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Perdoar o quê, mesmo?

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21.04.2014 - 12:12:53

Zurique – Domingo de Páscoa. Hoje acordei com um passarinho cantando perto da minha janela. Um pequeno concerto. Sempre reconheci seu canto, mas não o conhecia. Olhei pela janela e vi um pássaro marrom, sem beleza, um pouco maior do que imaginava. A sua única beleza era o canto, o resto, banalidade.
 
Desci as escadas para procurar ovos no jardim e brincar com os outros delicadamente pintados à mão e me lembrei de Magnólia. O filme de Paul Thomas Anderson que assisti mais uma vez essa semana. O grande tema do filme é o perdão. Em determinado momento, o carente policial Jim diz que "o difícil é saber o que se deve perdoar".
 
Eu me perguntei também, perdoar o quê, mesmo? Qualquer família, mães, filhos, pais, irmãos, e as mais sólidas amizades só sobrevivem através do perdão. Toda história de amor, todo encontro e desencontro exige perdão. E esse é um tema da Páscoa, perdoar é renascer. Mas se deve perdoar qualquer um ou qualquer coisa? A pergunta de Jim permanece solta no ar. Perdoar é se livrar de um peso, de uma mágoa, uma dor ou frustração. Mesmo depois de ver desejos ou expectativas caídas no chão, em cacos, feito uma xícara de porcelana antiga que se herdou da avó?.
 
Perdoar é ao mesmo tempo ficar livre, esquecer, sacudir a poeira e ficar pronto pra outra. Entender mais uma vez que ninguém é perfeito, muito menos as pessoas que mais amamos, as que nos são mais próximas. Sentir que é através desses mesmos defeitos que aprendemos a amá-las. Porque amar o bom e o bonito é fácil. Difícil é aprender a amar aquilo que dói, que nos exige paciência e resignação. Difícil é ser bom para que não merece.
 
No filme, a cena do filho canalha chorando a morte do pai que o abandonou quando criança, obrigado-o a cuidar sozinho da mãe doente é emblemática. Amor não tem lógica, nem o perdão. E apesar disso, há tanta solidão nesse mundo, como a de Donnie, o menino gênio já envelhecido, que diz repetidamente em uma mesa de bar, ouvindo Supertramp: "Eu realmente tenho amor pra dar. Eu só não sei onde colocá-lo".

Tenho vontade de dizer que não existe amor sem perdão, que ele cresce e se define no perdão. Mas não é tão fácil assim, pois antes de tudo é preciso perdoar-se a si mesmo e isso é mais complicado do que parece. Nossas pretensas culpas são ocultas, nem sempre podemos definí-las, elas se perdem em um passado vago, em uma infância esquecida, escondida atrás de portas e armários que o inconsciente ajuda a manter distante. Pequenos gestos podem se tornar enormes empecilhos e outros importantes desaparecem no labirinto da memória.

Por isso mesmo, é preciso perdoar, mas perdoar não significa continuar se expondo à dor. Perdoar é também ao mesmo tempo se distanciar da origem da dor. Ainda no filme, Claudia expulsa seu pai de casa e aprende a sobreviver à praga da chuva de rãs, prevista no Êxodo 8:2, número que pontua todo o filme. "O passado saldou suas contas conosco, mas nós não o deixamos para trás".

Nessa frase, repetida várias vezes, se esconde o verdadeiro tema do filme e a resposta à pergunta inicial de Jim. É preciso deixar o passado para traás, só assim podemos realmente renascer. A Páscoa é a festa do renascimento. Para renascer é preciso antes morrer ou matar, poder renascer sem antes morrer, libertar-se do passado. Perdoar aos outros e a si mesmo.

Aceitar a morte, aceitar o medo, aceitar os limites da vida para podermos viver plenamente. O que nos faz sofrer não é o sofrimento, ou a frustração de não ver nossos desejos satisfeitos, mas o fato de não aceitarmos o torto, o imprevisível, o desagregado. Como disse meu querido amigo monje budista Jorge Koho: "É preciso aprender a não sofrer com o sofrimento".

Aceitar, eis a palavra mágica. Aceitar a distância, os nossos limites, os defeitos das pessoas que amamos e amá-las ainda mais por isso, aceitar a morte, a velhice, a transformação do corpo e do espírito, a transcedência, o ir além de nós mesmos e ao mesmo tempo nos sabermos pequenos e finitos e imperfeitos. O amor só é possível na imperfeição.

Aqui é primavera, espero que chovam magnólias do céu.

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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