Renan Rigo
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – Onze arquitetas decidiram organizar o próprio trabalho de uma maneira diferente da estrutura tradicional de um escritório. Em vez de concentrar o negócio em uma empresa com gestão centralizada, elas criaram uma cooperativa na qual as profissionais participam das decisões e dos resultados. Formalizada em Goiânia, em 21 de março de 2026, a Barunea é apresentada pelo Sistema OCB/GO como a primeira cooperativa brasileira formada exclusivamente por arquitetas.
A iniciativa surgiu da experiência de profissionais que conheciam o cooperativismo e identificaram a possibilidade de aplicá-lo à arquitetura. Quatro das fundadoras já haviam trabalhado no sistema de cooperativas de crédito. A partir de conversas, estudos sobre o modelo e da elaboração do estatuto, o grupo estruturou uma organização para reunir diferentes especialidades e atender às demandas de cada projeto. “Entendemos que o nosso principal ativo são as próprias profissionais e que faria sentido que elas também fossem donas da organização”, afirma Júlia de Moraes Pereira, presidente do Conselho de Administração da Barunea.
A escolha pelo cooperativismo, segundo Júlia, está relacionada à forma como as profissionais pretendem conduzir o negócio. “Em um escritório tradicional, normalmente existe uma estrutura empresarial mais centralizada, enquanto na cooperativa as profissionais participam da construção do negócio, das decisões e dos resultados. Isso cria uma relação mais direta entre quem executa o trabalho e quem define os caminhos da organização.”
Ela acrescenta que a cooperativa responde ainda a uma questão importante. “Não acreditamos que crescer profissionalmente precise significar fazer tudo sozinha. A Barunea permite que cada arquiteta preserve sua trajetória e sua identidade profissional, mas tenha uma estrutura coletiva para ampliar sua capacidade de atuação”.
Atualmente, a Barunea oferece serviços de arquitetura, urbanismo e soluções para espaços corporativos e institucionais, com atuação direcionada especialmente ao setor cooperativista. Também pretende atender projetos comerciais, franquias e redes. O trabalho é organizado de acordo com as competências necessárias a cada demanda, reunindo arquitetas com diferentes experiências e especialidades. “Conseguimos trabalhar como uma equipe, mas sem precisar transformar todas as profissionais em uma estrutura fixa e hierárquica”, explica Júlia.

A presidente do Conselho de Administração afirma que a cooperativa pretende ampliar as oportunidades de trabalho e o acesso das profissionais a projetos de maior porte. Para isso, a intercooperação, princípio que prevê a atuação conjunta entre cooperativas, faz parte da estratégia da Barunea. “Como atuamos dentro do universo cooperativista, queremos construir relações com diferentes segmentos como crédito, saúde, infraestrutura, energia, entre outros, entendendo suas necessidades e mostrando como a arquitetura pode contribuir para seus espaços, suas experiências e seus negócios”.
Júlia reconhece que a Barunea está ‘construindo um modelo pioneiro’ e que, por isso, várias decisões adotadas por elas também são aprendizados. “Existe um significado forte em mostrar que arquitetas podem se organizar coletivamente, serem donas do próprio negócio e construir uma estrutura profissional baseada na cooperação”. Ele reforça que a intenção é ampliar a percepção sobre o que significa empreender na arquitetura. “Existe a ideia de que para isso é preciso montar um escritório, contratar uma equipe e assumir individualmente toda a estrutura administrativa, comercial e financeira. A Barunea mostra que existe outra possibilidade”, enfatiza.
Para a presidente da cooperativa, a experiência também pode ampliar as possibilidades de empreendedorismo para outras mulheres. Os dados do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026, do Sistema OCB, por exemplo, ajudam a dimensionar a participação feminina nesse modelo de negócios. Em 2025, as mulheres representavam 39,56% dos cerca de 29 milhões de cooperados brasileiros e ocupavam 22,18% dos cargos de direção. Embora fossem maioria entre os empregados das cooperativas, com 53,28% do total, a presença feminina nos espaços de liderança ainda era menor.
Em Goiás, as mulheres correspondiam a 38,13% dos 710.307 cooperados em 2025, segundo o painel do Anuário. Na direção das cooperativas goianas, porém, elas ocupavam 23,78% dos cargos, enquanto os homens representavam 76,22% dos dirigentes. O percentual de mulheres na direção apresentou avanço em relação a 2024, quando era de 21,69%. Nesse contexto, a experiência da Barunea, cooperativa formada exclusivamente por arquitetas, apresenta uma possibilidade de organização coletiva para profissionais que desejam empreender. “Elas têm competência, experiência e vontade de empreender, mas acabam associando empreendedorismo à necessidade de assumir sozinhas todos os riscos, responsabilidades e estruturas de um negócio. O cooperativismo apresenta outra possibilidade, de empreender coletivamente. Esperamos que a experiência da Barunea possa mostrar que é possível unir autonomia e colaboração, crescimento profissional e rede de apoio, protagonismo e construção coletiva. Se a nossa experiência ajudar outras profissionais a enxergarem novas possibilidades para suas próprias carreiras, já teremos contribuído para uma transformação importante”, ressalta.


