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Pare de ouvir Alcione, que talvez funcione

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08.01.2014 - 20:01:51
Minha amiga e meu amigo, bem-vindos a mais uma sessão de meu consultório sentimental, aquele em que não dou ou vendo conselhos e lições de moral, e de que qualquer modo me faz caso de ferreiro com espeto de pau, mas com os quais me sinto a tal. Achando-se um excluído da inclusão sexo-afetiva? Relaxe, você não está sozinho nessa, embora avulso esteja e provavelmente vá ficar por muito tempo ainda, talvez por toda a vida.

Falemos hoje do cheiro de amêndoas amargas dos amores contrariados e de artimanhas obsessivas para conquistá-los ou reconquistá-los. Na arte de tentar manipular cupido e de correr atrás do prejuízo, difícil avaliar quando começar a serenata de sapo e quando enfiar a viola no saco. O objeto de seus afetos ou mesmo obsessão já não responde a nenhum de seus estímulos, e-mails, telefonemas, SMS, WhatsApp?

Você já investiu fortunas em amarrações para o amor, aplicou todas as técnicas infalíveis listadas nos caros kits de sedução e reconquista, à venda por aí, e a única coisa que conseguiu foi ser solenemente ignorado ou pisoteado como uma asquerosa barata? Pare de gastar babas e lágrimas à toa. Aceite de uma vez que, quando um não quer, dois só brigam e não roçam nem coxas nem barrigas. Ademais, é bem possível que, a essa altura, ele ou ela já estejam enrabichados por outra formosa criatura.


É verdade que por aí o que te dizem é que insista, que lute pelo seu amor. É assim nas novelas, é assim nas comédias românticas. Mostram que quem espera sempre alcança e o que não é dado de graça, compra-se, quer com presentes caros, quer com gestos dramáticos, quer se transformando repentinamente num super-herói que salva o mundo para romper a indiferença da menina.  Os livros de autoajuda não ajudam em nada com suas lições de autoconfiança e perseverança. Ficar expirando como um mantra "me ame, me ame, vem, vem" não fará o universo conspirar amém.

Se suas calças já estão puídas de tanto arrastar a bunda no chão, se você já atingiu o fundo do não, pare de ficar embaixo do solado, chiclete mascado, ou no pé, de chulé, para dar a volta por cima.  Tudo o que você fizer será inútil, perdulário e muitas vezes até humilhante. Não adianta propagar suas qualidades extraordinárias, que não vão te querer mesmo que você nasça de novo, vestido de ouro brilhante. Por exemplo, no seu caso, se for mulher, coma um caixa inteira de bombom.
 
Não adianta botar silicone
que a dor some.
Não é fazendo lipoaspiração
que você terá cintura fina
e  o amor daquele homem.
 
Se já te disseram com voz firme que não te querem ou mesmo se te cozinham lentamente em banho maria, não adianta você plantar bananeira, virar cambalhota, mostrar que mamãe passou açúcar demais em mim ( é bem provável que seu objeto de obsessão só para você se diga diabético.)  

Inútil fazer ameaças: “no meu amor por você ninguém me ultrapassa”,  provar  que é um amante à moda antiga do tipo que ainda manda flores e diamantes que não murcham tão depressa, cantar “quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita”, olhos nos olhos. É Chico Buarque, mas reconheçamos: que troço mais besta chorar no tapete atrás da porta ou com a dita sempre aberta. Só quem entra em porta permanentemente escancarada é mendigo ou cachorro na igreja.
 

Por falar em fé, também de nada vale você mostrar a sua grande generosidade cristã, a sua enorme disposição para dividir o filé com os amigos, aceitar e perdoar. Se há uma coisa que o amor-paixão romântico não é, é cristão. Guarde para as causas sociais e filantrópicas o seu bom coração. O cupido é um gordinho petulante, egocêntrico e egoísta.

Ninguém ficará com você por reconhecer a sua nobreza de espírito ou por comiseração. Não adianta ser carente como um gato de pensão. Bobagem buscar explicação em dívidas contraídas em vidas passadas. Isso é encanação, não encarnação. Não queira viver de passado como uma alma penada.
 

Lembre-se de que o amor é uma dança que se dança a dois, por mais que te digam que se pode dançar a três ou de quatro. É preciso que um dê um passo e outro deve dar o outro logo depois ou no mesmo compasso. É bem verdade que há amores que são verdadeiros tangos, um tal de puxa pra cá, empurra pra lá, hoje não quero, quero agora, agora não é hora.  Mas em geral nesses casos fatais de desencontro ou desengano, a única coisa, como disse Manuel Bandeira, “é tocar um tango argentino”. O desenlace é certo, ainda que tardio.

Há boleros de passos mais lentos, sincronizados, há os longos giros clássicos das valsas vienenses. E há essas danças regateiras e sem-vergonha, como o forró, a salsa, a lambada. Mas sempre é preciso que os dois queiram embaralhar as canelas, o paletó e a barra do vestido. Creia, minha amiga, meu amigo, o amor nunca é trance em que você passa o dia todo ignorando quem está ao lado e fixando em êxtase o DJ, achando que assim um dos dois irá viajar com você. Não é tampouco funk, em que a pessoa se contorce, levanta-se e se agacha, fecha e se racha, contrai e descontrai, mostra todas as posições que sabe fazer, porque isso não torna você um bom par pra amar, só pra foder.
 

Também não vou aconselhá-lo a correr apressadamente para a fila, porque as filas andam ora rápido, ora devagar, e sempre há o risco de você ser  tardiamente e mal atendido, porque o sistema caiu, foi preciso adequar custos reduzindo o quadro de funcionários. Melhor pegar a sua senha e aguardar pacientemente a sua vez, que vem no ano seguinte ou nunca talvez. Se preciso, recorra a um ansiolítico. Abuse da técnica da indiferença, porque esta, dizem, mata até cachorro e, se não mata, você ainda terá preservado o que lhe resta, se é que lhe resta, de dignidade, e verá passar o tempo que, para quem nele crê, é o único a operar milagres.
 
O amor é dança e também é uma loteria. Sempre se pode pagar um uma dançarina de aluguel ou comprar um bilhete premiado. Mas, na honestidade, nem todos serão contemplados com a bonança. Essa é mais uma das enganosas esperanças que iludem os seres sobre a Terra. Não é uma questão de aparência ou todos os belos seriam amantes bem-sucedidos, nem de genética, boa ou má constelação de família, de fé, força do pensamento ou merecimento.  É uma simples questão de sorte.

Olhe ao redor. Quantos casais você conhece que são realmente felizes? Quantos você pensa que ganharam na mega-sena? A maioria, se não fica pra semente, jamais encontra a outra banda da melancia e tem que levantar fervura sem a tampa da panela. Sim, para ganhar, há que se apostar, mas pra que entrar em jogos viciados, de números marcados? Por ora, chega de chorar o leite que não será mais derramado, de arrancar e comer a casca da ferida. Quer finalmente uma dica, que não vale nada, nadica, mas é de graça?
 

Você não para de pensar
 naquela negona ou negão
de tirar o chapéu,
que deu créu
no seu coração?
pare de ouvir Alcione.
Talvez funcione.
 
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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