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Nunca mais teremos uma eleição como a de 1989

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09.04.2014 - 09:15:09

Vejo a panela começar a esquentar para as eleições de 2014. As movimentações em terras goianas, as pesquisas que indicam chance de a oposição endurecer o páreo em âmbito nacional e me recordo da emoção que foi a eleição de 1989.

Jovens, a verdade é que nunca mais teremos um pleito tão marcante quanto esse que elegeu Fernando Collor de Mello presidente da República.

O cenário de então era cheio de particularidades que deu àquela eleição aspecto único. E que tomara não vivenciaremos mais. Depois de um negro período de 21 anos de ditadura militar, uma eleição indireta na qual o vencedor não assumiu e uma crise econômica que fazia com que toda casa de classe média tivesse um mercadinho em algum cômodo para que a inflação das gôndolas não lhe mordesse todo o salário, fomos às urnas para eleger o presidente.

Eu tinha 10 anos. Independente da idade, era impossível não se envolver com o clima da campanha. Minha mãe era militante de um partido político e participei de todo o processo com ela. Comícios e carreatas eram meu parque de diversões. Adesivamos o carro da família inteiro com o nome de nosso candidato. Eu ia para a escola com santinho para distribuir aos colegas. Fiz boca de urna no projeto Criança Também Vota capitaneado pelo suplemento Almanaquedo jornal O Popular.

Se hoje vivemos um baita Fla x Flu no ambiente político, cá entre nós, ele é fichinha perto do que foi o segundo turno entre Collor e Lula em 1989. Artistas cantando jingle de um lado, denúncia pesada de cunho familiar de outro, todo mundo xingando o Sarney mais que o Paolo Rossi – e quem diria que décadas depois os três estariam no mesmo campo político.

A demanda reprimida de uma geração inteira que nunca havia tido oportunidade de manifestar sua vontade acerca do principal cargo da Nação era o que movia aquele pleito. Tivemos 22 candidatos ao cargo principal. Recordo de um debate na TV Bandeirantes com todos (ou grande parte deles, não me lembro de detalhes) com aquele mundo velho de gente para explicar suas propostas para o Brasil. E de um quebra-pau de Brizola e Maluf. Coisa histórica.

E tinha os candidatos que acabavam ganhando a simpatia pelo caricato. Marronzinho (pela simplicidade) e Gabeira (por um comercial hipnótico no horário eleitoral) são exemplos disso. O maior deles, sem a menor dúvida, foi Enéas Carneiro. Com uma barba que deixava a de Lula parecendo a de um adolescente e proferindo mais palavras por segundo que narrados de jogo de futebol de rádio AM, ele se tornou a primeira subcelebridade da política brasileira na Nova República. Pena que depois que ele teve tempo para falar se mostrou um fascistóide de primeira. Era mais engraçado quando eram somente 15 segundos em 1989.

A eleição seguinte no final de 1994, após o Plano Real, já não teve o mesmo grau de emoção. O País era outro. Já havíamos derrubado o eleito derrubado por um processo de impeachment, Itamar Franco havia composto com o PMDB e o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardos (FHC) venceu o pleito no primeiro turno, tendo como principal cabo eleitoral a nova moeda. 

Era outro Brasil. Melhor, sem dúvidas. Com uma moeda estável, mais justo, com alguma estabilidade política – mesmo que tudo isso em índices muito piores do que o desejável, é preciso reconhecer que o País melhorara. Exatamente por conta dessa estabilidade institucional, a emoção de 1989 nunca mais (repito, tomara!) nunca mais será repetida. Quem viveu, viveu.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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