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Bandeirinha no carro

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06.06.2014 - 06:54:38

Goiânia – A primeira Copa do Mundo que assisti e na qual eu já tinha meu carro foi a de 2006. Um dos desejos de ter meu próprio veículo, além de mandar uma vigorosa banana para o ridículo transporte coletivo de Goiânia do qual eu era dependente desde sempre, era botar um monte de quinquilharias e não dever satisfação para ninguém. Isso sem contar em poder mandar no som durante os trajeto de uma vez por todas.

Em 2006, mandei duas bandeirinhas nacionais, uma de cada lado, para demonstrar meu apoio à Seleção Brasileira de Parreira na Alemanha. Não aderi à bandeira gigante que envolve o capô do veículo. Acho que aí já é demais. Mas acho bom que um monte de gente tope essa onda. Os níveis de empolgação são variados.

Desfilava com meu carro ouvindo aquele trepidar da bandeirinha ao vento com orgulho.

Em 2010, a mesma coisa. Comprei a bandeirinha no cruzamento da Paranaíba com a Tocantins. Só que não coloquei duas, foi só uma na porta do motorista. E dali só saiu quando Júlio César catou borboleta e a Holanda nos tirou da Copa.

Esse ano, hesitei bastante para aderir à manifestação pública de torcida pela Seleção Brasileira. Parece que colocar uma bandeirinha no carro é assinar uma espécie de atestado de conformismo perante os abusos cometidos de 2007, quando o Brasil foi escolhido como sede do Mundial, até hoje.

A impressão que tenho é que demonstrar à sociedade empolgação com a Copa do Mundo e torcida pela Seleção Brasileira o transforma automaticamente em um alienado. As patrulhas estão na rua e talvez seja mais prudente guardar a empolgação para manifestações em verde e amarelo somente para ambientes privados.

Mas quem disse que prudência é meu norte? Dane-se, seu fiscal de engajamento! Quando eu estava no sinal da Avenida Pedro Paulo de Souza, aquela que cruza o Goiânia 2, com a Perimetral paguei cincão pela bandeirinha e coloquei no meu carro. Minha filha mais nova adorou o novo badulaque. Sabe como é, filha de espalhafatoso, espalhafatosinha é.

Isso não me faz partícipe das falcatruas, dos superfaturamentos, dos atrasos. Isso não me coloca no time dos TeixeirasValckesHavelangesMarinsBlattersETodosOsOutrosQueOdiamos. Isso não me faz esquecer das promessas não cumpridas, dos elefantes brancos, das mentiras sobre ser a Copa da iniciativa privada. Não achem que a bandeirinha no carro apaga meu sentimento de frustração e vergonha. Vou descontar em todos eles. E já tem data. Em outubro, vou me lembrar como nunca disso tudo.

Mas não me peçam para não curtir o torneio com a bandeirinha, churrasco e comemoração cada vitória brasileira na Copa. Cada coisa em seu lugar, por favor.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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