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O medo e o poder das manifestações

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30.05.2014 - 22:49:09

Goiânia – Em uma reportagem recente acompanhei de ônibus Mara, uma trabalhadora, da casa dela até a indústria onde trabalha. São três ônibus, dois terminais, 1h50 e muito aperto. Mara me contou que um dos maiores constrangimentos ao se locomover é o assédio sexual. Já perdeu as contas de quantas vezes os homens chegam “encoxando”. Nos terminais, muitas mulheres também fazem a mesma reclamação. Pergunto se já denunciaram alguma vez, elas dizem que não. 
 
Como elas, são tantas outras. Em abril, um homem de 55 anos foi preso depois de colocar o pênis para fora e ejacular no braço de uma jovem de 20 anos. Ela gritou, as pessoas reagiram e o caso foi pra delegacia. Tudo isso é comum e corriqueiro dentro dos ônibus. Menos a parte de que o homem vai preso. A delegada da mulher de Goiânia diz que ainda são poucas denúncias e que as mulheres deveriam denunciar mais.
 
O cenário para os homens provocarem esse assédio nos ônibus é muito favorável. São dezenas de pessoas amontoadas umas nas outras e, assim, fica fácil de um homem justificar e praticar sua baixeza. Ser “encoxada” é quase normal ali dentro. O número de ônibus nas ruas é sempre insuficiente. Sempre o suficiente para o lucro das empresas ser exorbitante.

Foi isso que me veio à cabeça quando li a justificativa do delegado para a prisão de três estudantes da Universidade Federal de Goiás no último dia 23/5 em Goiânia (um mandado não foi cumprido, eram quatro os acusados). A polícia civil deflagrou uma operação exclusivamente para prender os rapazes para que, assim, a depredação aos ônibus cessasse.
 
Os estudantes fazem parte de movimentos que brigam por transporte público de qualidade e foram acusados de incitar violência na população, sendo responsabilizados pela depredação de 100 ônibus nos últimos dias (aqueles que seguiram o aumento da tarifa). Ontem (29/5), finalmente, eles foram soltos. Mas não foi fácil a soltura e a indignação ainda está latente entre quem defende o transporte público de qualidade e, sobretudo, o direito à manifestação. 
 
O delegado afirma que a manifestação é legítima, mas os rapazes estavam colocando a integridade da vida das pessoas em risco. Pensei qual a integridade de uma pessoa que é “encoxada” num ônibus onde um se amontoa em cima do outro? Onde um homem ejacula no seu braço? Pensei qual a integridade de uma pessoa que leva três horas de casa até o trabalho sem lugar para se sentar no ônibus? Espremida entre tantas outras? Desmaiando de calor?
 
Qual a integridade dessa pessoa que dispensa três, quatro, cinco, seis horas de seu dia na locomoção entre casa e trabalho? Qual integridade dessa pessoa que chega ao trabalho já estressada e cansada e volta para casa pelas metades sem energias para que sua vida seja alguma coisa além do trabalho para sobreviver?
 
A integridade da pessoa só se torna preocupação quando o objeto de destruição pertence ao Estado ou a quem interessa ao Estado. A tal integridade é despercebida e ignorada quando não é denunciada. Quando a população tolera. Quando não há barulho. Quando não tem quebradeira. A integridade da pessoa é motivo de ações radicais para que possa justificar a incapacidade de lidar com a exaltação e movimentação de uma população que não tem tolerado mais o intolerável.
 
Os três jovens presos foram acusados de incitar violência; de estimular a população a depredar patrimônio público. Ora, eu não superestimaria tanto. Seria mesmo necessário que alguém estimulasse a população a quebrar um ônibus, irritada com um sistema que não funciona? Ou seria mais razoável entender que ninguém tem mais paciência com um transporte que desumaniza as pessoas e há quem parta para depredação? Que a raiva toma conta de quem está esperando por um ônibus no fim do dia, no horário de rush, com vontade de chegar em casa, cansado e acaba se exaltando e quebrando ônibus?
 
A bomba explodiu e faz tempo. Há quase um ano o brasileiro daqui e de todo canto resolveu não aceitar o aumento da tarifa com a qualidade do transporte que tem. Lido com produção de notícias diárias. Já não sei dizer quantos vídeos de ônibus sendo quebrados já chegaram até a gente de todo canto. São trabalhadores que se irritam na volta para casa. Não tem mais cara, identidade, organização. A depredação é resposta ao descaso e vem de qualquer um.

Exige-se que a população se manifeste de forma respeitosa quando os direitos sociais são oferecidos sem nenhum respeito. A resposta não poderia ser outra.


Criminaliza-se quem se preocupa com o espaço onde vive. Devo decepcionar muitas pessoas, mas infelizmente os três garotos não são delinquentes que adoram uma baderna. Não são pirofágicos. Muito menos foram os três a quebrarem os veículos. Assim fosse, seria fácil acabar com o vandalismo. Eles fazem parte de movimentos que se preocupam com assuntos que dizem respeito a uma coletividade e agem em prol disso. E ter essa preocupação e agir em prol de benefícios coletivos é privilégio em terra de quem se esforça para ganhar o seu e resolver problema de transporte público comprando seu carro zero.  

Essa história se repete, mas é inadmissível que isso se repita em um contexto de democracia. .  O caminho para enfrentar os problemas sociais é a repressão às manifestações. O que não imaginávamos é que essa violência fosse para além daquelas nas ruas, que se tornaram populares desde junho do ano passado pelas mãos da polícia militar, mas chegasse a caso de operação elevando manifestante a status de traficante ou estelionatário.

A tentativa de resolver o problema das manifestações e depredações de ônibus foi contendo três rapazes. Mas a ebulição não mora nas mãos deles. E eles não estão sozinhos. Atrás deles estão centenas de pessoas que defendem o transporte público de qualidade e, sobretudo, as manifestações que denunciam os absurdos. Foram milhares de assinaturas pedindo a soltura deles. Foram duas manifestações em Goiânia com centenas de pessoas. Por fim, o judiciário decidiu libertar os rapazes. Por bom senso, razões jurídicas ou, bem mais provável, por pressão popular (ou todos eles).

Eles foram para cadeia por participar de manifestações e saíram dela também por elas. A atitude da polícia civil deixa claro: a democracia é um desafio ao Estado. A decisão do judiciário também nos ensina: a democracia é um desafio para o povo também, que não pode se omitir diante de abusos. E que mostra que tem razão quando age em conjunto em defesa de causas nobres. 

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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