Lorena Lara
Goiânia – Fernando Gabeira foi o palestrante do Café de Ideias da última segunda-feira (19/5), no Centro Cultural Oscar Niemeyer. Gabeira é escritor, jornalista, ex-deputado federal e um dos fundadores do Partido Verde. Atualmente, é comentarista da Rádio CBN e tem um programa na Globo News.
O esquecimento da política foi o grande tema da fala de Gabeira no Café de Ideias. Para ele, a redução do papel do Estado em vários lugares do mundo e o fim das utopias são os dois grandes fatores que levaram a tal esquecimento. "O Estado tinha uma presença que foi reduzida e perdeu importância e a preocupação das pessoas", diz. "Concordo também com as teses que dizem que acabaram as utopias, que eram um elemento muito dinâmico no século passado", completa.
Para Gabeira, o crescimento do individualismo, no entanto, não é um fator tão determinante para o esquecimento da política. "O individualismo era mais ou menos inevitável", afirma. "Não só porque a organização do sistema te conduz a privilegiar os seus interesses privados, mas porque passamos por um desencantamento do mundo através da revolução tecnológica e industrial", explica.
Ele afirma que esse crescimento do individualismo levou ao fortalecimento de movimentos importantes. "A chegada da mulher à compreensão de lutar pelos seus direitos passa pelo exame da sua vida individual. O mesmo vale para os gays", conta. Desta forma, com o declínio da política tradicional, conta o ex-deputado, surgiu uma política que envolvia várias vontades individuais que a política clássica não abarcava.
"Aqui no Brasil nós vimos esse movimento em 2002", diz Gabeira, se referindo à eleição de Lula. "Houve um processo de surgimento não só de um partido de esquerda forte como também de todos esses movimentos de vontades individuais. Quando se chegou ao poder, a expectativa era de se avançar no processo político. Essa esperança foi frustrada", ressalta.
Segundo ele, no momento em que se esperava o crescimento da atuação política, isso não ocorreu. "O que nós vimos foi um governo se constituindo da maneira mais tradicional possível, formando uma coalisão para dirigir o país e entregrando ministérios e cargos públicos para que os partidos fizessem suas políticas mais ou menos à vontade", conta.
Gabeira também criticou a valorização dada ao Estado pelo Partido dos Trabalhadores (PT). "Passaram a considerar que o Estado era deles, que o Estado era de quem estava no governo e que a oposição não teria acesso a isso", afirma. O ex-deputado também ressalta que tais ideias foram transportadas para a política externa brasileira.
"Fizeram com que a política externa nacional se transformasse na política externa de um partido. Evidentemente, as pessoas se distanciam disso.", aponta.
Manifestações e redes sociais
Em entrevista ao A Redação, Fernando Gabeira comentou o atual momento político brasileiro e as manifestações que se espalham pelo país desde o ano passado e a importância das redes sociais e da internet nas próximas eleições.
O entendimento e o engajamento político dos brasileiros mudaram?
O histórico político brasileiro é cheio de momentos de luta e momentos de calmaria. A existência de algumas lutas agora no Brasil não significa que alguma coisa mudou entre os brasileiros, significa apenas que num processo, que é um processo amplo no mundo inteiro, as democracias estão sendo cada vez mais solicitadas. Existe uma consciência maior da população sobre seus direitos, existe uma indignação com a corrupção, existe uma vontade de que os recursos públicos sejam voltados para que os serviços públicos funcionem. Então essas vontades e aspirações não teriam se expressado com tanta força, e nem com tanta organização, se não tivessem acontecido também numa era em que está havendo uma revolução digital. Um número muito maior de pessoas está conectada, as redes sociais trocam informações. É essa a novidade em relação ao passado. As formas de organização, o estímulo à organização está sendo feito por essa conectividade, coisa que não acontecia antes. A sociedade ficou muito mais poderosa com a internet e os governos ficaram mais distantes, não souberam aproveitar esse momento para se aproximar.
Como as redes sociais farão parte das próximas eleições?
Nas proximas eleições, a situação reflete muito já um processo longo de presença de um governo no Brasil. Então vai haver, necessariamente, uma polarização entre governo e oposição e as redes sociais vão se mover também dentro desse processo. Como o processo também se deteriorou muito do lado dos políticos, como eles responderam muito de uma forma cínica e respondem de uma forma cínica às críticas e às denúncias que recebem, muito provavelmente uma parte da população vai se afastar da política, no sentido de aderir ao voto nulo e ao voto em branco. Essa é uma possibilidade que esse momento traz. Pode ser que seja revertido adiante.
A incapacidade dos governos de lidar com as críticas é um sinal de fraqueza?
Não é só uma fraqueza, significa que eles ficaram numa outra época, direfente da época que a sociedade está vivendo. Os governos não podem dar resposta, primeiro porque eles chegam ao poder através de um conjunto de promessas que não são cumpridas. Para se instalar no poder, eles fazem um conjunto de composições que implicam já em nortear o governo e abrir caminho para a corrupção. Então, diante dessa situação toda, eles escolhem uma posição que eu chamo típica de cara-de-pau. Eles não se importam com as evidências e defendem uma versão dos fatos. Criam uma versão dos fatos e defendem essa versão pra se manter no poder. Mas a verdade é que a população brasileira cada vez mais é exigente, cada vez mais tem noção dos seus direitos, cada vez mais vai exigir que a democracia avance e que os políticos sejam servidores do País, não usem o País para se servir pessoalmente.
Então a decisão de votar nulo ou branco é uma reação dos brasileiros às opções ruins?
Sim, inclusive é uma reação à própria política, de achar que no território da política não se resolvem os problemas. A população percebeu que precisa resolver os problemas dela na vida particular, porque os políticos estão perdidos.