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A decepção de ver o ídolo de perto

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11.08.2011 - 10:44:34

Estou nessa vida de produtor cultural há mais de uma década. Nesse tempo, tive possibilidade de conhecer e conviver alguns dias com figuras cujo trabalho admiro bastante. De alguns, sou fã incondicional de toda obra, tendo até mesmo aqueles discos que talvez o próprio artista não tenha, ou por que o renega, ou por que é realmente obscuro. Coisa de gente doente da cabeça, como é meu caso.

Por vezes, o artista é gente boa, um cara tranquilo e que você acaba admirando ainda mais seu trabalho. Só que não é o que acontece na maioria das circunstâncias. Normalmente temos uma visão idealizada de quem gostamos e esquecemos que artistas costumam ter egos maiores que seu trabalho, se consideram subestimados, têm os piores vícios possíveis e podem ser escrotos da pior estirpe no trato pessoal.

Teve uma ocasião em que me chateei bastante com um cara que estourou nos anos 80 com uma banda e nunca mais tive reconhecimento de público em sua carreira solo. O cara reclamava de tudo o tempo todo. Do restaurante firmeza que o levamos, do colchão do hotel, da organização das notas da grana que usamos para pagar o cachê. E tudo estava especificado em contrato, fechado com o produtor que havia autorizado os cardápios, o hotel e a forma de pagamento. Ou seja, em tese o cara tinha noção do que receberia e estava sendo prego só por ser prego. Eu sabia que ele tinha um programa de rádio e entrevistou alguns dos grandes nomes do rock. Numa hora de altíssima irritação, perguntei para ele:

“Na rádio, você já entrevistou alguém que de tão prego você deixou de gostar do trabalho do cara?”.

“Ian Anderson, do Jethro Tull”, ele respondeu na lata.

“É chato quando isso acontece, né?”.

O cara entendeu o recado e, a partir dali, ficou mais macio no trato. Depois do show com público ótimo, som perfeito e ótima repercussão, fui deixá-lo no aeroporto e ele fez questão de que eu descesse e me pagou um café lá no Santa Genoveva. Não chegou a pedir desculpas, pois aí era demais. Mas sacou que estava extrapolando e abaixou a bola.

Existem casos opostos. Você não gosta da banda, acha o trabalho ruim de verdade, mas o artista é tão gente boa que você acaba relativizando isso. O trabalho do cara fica mais aceitável ao ouvido. Tudo em consideração à cordialidade que ele teve no trato pessoal.

A experiência me mostra que quanto menos contato você tiver com o artista que gosta, melhor continua sendo sua relação com a obra do cara. Se rolar de tomar uma cerveja juntos, o melhor a fazer é conversar sobre amenidades como futebol e outros artistas que vocês compartilhem a admiração. Se for falar da carreira do cara, invariavelmente você vai sofrer com o ego exacerbado e verá que o cara é um prego. Vá por mim: preservar o mito é importante para que a admiração continue a mesma.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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