Adriana Marinelli
Goiânia – Cinco dias após ter sido agredido por policiais militares nas proximidades do Estádio Serra Dourada, em Goiânia, o servidor público estadual Reilly Rangel ainda convive com a dores físicas e com os traumas daquela noite. Superintendente da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia (Sectec), Reilly chegou a fraturar o maxilar durante as agressões, registradas na noite da última quarta-feira (30/10). Ele, que passa o dia e a noite medicado, se prepara agora para uma cirurgia plástica.
Em entrevista exclusiva ao jornal A Redação, na tarde desta segunda-feira (4/11), Reilly contou detalhes do que aconteceu, falou sobre a rotina após o fato e do que pensa sobre a ação dos policiais. O funcionário público também falou sobre os filhos adolescentes, de 13 e 17 anos, que presenciaram o momento da agressão.
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As agressões
Reilly relembra que ele e os dois filhos deixavam o Serra Dourada minutos após o final da partida entre Goiás e Flamengo, na última quarta-feira (30/10), quando tudo aconteceu. "Um policial parou na frente do meu carro, não tinha como eu avançar", disse. O servidor conta que, ao tentar manobrar para a direita, outro veículo acabou batendo na traseira do carro dele.
"Foi aí que outros dois policiais armados se aproximaram. Um deles bateu a arma no meu carro e já apontou a arma em minha direção. Meu vidro ainda estava fechado, mas as ameaças já tinham começado", conta. "Quando abri o vidro, colocaram as mãos na minha camisa e tentaram me puxar para fora. Só não me arrancaram de dentro do carro porque eu estava usando o cinto de segurança", acrescenta.
Ainda de acordo com Reilly, quando tentavam tirá-lo de dentro do veículo, ele acabou recebendo uma coronhada. "Espirrou sangue para todo lado, inclusive no teto do meu carro e na minha filha de 17 anos, que estava sentada do meu lado."
Conforme ressaltou na entrevista, Reilly disse que tentou durante todo o tempo estabelecer uma conversa civilizada com os militares, porém sem sucesso. "Eu disse várias vezes que era servidor como eles, mas não paravam de agredir. Me disseram: 'você não é servidor, é bandido'."
Já algemado e sem a menor chance de defesa, o funcionário público continuou apanhando. "Eles me chutaram do meu carro até a viatura. Acho que eles queriam me derrubar", lembra.
Todo episódio foi registrado pelo celular da filha de Reilly. "Minha filha começou a filmar e logo entregou o telefone para outra pessoa continuar gravando. Ela ficou desesperada quando me viu todo ensanguentado."
Veja o vídeo:
Reilly também falou sobre como estão os dois filhos, que estão recebendo acompanhamento psicológico. "É triste saber que eles viram tudo aquilo. Meu filho acorda à noite, chora. É um tipo de coisa difícil de superar", lamenta.
Apuração do caso
Após o fato, Reilly foi levado para o 8º Distrito Policial da capital, no Setor Pedro Ludovico, onde prestou esclarecimentos. Ainda na delegacia, o superintendente da Sectec entrou em contato com o governador Marconi Perillo. "Só tenho que agradecê-lo pelo apoio. Ele [Marconi] entrou em contato com o comandante-geral da PM, coronel Silvio Benedito, que também deu toda atenção ao caso", afirmou.
Segundo Reilly, membros da Corregedoria da PM-GO, responsável pela apuração da conduta dos militares, estiveram na casa dele e garantiram transparência nas investigações. Por telefone, a reportagem do jornal A Redação tentou entrar em contato com três dos militares que estiveram na residência do servidor público, mas não obteve sucesso.
"Eu acredito na Polícia Militar"
Mesmo que as dores físicas ainda o acompanhem, Reilly garante que não há espaço para revolta. "Graças a Deus tenho a cabeça muito boa e não vou deixar isso me abalar. A polícia é como qualquer outra profissão: tem bons profissionais e outros que deixam a desejar", afirma.
"O que eu tenho a dizer é que, independente de qualquer coisa, eu acredito na polícia goiana e prefiro acreditar que situações como a minha não vão mais ser registradas. Se me perguntam se eu quero que esses policiais sejam afastados eu respondo: não quero o afastamento deles. Quero que o caso seja apurado da maneira correta, como tem que ser. Se cabe punição para o caso, que assim seja, mas isso cabe à corregedoria", finaliza.