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Sobre Solomon e meninos amarrados em postes

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12.03.2014 - 11:48:21
Goiânia – Em 1841, Salomon Northup, um violinista e empresário negro americano, da cidade de Saratoga,  é sequestrado em Washington e vendido como escravo em Nova Orleans. Ele tenta, nos primeiros momentos, dizer que foi um engano. Que ele era livre. Tentou, em vão. Ficou 12 anos vivendo como escravo, depois de já ter conseguido a alforria. Esse é o roteiro do filme que levou o Oscar. Essa é uma história real.
 
Em 2014, no Rio de Janeiro, o ator Vinícius Romão, ficou detido por 16 dias por ter sido confundido com um assaltante. Ele é negro. Em 2014, a cada três assassinatos no Brasil, dois vitimam negros. Enquanto a taxa de homicídios de negros é de 36,5 por 100 mil habitantes, no caso de brancos, a relação é de 15,5 por 100 mil habitantes. 
 
Em 2014, a taxa de analfabetismo registrada entre pretos e pardos é maior do que o dobro da apresentada pelos brancos. Daqueles que se declaram negros, mais de 44% não são protegidos pela Previdência Social. 
 
Os rendimentos médios mensais dos brancos (R$ 1.538) e amarelos (R$ 1.574) se aproximaram do dobro do valor relativo aos grupos de negros (R$ 834), pardos (R$ 845). Em 2014, aumentam os números de quem se declara negro no país. Mesmo maioria, não tem força de quem seja.
 
O filme “12 anos de escravidão” merece ser visto não apenas por ser vencedor de um Oscar. Mas porque é uma história que não se encerra no passado. Ela é viva no presente e faz-se necessário e urgente que os olhos que vêem as telas enxerguem a realidade. 
 
Quando fui ao cinema assisti ao blockbuster, saí de um filme que se passava em 1841. Quando voltei para 2014, ainda estava em 1841. Um casal negro nos abordou pedindo por esmola. Recuamos. Eles insistiram. “Minha esposa está grávida de três meses. A gente não come há horas. Somos de Minas. Estamos esperando a assistente social emitir passagem pra gente voltar”. Entreguei o que tinha na carteira e cai no choro.
 
Chorei porque sabia que aquele dinheiro não serviria para nada. Poderiam até comprar comida, mas provavelmente usariam drogas. Não me importava. Chorei de tristeza em perceber que de meus ancestrais escravos para cá, as mudanças ainda guardavam as velhas injustiças. Chorei de desespero por saber que os brasileiros não enxergam nesses negros pedintes, assaltantes, usuários de drogas os mesmos negros que ainda não foram alforriados desde a princesa Isabel.
 
Por todo o tempo que assisti ao filme, martelava em minha cabeça um pensamento do francês Alexis de Tocqueville. O homem moderno é aquele que vive tão somente o presente. É incapaz de relacionar seu presente ao seu passado e ao futuro. Ele o formulou ao fazer projeções dos possíveis fracassos que a democracia poderia ter, após a Revolução Americana. Pensei que Tocqueville estava mesmo certo. 
 
Somos incapazes de relacionar nosso presente ao passado e futuro. Solomon nada tem a ver com os negros amarrados no poste de hoje e com Vinícius confundidos.
 
Se por um lado o filme é capaz de nos transportar para toda dor e injustiça sofrida pelos escravos, ele pode, sutilmente, nos conduzir a um erro. 
 
Quem assiste ao filme padece de compaixão por Solon. Ele é inteligente, é bem formado, sabe tocar violino, é alfabetizado, é polido. Em momentos do filme quem assiste quase chega a dizer. “Que desperdício, alguém tão inteligente escravizado. Daria um excelente empreendedor”. Por todos os atributos, a liberdade de Solomon parece ser não apenas necessária, mas óbvia. Porque ele é praticamente um branco. Apenas sua cor é diferente.
 
Ora, mas liberdade não deve ser acompanhada de atributos. Liberdade não deve ser atribuída apenas ao homem que se assemelha ao branco. A liberdade também era justa para quem não tinha alforria. Para quem não sabia ler. Para quem tocava seus tambores e não violino. Para quem não sabia trabalhar bem e gerar lucros. Para quem não trocava seus orixás por outros santos. Esses negros, a quem a liberdade chegou mais tarde, continuaram privados de muitas coisas. Eles são aqueles de hoje, dos dados ali de cima. 
 
Os do tronco de 1841 estão no mesmo tronco de 2014. Estão no sétimo caso de justiceiros em Goiânia. Apanham do mesmo jeito. À história que reflete a violência que envolve os negros, a sociedade responde resolvendo com suas próprias mãos. Não enxerga o passado, nem vislumbra um futuro diferente. Com as próprias mãos, reproduz as mesmas dores. Defende as mesmas propriedades.
 
Os negros de hoje, que como Solomon, conseguiram se embranquecer, sustentam por aí o discurso da meritocracia. Mas a maioria ainda não goza plenamente dos direitos sempre atribuídos aos brancos. Ainda são privados de muita coisa, como os dados acima indicam.
 
Assistir ao filme é uma pausa que proponho a quem se afunda no universo virtual, superficial e repetitivo de sua timeline no Facebook, onde a defesa pelo seu carro (com todo respeito pelo suor que o comprou) se aproxima da defesa pelo que há de mais supremo. Assistir ao filme é um convite a tentar pensar para além de seu presente e entender que precisamos de saídas mais nobres e, certamente, que nos exigem mais esforço, que fazer justiça com as próprias mãos. 
 
Instiga a tentar enxergar alguma relação entre as injustiças históricas contra os negros e a desigualdade que ainda enfrentam hoje. Que precisamos nos envolver com os homens (com todas as fragilidades e falhas que eles guardam), mais do que com o cultivo de nosso patrimônio. Se ainda nos restar alguma preocupação com nossa humanidade.   
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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