Adriana Marinelli
Goiânia – O delegado Manoel Borges de Oliveira, da Polícia Civil de Goiás, será julgado no próximo dia 10 de julho por homicídio qualificado contra o empresário Marco Antônio Lélis (foto ao lado), de 44 anos, assassinado a tiros em outubro de 1998. Durante uma discussão, que já se estendia por meses, Manoel teria atirado quatro vezes contra a vítima.
Inconformada com o fato de Manoel Borges continuar trabalhando como delegado, a empresária Flávia de Lima Lélis, 30 anos, filha de Marco Lélis, lamenta a demora para o início do julgamento. "Eu vejo tudo isso como um descaso da Justiça. O que a gente sente é que não tem segurança, que não podemos contar com a Justiça, que qualquer pessoa pode matar outra e ficar impune. Ele [Manoel] teria, no mínimo, que ficar afastado do cargo e sem direito ao salário até o julgamento", afirma. O delegado também foi investigado em 2013 por supostas irregularidades cometidas durante a apuração da morte do cronista esportivo Valério Luiz.
Delegado Manoel Borges será julgado pela morte de Marco Lélis (Foto: Randes Nunes/ A Redação)
"Meu pai foi tirado de mim"
Em entrevista ao jornal A Redação, Flávia falou da saudade que sente do pai e ressaltou a dificuldade que enfrentou após o crime que marcou sua vida. Flávia, que tinha apenas 13 anos quando o pai foi assassinado, é filha única.
Flávia Lélis, filha de Marco Lélis (Foto: Lorena Lara/ A Redação)
"Lembrar daquele dia me doi muito até hoje porque eu fui ficando sem ninguém. Minha mãe e avós morreram e meu pai foi tirado de mim. Sofri muito, passei muita dificuldade financeira. E o sofrimento emocional é muito grande", ressalta.
O crime
Também em entrevista exclusiva ao AR, os advogados da família de Flávia, Jales Naves Júnior e Valério Luiz Filho, filho do cronista esportivo Valério Luiz, assassinado em 2012, falaram sobre o crime que resultou na morte de Marco Antônio Lélis. De acordo com Jales, a vítima e o delegado eram donos de propriedades rurais vizinhas em Bela Vista de Goiás.
Segundo o advogado, o sogro de Manoel Borges, Anísio Peixoto, teria dividido uma fazenda e vendido parte da terra, que mais tarde, em 1997, foi comprada por Marco Lélis, chamada de Fazenda Bonita. A outra parte da propriedade de Anísio teria ficado para o genro, Manoel Borges, à época lotado na Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos Automotores, em Goiânia.
"Tinha um rego d'água que nascia dentro da terra do Marco e passava na propriedade do Manoel Borges. Manoel foi até a fazenda vizinha um dia dizendo que iria fazer a limpeza da nascente. No entanto, ele desviou o curso do rego d'água. Marco foi até a fazenda do Manoel para reclamar e os dois se desentenderam. Manoel sacou uma arma de fogo e atirou contra o Marco", diz o advogado.
Advogado Jales Naves Júnior (Foto: Lorena Lara/A Redação)
Início das brigas
Ainda segundo Jales, outros pontos também teriam motivado o desentendimento entre as partes. "O sogro do Manoel repartiu a fazenda, mas tinha uma estradinha que passava dentro da parte vendida para o Marco. Os peões do Manoel usavam essa estrada e, por esse motivo, estavam constantemente nas terras dele. O Marco Lélis pediu para que esses peões parassem de circular pela propriedade dele, mas Manoel se negou a pedir aos funcionários que fizessem isso. Essa foi a primeira briga. Depois disso veio a questão do rego d'água."
Inconformado com o desvio da nascente, segundo o advogado, Marco teria procurado Manoel no intuito de reverter a situação. "Na companhia do gerente da fazenda dele, conhecido como Pantaneiro, Marco teria ido a cavalo até a fazenda do Manoel, onde um grupo de pessoas estava reunido para um churrasco. Era um sábado. Chegando lá, Manoel e Marco teriam discutido mais uma vez. Manoel teria assumido que desviou o rego d'água. Marco falou que voltaria o córrego para o curso normal e isso teria irritado Manoel. Alterado, o delegado atirou quatro vezes contra Marco, que foi atingido no peito", conta Jales.
Conforme foi informado à reportagem pelo advogado da família de Marco, Manoel Borges se apresentou na Delegacia do Primeiro Distrito Policial de Goiânia. "Ele alegou que a arma usada no crime, um revólver calibre 38, foi jogada no Rio Meia Ponte, em Goiânia", disse.
Cena do crime alterada
Procurado pela reportagem do A Redação, o advogado de Manoel Borges, Luís Alexandre Rassi, fez algumas observações. De acordo com ele, Marco teria chegado à fazenda do delegado portando uma arma de fogo. "Ele chegou a acionar o gatilho pelo menos seis vezes", afirma. Conforme foi informado pelo advogado, Marco teria sido morto antes de descer do cavalo. "Pelas imagens da reconstituição do crime é possível perceber isso."
