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A Décima Sinfonia de Beethoven

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19.01.2015 - 17:45:53
Goiânia – Ludwig van Beethoven (1770-1827) deixou para a posteridade, grande quantidade de fragmentos de rascunhos de obras inéditas. Infelizmente, nunca saberemos exatamente a quantidade exata, pois muito se perdeu após sua morte. Desde então, vez por outra, manuscritos são encontrados. Foi o que aconteceu já no século XX, quando dois musicólogos, o alemão Sighard Bramdenburg e o inglês Barry Cooper, através de artigos publicados, respectivamente, em 1984 e 1985, comunicaram a descoberta de três grupos de esboços de uma sinfonia, datados de 1822 a 1825.

 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) 
Fonte: dw.com
 

Esse material devidamente identificado e selecionado revelou cerca de 350 compassos escritos na tonalidade de Mib maior, quase todos pensados para o primeiro movimento. Até aí nenhuma novidade. Segundo alguns musicólogos, Beethoven deixou outras várias sinfonias iniciadas. Um exemplo é a Sinfonia em dó maior, datada de 1795/6, uma das obras mais completas esboçadas antes de 1800. Mas, a história começa a ficar interessante quando o material descoberto na década de 1980 é comparado com fontes biográficas.
 
Segundo Barry Cooper, um dos colaboradores do livro “Beethoven – Um compêndio”, o “Gênio de Bonn”, definitivamente, tinha a intenção de terminar essa última sinfonia. Duas cartas da época reforçam sua afirmação. Na primeira, o compositor comenta sobre o assunto, oito dias antes de sua morte. Na segunda, o violinista Karl Holz (1798-1858), copista e depois secretário de Beethoven, afirma ter ouvido próprio autor tocando a peça ao piano. Importante destacar que a descrição do primeiro movimento da sinfonia feita por Holz, condiz com os esboços pesquisados.
 
Mas, a história não para por aí. Barry Cooper, ainda na década de 1980, e à época, professor na Universidade de Manchester e, certamente bastante confiante nos seus conhecimentos sobre a linguagem composicional de Beethoven, realizou uma reconstrução hipotética do primeiro movimento da “Décima Sinfonia”, baseada nos esboços remanescentes.
 
Nada disso seria contado aqui se a partitura, resultado de sua pesquisa, não tivesse sido publicada (Universal Edition, Londres, 1988), apresentada ao vivo em muitos países e gravada por mais de uma orquestra.
 
Abaixo, o áudio da gravação do primeiro movimento da Décima Sinfonia de Beethoven “reconstruída” por Barry Cooper e realizada pela Orquestra Sinfônica de Londres, em 1993, sob a regência de Wyn Morris:

 

Não pretendo aqui comentar a qualidade do resultado do trabalho de Barry Cooper (apresentado no link acima) ou questionar a validade ou não de sua “contribuição” para a finalização de uma sinfonia, iniciada por um dos maiores compositores de todos os tempos. Na verdade, gostaria de saber a opinião do leitor.

 
Especulando um pouco sobre o assunto, apresento algumas interrogações: E se Beethoven deixou um manuscrito autógrafo completo da “Décima Sinfonia”, ainda não encontrado? Nesse caso, esta obra seria mais revolucionária do que a sua sinfonia anterior, uma de suas obras-primas? Uma coisa é certa, sua aparição seria uma das notícias mais importantes dos dois últimos séculos e, de quebra, entrando no terreno da superstição, decretaria o fim da “maldição da nona” (assunto do próximo texto).

Leia também:

A maldição da Nona Sinfonia (texto postado em 27/02/2015)

Beethoven era negro? Vidas negras importam!!! (texto postado em 29/07/2020)

 

 

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

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