que traz em sua essência o embate dialético entre a utopia e a distopia em torno do universo digital das redes sociais. Assim como a guerra nuclear representava a materialização destrutiva da síntese resultante do embate entre capitalismo e comunismo, o material da Netflix traz o embate dialético entre a utopia (a perfeição) e a distopia (caos, imperfeição) propiciado pelas redes sociais e, por extensão, por todo o universo on line a ela relacionado.

A utopia já é conhecida: todo o conteúdo e prazer possíveis a um click de distância; a distopia é mais sutil: todo um mundo virtual da mais dantesca manipulação mental, tanto em nível psíquico quanto em nível biológico, por parte dos idealizadores e dos responsáveis pela existência das redes sociais. Ambas remetem e dialogam, por sua vez, com o conceito frankfurtiano de indústria cultural.
             
A indústria cultural e O Dilema das Redes
A indústria cultural é um conceito apresentado por Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, célebres representantes da Escola de Frankfurt, que explicita a relação de manipulação exercida pelos meios de comunicação e informação sobre seus consumidores. Sua contextualização se dá no livro “Dialética do Esclarecimento”, obra escrita por ambos no ano de 1947. Alemães, ambos vivenciaram de perto as consequências advindas do nazismo e sintetizaram a percepção da cultura de massa como instrumento de controle. Segundo eles, ela consiste na aceitação fanática e tumultuosa de tudo aquilo que é oferecido para consumo cultural, sem que se tenha a percepção de que se trata de manipulação de qualquer natureza.

O documentário “O Dilema das Redes” demonstra em sua narrativa como a manipulação por parte das tecnologias de informação e comunicação está presente, até mesmo na utilização mais despretensiosa por parte do usuário. Diversos relatos de profissionais atuantes na área de desenvolvimento da indústria tecnológica trazem à tona diversas estratégias de programação utilizadas para que o usuário seja induzido a comportamentos os mais variados, que o levam a consumir e a agir de acordo com o que foi pré-estabelecido, sem que percebam que estão agindo de forma induzida.

Os comportamentos implantados levam o usuário a ser manipulado em diversos níveis, definindo desde comportamentos consumidores até posicionamentos políticos e partidários. Assim, no âmbito do conceito frankfurtiano, a indústria cultural age como instrumento de controle, aliada, agora, à tecnologia atual. A tecnologia sempre esteve presente nas relações humanas, porém, os avanços realizados na atualidade ultrapassam os limites anteriormente existentes. As redes sociais e o universo on line representam, assim, o novo avatar da indústria cultural, permeando a intimidade do indivíduo, moldando-o conforme querem seus desenvolvedores. A relação de poder exercida através das redes sociais se torna, então, algo sem precedentes.

Adorno e Horkheimer, já em meados do século XX, perceberam a tênue linha existente entre a liberdade obtida pelo conhecimento, conforme nos apresenta o iluminismo, e a obsessão em defender, de forma partidária e radical, o próprio ponto de vista. Em “O Dilema das Redes”, é revelado ao espectador que o domínio e a manipulação são exercidos através da obtenção de dados dos usuários obtidos nas redes sociais. Os desdobramentos das manipulações da indústria cultural nas redes, no entanto, são muito mais catastróficos do que o senso comum pode inferir. Resultam em comportamentos cegos, manipulados e fanáticos exercidos pelas massas que, por sua vez, colhem os resultados através de distúrbios psicológicos e cognitivos.

Esses distúrbios promovem comportamentos anômalos, que resultam na incapacidade de discernimento acerca do que é ético e moral, tanto para a sociedade quanto para o indivíduo, levando a distopias como os romances “1984”, de George Orwell e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, assim como ao que é apresentado em narrativas cinematográficas como “Matrix”. O documentário conclui com a assunção da expectativa em torno de qual será a síntese entre a utopia e a distopia do admirável mundo novo virtual, não sem deixar consignado que o polo distópico da dialética se mostra, de fato, bastante assustador.
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO. Doutor em Letras pela UFG; professor do Ciranda da Arte/Seduc-GO.
 
*Myriam Martins Lima é graduanda em Biblioteconomia pela Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás.

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por Gismair Martins E Myriam Martins Lima

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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