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A Caverna, por M. Night Shyamalan

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02.01.2017 - 09:41:44
 
Goiânia – Quando O Sexto Sentido estreou, em 1999 – ano reconhecidamente de grandes filmes -, a carreira de M. Night Shyamalan, diretor indiano, decolou e ganhou notoriedade mundial. Sua filmografia pregressa consta de dois longas-metragens: Praying with Anger (1992) e Olhos Abertos (1998), os únicos a que ainda não assisti. Shyamalan, após seu estrondoso sucesso comercial, nunca mais gozou de grande reconhecimento, há uma grande quantidade de detratores que afirmam que seu cinema nunca mais atingiu a grandeza obtida com seu filme de 1999.
 
Na contramão da opinião de grande parte, discordo veementemente e sou um tremendo defensor de tudo o que dirigiu após O Sexto Sentido. Não que goste mais de todos os filmes posteriores, mas não há um único filme ruim neste período e, mesmo os que fogem ao seu estilo, como O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013) são blockbusters acima da média. A Dama na Água (2006), um dos seus filmes mais malhados, cresceu bastante em mim na revisão, outrora o achava um filme razoável, hoje, muito bom.
 
Passados cinco anos, Shyamalan realizaria A Vila (2004), aquele que considero seu grande filme, sua obra-prima, o que representa um marco definitivo de sua carreira de grande valor à história do cinema. O longa se passa em uma pacata e isolada vila, no final do século XIX, permeada por uma singela tranquilidade e harmonia, que remete à ideia de um pedaço de céu; cercada por florestas, um grupo de pessoas construiu uma pequena comunidade que parece inviolável ao mal externo, em que a pureza fala mais alto, não há violência, não há o vil metal consumando as relações humanas, longe de quaisquer agruras impostas pela vida.
 
É firmado um pacto entre os habitantes de nunca saírem daquele local. O sonho de um mundo perfeito, longe do horror que nos cerca diante de um mundo contaminado pelo mal e pelas suas mais obscuras formas. Uma premissa bastante interessante desenvolvida com extrema maestria por Shyamalan, discípulo de Hitchcock, aliada à fotografia impecável de Roger Deakins e com um grande elenco, incluindo Adrien Brody, Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, William Hurt, Sigourney Weaver e os jovens e talentosos Michael Pitt e Jesse Eisenberg pouco aproveitados. 
 
Edward Walker (William Hurt) é o líder dos habitantes da vila e faz questão de mencionar os perigos de se quebrar o acordo. Ele tem duas filhas, Kitty Walker (Judy Greer) e Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), sua filha cega. O espírito contestador e insatisfatório se faz presente durante a narrativa e de modo mais claro quando o personagem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix), sujeito extremamente corajoso e calado diante das pessoas que o rodeiam começa a questionar as ordens, principalmente após a morte de um amigo, sob a alegação de que ele poderia ter sido salvo por remédios de fora da vila. Lucius e Ivy criam um laço de amor indissolúvel e são primordiais para o desenvolvimento da trama.
 
Há uma reviravolta surpreendente após a hipótese inicial sobre as criaturas ser desmentida com desenvoltura por Shyamalan durante o filme, apresentando o drama vivido pelos anciões, com enfoque na violência a que foram submetidos em suas vidas anteriores à vila. Esbanjando talento e destilando todo o seu domínio absurdo de técnica cinematográfica, o diretor constrói sua elegia ao mito da caverna, de Platão, imiscuído em um belíssimo filme de amor. Irretocável. 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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