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Eu também tenho orgulho de ser brega

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20.12.2013 - 21:27:51

Morreu na manhã de hoje Reginaldo Rossi. Grande perda para a música popular do povo brasileiro. Aos 69 anos, um maldito câncer de pulmão colocou ponto final em uma bela trajetória no campo musical. E muito mais importante ainda sob a ótica comportamental.

O pernambucano foi ícone de um sentimento que habita o âmago de todos brasileiros. Sim, por mais que queiramos pagar de descolados nova-iorquinos, intelectuais franceses ou amantes do fog londrino, nós gostamos mesmo é do brega. Nossa essência é brega. E feliz de quem assume o que é. Ou vai dar uma de enrustido aí?

Nem sempre pensei assim. Vivendo aquele sectarismo típico da juventude, na adolescência neguei essa verdade que faz parte de mim. Não aceitava nada que não fosse barulhento, esquisito, suado e tatuado. Dias imberbes… Depois de algum tempo que fui reconhecer o poder da música brega. Ela fala com a alma, toca o coração.

Conheci Reginaldo Rossi no revival que a carreira do cara teve na década de 1990. Naturalmente, falei um monte de impropérios sobre o cantor. Como eu já disse, são os anos das certezas triunfantes que vão sendo minadas quando a razão e o juízo vão chegando. Mas mesmo nessa época já simpatizei com o cabelão esquisito, os óculos escuros e as temáticas embriagadas. Mas não admiti para ninguém.

Depois de formado é que fui me reconhecer nesse universo. Fiquei fã dessa geração brega dos anos 1970. Em especial do trio Odair José, Amado Batista e Reginaldo Rossi. É claro que Roberto Carlos é hors concours.

Essa turma, que era defenestrada pela crítica e pela intelligentsia acadêmica, é quem bancava a carreira dos senhores do requinte e bom gosto, ídolos dos intelectuais. Gente do naipe de Chico Buarque, Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Milton Nascimento e tantos outros. Esses exibiam vendagens de discos modestas comparadas ao status que tinham e ainda têm. Os carregadores de piano, quem realmente vendia a rodo e pagava a conta da gravadora, inclusive cobrindo o rombo dos trabalhos da MPB, digamos, respeitável eram os chamados bregas.

Hoje me sinto orgulhoso do meu sangue brega. Não tenho vergonha de dizer que essas músicas me dizem muito, me emocionam. Sinto verdade na sua dor. E quando percebemos verdade em qualquer trabalho artístico, a chance dele sensibilizar é altíssima. E sinto essa verdade quando ouço Reginaldo Rossi.

O outro lado agora tem seu cronista dos desencontros amorosos, das dores de coração, das fossas de fim de relacionamento. Sorte deles que estão lá.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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