Em dezembro de 2024, Goiás viu surgir a Sparkoop, considerada pelo Sistema OCB/GO a primeira cooperativa de inovação do Brasil. Constituída em Goiânia por dez profissionais de diferentes áreas, principalmente de tecnologia, provenientes de Goiás e de outros Estados, a organização propõe desenvolver soluções para cooperativas e empresas, integrando conhecimento, estratégia, gestão, inovação e tecnologia.
Presidente da Sparkoop, Robson Cardoso da Silva afirma que a iniciativa surgiu da identificação de desafios que não poderiam ser resolvidos apenas com ferramentas digitais ou consultorias tradicionais. “Percebíamos que muitas organizações, especialmente as cooperativas, enfrentavam desafios cada vez mais complexos, que não poderiam ser resolvidos apenas com tecnologia ou consultorias tradicionais. Era necessário integrar conhecimento, estratégia, inovação, gestão e pessoas para construir soluções capazes de produzir resultados concretos e sustentáveis.”
Segundo ele, o ambiente de inovação de Goiás e o estímulo do Sistema OCB/GO contribuíram para transformar a proposta em uma cooperativa formalizada. Hoje, a Sparkoop reúne especialistas em gestão, estratégia, tecnologia, inovação, processos e comunicação, entre outras áreas. De acordo com Robson, as competências são articuladas conforme os objetivos e as necessidades de cada cliente.
A cooperativa está desenvolvendo o ecossistema de soluções SPARKs, que integra diagnóstico organizacional, planejamento estratégico, planos de negócios, gestão de processos, indicadores e acompanhamento da evolução das organizações. O trabalho também combina ferramentas digitais, inteligência artificial e conhecimento especializado.

Robson afirma que muitas cooperativas precisam modernizar a gestão, organizar informações, aprimorar a governança e utilizar melhor os dados, mas nem sempre dispõem de equipes especializadas ou recursos para desenvolver essas atividades internamente. “Acreditamos que o maior desafio não é simplesmente o acesso à tecnologia. É conseguir transformar tecnologia em resultados concretos”, explica.
O presidente da Sparkoop ressalta ainda que as necessidades variam conforme o porte, o ramo de atuação e o estágio de desenvolvimento de cada organização. Por isso, defende uma transformação digital adaptada às condições de cada cooperativa. “A transformação digital não significa apenas substituir o papel por uma tela. Significa transformar a maneira como a organização aprende, decide, trabalha, se relaciona e gera valor.”
A inteligência artificial, segundo Robson, amplia as possibilidades de aplicação tecnológica, mas exige responsabilidade, governança e preparação das pessoas. A cooperativa pretende desenvolver soluções acessíveis também para organizações com menor capacidade de investimento.
Sobre o reconhecimento atribuído à Sparkoop como pioneira, Robson afirma que a condição “é motivo de orgulho, mas, acima de tudo, de responsabilidade.” Ele explica que a intenção é estimular outras categorias profissionais a considerar o cooperativismo como alternativa de organização do trabalho. “Entretanto, para nós, o mais importante não é sermos reconhecidos como os primeiros. É trabalharmos para que não sejamos os únicos”, enfatiza.