Durante a entrevista, Luís Alexandre também ressaltou que, após sofrer ameaças, Manoel teria, por diversas vezes, tentado um acordo com Marco, mas, segundo ele, sem sucesso. "O delegado Manoel procurou pessoas próximas ao Marco para conversar, mas nada deu certo", garante. O advogado ainda levanta um ponto importante das investigações. Segundo ele, a cena do crime teria sido alterada. "A arma do Marco, que caiu ao lado do corpo quando ele foi morto, foi retirada do local e depois colocada novamente."
"A arma utilizada pelo Marco não poderia estar no local onde foi encontrada. De acordo com o depoimento dos policiais militares que trabalharam naquela ocorrência, como a Drª Rosângela [companheira de Marco Lélis] queria por tudo apanhar o revólver que estava junto ao corpo, dizendo que aquela arma não seria da vítima e sim uma armação, o policial José Luiz Simião, determinou que o soldado Tenimar Cardoso Siqueira apanhasse a arma usando dois sacos plásticos e a colocasse dentro da viatura. Depois disso, quando a perícia chegou, a arma foi novamente colocada ao lado do corpo", afirma o advogado.
Para Luís Alexandre, "independente da questão da arma, a presença do Marco na sede da fazenda do Manoel, após abrir a porteira, considerando o fato de que ele já havia dito que 'daria um jeito no delegado', por si só já legitimaria qualquer ação de Manoel. Neste caso, Manoel não precisaria esperar o Marco sacar sua arma", concluiu. No entanto, pessoas que conheceram a vítima afirmam que Marco não costumava andar armado. "Colocaram a arma na mão do meu pai depois que ele já estava morto", defende Flávia.
Jales, advogado de Flávia, também afirma que a cena do crime foi alterada, mas, na versão dele, o corpo de Marco teria sido movido alguns metros após o fato. "Depois disso, a arma foi cuidadosamente colocada ao lado dele", diz.
Servidão de água
Companheira de Marco Lélis à época, a então procuradora da República Rosângela Pofahl Batista teria denunciado Manoel por crime ambiental, destacando o desvio do córrego e alegando que ele teria desmatado uma parte da propriedade de Marco. No entanto, segundo o responsável pela defesa de Manoel Borges no caso, o advogado Sérgio Wanderley, teriam sido realizadas sete perícias que comprovaram a inexistência de desmatamento na área apontada.
Sobre o fato de Manoel ter feito uso da água pertencente à propriedade de Marco, o advogado alega que tratava-se de uma servidão de água reconhecida pela Justiça. "O então proprietário da fazenda, antes de Marco comprar as terras, teria autorizado Manoel a usar a água, e ele fez isso durante mais de dez anos", afirma.
"Foi um processo longo, mas consegui provar que a água era do Manoel Borges e ele poderia fazer uso dessa água. A decisão foi unânime no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás e no Superior Tribunal de Justiça", completa.
Demora
Ponto criticado pela família de Marco é a demora para o início do julgamento de Manoel pela morte do empresário. Valério Luiz Filho explica que a defesa de Manoel entrou com recursos alegando que o juiz responsável pelo caso era 'incompetente'. "Isso no Direito significa que o juiz não tinha a atribuição correta para o caso. E nisso eles ganharam tempo", diz.
Advogado Valério Luiz Filho (Foto: Lorena Lara/A Redação)
No próximo dia 10 de julho, segundo Valério Filho, cada parte terá que arrolar as testemunhas. "Mas ainda não sabemos qual promotor vai atuar no dia do julgamento. Isso ainda não foi designado", afirma.
"O promotor de Bela Vista não quis atuar no caso por algum motivo, provavelmente por conhecer o Manoel Borges ou por alguma outra coisa. Nesse caso, ele manda um ofício solicitando o substituto e é isso que atrasou a definição."
Indiciado pela Polícia Civil
Assessor de Comunicação da Polícia Civil do Estado de Goiás, o delegado Norton Luiz Ferreira explica que Manoel Borges foi alvo de investigações dentro da própria polícia quando foi acusado de homicídio.
"É importante que fique claro que quando ele cometeu o crime ele estava fora do exercício da profissão. Mas, mesmo assim, foi indiciado pela Polícia Civil", diz.
Atualmente, o delegado Manoel é responsável pelo 11° Distrito Policial (DP) de Goiânia e, conforme informou a assessoria, está de férias. Sobre a suspeita de Manoel ter cometido irregularidades durante a apuração do caso Valério Luiz, Norton explica que Manoel foi afastado do 4° DP em função do desgaste causado.
"Foi instaurado um procedimento na Corregedoria da Polícia Civil e ele foi indiciado. Depois o caso foi para o Ministério Público, onde ele foi denunciado por falsidade ideológica. No entanto, ele continua no exercício das funções, já que não houve nenhuma determinação judicial para afastá-lo", finaliza.
A reportagem tentou contato com o delegado Manoel Borges, mas ele está de férias e não retornou às ligações.