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O preço de cada coisa determina tudo

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04.02.2014 - 16:02:52

No último final de semana, estava eu fuçando nas coisas que têm na loja da Apple no meu tablet. Nada muito interessante. Um aplicativo groselha de cá, um joguinho imbecil de lá. Tudo nos conformes. Resolvi entrar na seção de música para ver o que era destaque, quais as grandes apostas da venda online no Brasil. Novamente, nada me interessou.

Entrei na parte de promoções. Um título me chamou a atenção. Eram 100 clássicos do blues com um preço ridiculamente baixo. Algo como três ou quatro dólares, não me recordo ao certo. Enfiei minha senha e baixei as músicas.

Foi aquela típica compra por impulso. Embora eu ame o blues e vários artistas dessa coletânea, não foi esse o motivador do meu gasto. O número gigantesco de músicas a um valor que muitas vezes gasto com bobagens que nem sei nominar foi o real responsável. De flanelinha a cerveja quente, quantas vezes não deixei meus suados reais em coisas bem piores? Nem sei dizer.

Enquanto eu ouvia Muddy Waters, Howlin’ Wolf, John Lee Hooker e tantos outros gênios, pensava: “por que diabos eu não faço isso mais vezes?”. Opto tantas vezes pelo download via Soulseek quando comprar na lei é inegavelmente bem mais confortável. A real é que não considero nada justo pagar por um arquivo virtual o mesmo valor do CD ou do LP na loja. Não entra na minha cabeça.

Os caras não têm o custo do produto físico em si, a logística de distribuição é bem mais simples, não tem aluguel de espaço, custos trabalhistas, comissões de vendedor para embutir no valor. Não é razoável. Agora pagar poucos centavos por cada faixa dentro uma coleção gigante de músicas que amo me pareceu um negócio imperdível.

As vendas digitais só vão emplacar de verdade no Brasil quando essa conta for extremamente compensadora. Embora os números do comércio online de bens culturais venham crescendo ano após ano, o boom de verdade só acontecerá quando essa relação for melhor resolvida.

Nos EUA o debate já é outro. A discussão por lá é o fim do download, pois todos terão acesso online ao que quiserem ver/ouvir/ler, sem necessidade de baixar para seu computador. Por exemplo, você já viu a imensidade de discos, seriados e filmes que estão disponíveis na íntegra no próprio Youtube? O crescimento de serviços pagos nessa linha como o Netflix também ilustra bem esse caso. O cara paga uma taxa mensal e fica livre para consumir o que bem entender.

Sem preço que faça sorrir o bolso do trabalhador brasileiro, fica difícil convencer o cara a sair da pirataria virtual. Para concorrer com o que é de graça, só o absurdamente barato. Fora disso, é trabalho para Hércules nenhum botar defeito.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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