A Barunea e a Sparkoop demonstram a nova frente de pioneirismo do cooperativismo goiano, agora na organização coletiva de profissionais da arquitetura e de inovação, respectivamente. Mas as iniciativas se inserem em uma trajetória que começou muito antes, com a articulação institucional do setor no Estado. Em 1956, no centro de Goiânia, 14 pioneiros contribuíram para a criação da União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG), apontada como embrião da atual estrutura de representação do cooperativismo.
Segundo o presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, o movimento goiano já demonstrava preocupação com a organização institucional desde aquele período. “O cooperativismo goiano tem uma trajetória pioneira e isso não é um fenômeno recente. Desde a fundação da UCEG, em 1956, Goiás esteve entre os primeiros estados a organizar institucionalmente o movimento cooperativista”, afirma. Para Luís Alberto, a posição geográfica do Estado, a força do agronegócio e do setor de serviços, a vocação empreendedora e a atuação de um ecossistema cooperativista integrado ajudam a explicar esse percurso.
O presidente destaca ainda que o pioneirismo não se limita à criação de cooperativas. Segundo ele, o Sistema OCB/GO também desenvolveu iniciativas de apoio à gestão, à inovação e à organização de novos negócios. Ele lista como exemplos o InovaCoop Goiás, inaugurado em setembro de 2020 e apresentado como o primeiro hub de inovação com espaço físico estruturado criado por uma unidade estadual da OCB especificamente para conectar cooperativas e startups; o IncubaCoop, incubadora voltada à criação e ao fortalecimento de novas cooperativas; e a CoopGo, cooperativa de trabalhadores por aplicativo que passou pelo processo de incubação e que, com apoio do Sistema, oferece financiamento de veículos elétricos aos motoristas.

“A atuação do Sistema OCB/GO é intencional e estratégica, atuamos como um verdadeiro hub de inovação e desenvolvimento. Oferecemos suporte jurídico, capacitação executiva por meio do Sescoop/GO, programas de aceleração, consultorias em governança e apoio direto no desenho de novos negócios”, reforça Luís Alberto.
O presidente também aponta a transformação da organização estadual em sindicato patronal, oficializada em 1994, como um episódio de pioneirismo. Segundo o histórico do Sistema OCB/GO, a entidade foi a primeira do sistema cooperativista brasileiro a assumir esse formato.
Seguindo na linha de apresentar ideias inovadoras, em 2023, o Sistema criou o Selo de Conformidade Habitacional, apresentado como uma certificação pioneira no País para empreendimentos de cooperativas habitacionais. Naquele ano, as cooperativas Maison Verte, Haus Mitre e Vigore receberam os primeiros selos divulgados pela entidade. O Sistema OCB/GO também aponta a Central Cooperluxo como a primeira central de cooperativas habitacionais do Brasil.
Dados do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026, referentes ao desempenho de 2025, reforçam a importância de todo o investimento realizado no sistema cooperativista goiano e no lançamento de cooperativas pioneiras para o setor. Hoje, Goiás possui 289 cooperativas, 710.307 cooperados, R$ 36,9 bilhões em ingressos e R$ 78,39 bilhões em ativos. Ingressos são todo o dinheiro que entra nas cooperativas por meio de suas atividades, como a venda de grãos, leite e carnes, ou a prestação de serviços. Não significa que esse dinheiro seja todo lucro, porque as cooperativas também têm custos e despesas. No ano passado, o setor também contabilizou 18.859 empregos diretos.


Outra área que parecia distante do universo cooperativista ganhou espaço nesse segmento, em março deste ano, por meio da criação da Cooperbombeiros, também reconhecido como algo pioneiro pelo Sistema OCB/GO. A iniciativa reúne bombeiros civis, guarda-vidas, brigadistas florestais e socorristas, com o intuito de organizar a prestação de serviços de prevenção, proteção e atendimento a emergências. A proposta nasceu da experiência de Magno Cesar Silva Santos na representação da categoria. Ele foi presidente fundador do Sindicato dos Bombeiros Civis, Socorristas e Guarda-Vidas do Estado de Goiás, criado em 2008, em Valparaíso de Goiás.
Durante a atuação sindical, Magno relata ter identificado problemas como baixa remuneração, informalidade, contratações irregulares, pagamento abaixo do piso da categoria e falta de fiscalização adequada. Segundo ele, o modelo sindical tinha importância para a representação dos profissionais, mas apresentava limitações para aproximá-los diretamente das empresas contratantes. “Foi então que começamos a idealizar a Cooperbombeiros. Vimos no cooperativismo uma oportunidade de unir forças, dar protagonismo aos profissionais e construir um modelo no qual cada cooperado também fosse dono da organização.”
A cooperativa busca atender empresas e instituições que precisam de serviços especializados, incluindo shopping centers, indústrias, hospitais, condomínios, eventos, clubes e parques aquáticos. A atuação também contempla brigadistas florestais.
Magno afirma que a organização pretende estruturar contratos com custos transparentes e remuneração compatível com as responsabilidades de cada atividade, observando a legislação aplicável e os valores de referência da categoria. “O cooperativismo permite que os profissionais participem dos resultados e das decisões da organização, em vez de dependerem exclusivamente de negociações individuais”, diz.

