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Tempo de polêmicas menores

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11.04.2014 - 17:23:15

Goiânia – Relutei ao máximo, mas é impossível deixar passar batido essa história do professor de filosofia do Distrito Federal que colocou Valesca Popozuda como grande pensadora em prova aplicada aos alunos do Ensino Médio. Não achei relevante. Mas os desdobramentos do caso me impelem a escrever sobre o assunto.

A verdade é que vivemos tempos das polêmicas bobas, das tretas efêmeras. Todo dia temos que nos indignar com algo, compartilhar um absurdo nas redes sociais, assinar um abaixo assinado para salvar alguma coisa. E nos sentirmos seres humanos melhores por isso. Na boa, rebelde de Facebook é tão perigoso quanto mosca sem asa. Não é uma assinatura no Avaaz que vai resolver o Brasil. Revolução alguma será curtida, comentada ou compartilhada.

O Twitter se vangloria de seu papel na Primavera Árabe. Para a empresa, é ótimo poder ostentar isso. Mesmo que não seja inteiramente verdadeiro. Pode até ter ajudado, mas definitivamente não foi decisivo. As pessoas fariam o que fizeram pelas condições objetivas a que estavam submetidas e que não suportavam mais. Não foi por conta de uma corporação que ganha dinheiro quando compartilhamos com nossos seguidores a foto de nossos filhos fazendo peraltices que aquelas pessoas se tocaram que não dava mais. Soa ingênuo colocar tanta responsabilidade na construção de um movimento social nos sites de relacionamento.

Nesse vale tudo do mundo virtual, o assunto groselha ganha peso que não lhe é devido. Quando tínhamos menos veículos de comunicação, o filtro que selecionava o que era publicado ou ia ao ar era mais rígido. Os tais gatekeepers que estudamos em Teorias da Comunicação. Com a proliferação de locais sedentos por qualquer novidade mínima para chamar de furo seu na internet, isso ficou mais maleável. Além disso, as redes sociais ainda amplificaram mais esse desespero do novo pelo novo. Mesmo que esse novo não tenha tanta relevância assim. Ou, como o caso do professor e a Valesca Popozuda, sem relevância alguma.

Percebo avanços com o advento da internet, é evidente. Mas não a considero panaceia alguma. Os pontos cruciais de seu, digamos, dark side é que as pessoas se tornaram mais rasas, superficiais e sem capacidade de concentração. E isso, naturalmente, leva ao reforço dos preconceitos e estereótipos. O senso comum elevado à enésima potência. 

Quer conhecer o antro do senso comum? Desça a barra de rolagem de sua página inicial no Facebook por um minuto. E seja bem-vindo ao Inferno de Dante!

Pesquisas e mais pesquisas indicam que as pessoas não terminam textos que começam a ler na internet. Já mudam de página, mudam de post, mudam de conversa. Um percentual baixíssimo dos que começaram a ler esse texto chegaram até aqui. Isso é muito grande para elas, elas desejam tudo em até 140 caracteres. E se possível com um vídeo ou foto piada curta de um macaco pedalando para ficar mais palatável. 

Minha brilhante colega aqui de A Redação Anapaula de Castro Meirelles pensa diferente. Ela realmente acredita que a internet tem poder real de mudar as coisas. Odeio pensar diferente, pois sei que sou mais burro e velho e ela deve estar certa. Mas não consigo enxergar a coisa de forma tão otimista. O que ela pejorativamente chama de velha mídia tem pontos que ainda não foram superados. Um maior rigor ao checar fatos, uma preocupação maior com a linguagem, mais aprofundamento, alguns limites. A internet liberou tudo, até mesmo porrada nas partes íntimas. Não consigo ver nisso uma vantagem.

É claro que não vivíamos o paraíso anteriormente e erros grotescos com reputações destruídas de forma definitiva aconteciam. Mas o Éden não veio com o mundo www. Arregaçar a honra de alguém hoje é mais comum. A pulverização proporcionou isso. Pergunte a qualquer garota que teve fotos íntimas compartilhadas para entender do que estou falando. Namorados magoados não conseguiriam espaço para publicar fotos da ex pelada nos jornais, não teriam lugar nas emissoras de televisão para veicular os vídeos sexuais. Agora a possibilidade está somente a dois cliques do mau caráter.

No final de tudo, quem deu show (de novo) foi Valesca Popozuda. Eu adoro essa mulher. Para mim, ela é a Simone de Beauvoir atualizada, uma radicalização do feminismo – sou dona do meu corpo, dou para quem quiser e ninguém tem nada com isso. Para quem criticou o professor por usar o trecho de sua música em uma prova, além de provavelmente ter muito tempo livre para ficar na groselha de internet, foi preconceituoso sim com o funk carioca. Valesca me ensinou como lidar com gente desse tipo, para o recalque passar longe: beijinho no ombro. 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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