A formação profissional é outro ponto destacado pelo presidente. Segundo ele, a atividade exige atualização técnica porque envolve prevenção de acidentes e resposta a situações de emergência. “Um profissional precisa estar preparado para agir com rapidez, segurança e conhecimento técnico, especialmente diante de incêndios, afogamentos, acidentes e outras ocorrências que exigem decisões imediatas.”
O apoio do Sistema OCB/GO, segundo Magno, contribuiu para que a proposta se transformasse em uma organização formalizada. A cooperativa tem como meta alcançar mil cooperados, com atuação inicial em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis. Magno também informa que pretende ampliar a presença da organização e alcançar mais de 70% do mercado.

A organização coletiva de profissionais de diferentes áreas é um dos capítulos recentes do cooperativismo goiano. A criação de estruturas para integrar cooperativas, porém, aparece na história do Estado desde o fim da década de 1980.
Nos anos de 1988 e 1989, foram constituídas oito cooperativas de crédito em Goiás, incluindo a cooperativa central. A maioria tinha origem entre agricultores e pecuaristas que, embora conhecessem o associativismo, ainda precisavam desenvolver experiência na gestão de instituições financeiras.
Em 27 de julho de 1989, foi criada a Cooperativa Central de Crédito de Goiás (Cocecrer-GO), apresentada pelo Sistema OCB/GO como o primeiro sistema de segundo grau do crédito cooperativo goiano. A central foi organizada para congregar cooperativas singulares, orientar seu funcionamento e promover a integração do segmento. Posteriormente, passou a se chamar Credigoiás Central e, em 2005, Sicoob Goiás Central.
Diretora de Operações do Sicoob Nova Central, Edina Fileti acompanhou a trajetória da instituição desde os primeiros anos. Contratada inicialmente como estagiária, ela passou pelas áreas de secretaria, contabilidade e administração até chegar à diretoria.
Edina afirma que a criação da Cocecrer-GO foi importante para organizar as cooperativas que estavam começando a atuar no Estado. A central passou a oferecer suporte técnico e operacional, padronizar processos, centralizar recursos financeiros e orientar a gestão. “A Cocecrer-GO teve papel decisivo na estruturação e no fortalecimento do cooperativismo de crédito em Goiás”.
De acordo com ela, naquele período, as cooperativas enfrentavam limitações legais e operacionais. Edina lembra que as normas do sistema financeiro restringiam a oferta de produtos e serviços, e determinadas operações dependiam de instituições bancárias, especialmente do Banco do Brasil. Além disso, segundo a diretora, a falta de conhecimento técnico especializado também representava um desafio para dirigentes que, em sua maioria, eram produtores rurais, empresários e lideranças comunitárias.
Edina acrescenta que a Cocecrer-GO buscou experiências de outras centrais, especialmente da Cocecrer-RS, para desenvolver a gestão e a operação das cooperativas goianas. “O intercâmbio de conhecimento foi fundamental para a profissionalização da gestão e o amadurecimento do sistema de crédito em Goiás”, explica.

A central também participou de articulações em defesa do cooperativismo de crédito. Segundo ela, as lideranças goianas atuaram em movimentos relacionados ao fortalecimento da representação nacional, à criação de bancos cooperativos e à ampliação da autonomia operacional das cooperativas.
A estrutura original reunia sete cooperativas singulares de crédito rural: Credi-Rural Comigo, Coopercred, CrediruralAgrovale, Credicomiva, Soccred, Credisul e CopcredCopril. Edina conta que ao longo das décadas, a abertura do quadro social para cooperativas de crédito urbano ampliou a atuação da central.
Ela afirma ainda que a integração entre cooperativas contribuiu para o desenvolvimento de mecanismos de reserva de liquidez, estatutos-padrão, núcleos de educação cooperativista e procedimentos de gestão. Para a diretora, essas experiências serviram de referência para outras cooperativas e centrais.
Presidente do Conselho de Administração do Sicoob Nova Central, Marcelo Baiocchi também destaca a atuação conjunta do cooperativismo goiano nas articulações nacionais. “O espírito de intercooperação foi fundamental para consolidar práticas e modelos que serviram de referência para diversas cooperativas e centrais brasileiras”, afirma.

A estrutura regional atual é resultado de uma nova etapa de integração. O Sicoob Nova Central iniciou suas atividades em 1º de dezembro de 2022, a partir da união do Sicoob Goiás Central com o Sicoob Planalto Central. Segundo dados informados pela instituição, em setembro de 2026 o sistema regional reunia 31 cooperativas filiadas, cerca de 378 mil cooperados, presença em mais de 160 municípios e mais de 270 agências. Os ativos totais alcançavam quase R$ 21 bilhões. A área de atuação abrange Goiás, Tocantins e Distrito Federal.
Marcelo Baiocchi enfatiza que um dos obstáculos atuais do cooperativismo de crédito é ampliar o conhecimento da sociedade sobre o modelo e conciliar as transformações digitais com as características das cooperativas. “O desafio é preservar esses atributos, que constituem a principal força do modelo cooperativo, ao mesmo tempo em que se investe continuamente em tecnologia, inovação e experiência digital, disponibilizando serviços cada vez mais ágeis, seguros e acessíveis na palma da mão dos cooperados.” Para ele, a experiência construída em Goiás reforça a importância da atuação colaborativa, da educação cooperativista e da capacidade de adaptação.

Goiás é hoje referência no agronegócio brasileiro e o sistema cooperativista tem papel importante nessa cadeia. A trajetória da Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo) revela como o cooperativismo foi fundamental para o fortalecimento do agro, especialmente em municípios do interior goiano. A entidade começou com dificuldades enfrentadas por agricultores de Rio Verde na década de 1970. Em 1974, produtores rurais costumavam se reunir no Posto Horizonte, às margens da BR-060, para conversar sobre os problemas da atividade. Entre as dificuldades estavam a aquisição de sacaria e óleo lubrificante, a secagem do arroz e a comercialização dos grãos.
Na época, segundo o histórico institucional da cooperativa, havia poucos secadores de arroz, e o grão chegava a ser seco nas ruas. A comercialização era feita com cerealistas locais e comerciantes de Uberlândia (MG), que frequentemente ditavam os preços.
A proposta de criar uma cooperativa surgiu para buscar insumos de qualidade a preços justos e organizar serviços de comercialização, armazenagem e assistência técnica. O movimento foi liderado por Paulo Roberto Cunha, Antonio Chavaglia (atual presidente do Conselho de Administração da Comigo), John Lee Ferguson e Hadovaldo Vilela Horbilon.
Inicialmente, 67 agropecuaristas se dispuseram a fundar a organização, mas 31 integralizaram o capital social em 1975. Com a entrada de outros 19 produtores, o grupo chegou a 50 sócios fundadores. A Comigo, então, iniciou suas atividades em fevereiro de 1976.

Atualmente, a cooperativa informa que atua diretamente em 20 municípios, com 21 lojas agropecuárias, unidades armazenadoras e produção de suplementos minerais. A sede administrativa e o complexo industrial ficam no município de Rio Verde. A organização também revela manter sete fazendas de reflorestamento, com 12.213 hectares no total, dos quais 6.300 hectares são de eucalipto. Nos resultados referentes a 2025, divulgados em março de 2026, a Comigo registrou faturamento de R$ 14,1 bilhões e R$ 793 milhões em sobras.
Ao apresentar os resultados, o presidente do Conselho de Administração, Antonio Chavaglia, atribuiu o desempenho ao planejamento e ao trabalho conjunto entre gestão, colaboradores e cooperados. “Um dos grandes diferenciais é que toda a equipe conhece os objetivos da cooperativa e trabalha na mesma direção. Somando isso ao apoio do cooperado, que compreende nosso trabalho, conseguimos alcançar um resultado muito importante, mesmo em um ano desafiador”, afirma.

Para o presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, todas essas iniciativas são fundamentais para demonstrar a contemporaneidade e a versatilidade do modelo cooperativo goiano. “É importante reforçar que o cooperativismo não se restringe aos ramos tradicionais, é uma solução viável e altamente competitiva para a economia compartilhada, serviços especializados, tecnologia e economia criativa. Casos como os citados na reportagem, especialmente os mais recentes, oxigenam o movimento, atraem jovens profissionais e mostram que trabalhar de forma colaborativa é o modelo do futuro. Enfim, essas iniciativas ajudam a reposicionar a imagem do cooperativismo, mostrando que o modelo também é moderno, colaborativo e competitivo”, enfatiza.

Para os próximos anos, ele vislumbra o cooperativismo digital e de plataformas, voltado a trabalhadores por aplicativo, e as áreas de ESG (Environmental, Social, and Governance, em português, Ambiental, Social e Governança), governança e inovação como frentes em que podem surgir novas iniciativas.
