Olá, sumidos.
Nada mais adequado para a semana do Dia do Saci do que falar da nova encarnação de Carrie, a Estranha, agora uma série da Prime Video feita por Mike Flanagan, de Missa da Meia-Noite e outros sucessos do terror recente. Já renovada para a segunda temporada, isso, por si só, já deve informar os incautos de que essa não é uma adaptação superfiel ao material original de 1974. E isso é bom.
Flanagan ficou conhecido exatamente por fazer releituras e reimaginações de histórias de terror conhecidas e, desta vez, não foi diferente, trazendo novidades suficientes para refrescar a narrativa, mas sem perder os pontos centrais que mantêm a alma da trama original.
Caso você tenha vivido embaixo de uma pedra pelos últimos 50 anos, Carrie acompanha a titular Carrie, uma adolescente que vive uma vida reclusa debaixo da asa de pais fundamentalistas religiosos e adeptos de teorias da conspiração. De repente, ela precisa ir para o ensino médio, onde sofre níveis enlouquecedores de bullying. Ao mesmo tempo, descobre poderes telecinéticos que acabam culminando em tragédia.
Nesta nova versão, a tragédia ainda acontece, Carrie ainda sofre bullying e sua mãe é terrível, mas a maneira como tudo isso é construído e desenvolvido vai se distanciar bastante da abordagem de 1974, que ganhou vida no cinema pela primeira vez em 1976, pelas mãos do incrível Brian de Palma.
Carrie, desta vez, vivida brilhantemente por Summer H. Howell, é uma ingénue: uma menina legítima e profundamente bondosa e inocente que precisa lidar com as dores e o cinismo do mundo real. A grande vilã, Chris, vivida por Alison Thornton, também ganhou novas camadas para sua crueldade. Notadamente, ao longo da trama, a personagem é confrontada por outras pessoas repetidas vezes, tendo, até o derradeiro fim, diversas chances de não tomar a pior decisão possível, o que torna essa versão mais interessante do que a clássica.
O bullying contra Carrie também se torna mais interessante ao envolver um perfil no Instagram que afeta toda a comunidade escolar, incluindo pais e professores, levando a uma escalada terrível de problemas. É no meio disso que a mãe de Carrie, Margaret, outra personagem que era unidimensional no original, ganha mais espaço e chega a lutar por sua filha, algo que fica convincente pela excelente atuação de Samantha Sloyan.
Nem todas as mudanças se encaixam, porém. Com três temporadas planejadas, Flanagan claramente quer encaixar Carrie com outras narrativas que envolvem o Brilho: as pessoas “iluminadas” por poderes especiais no mundo de Stephen King. Tudo indica que as próximas duas temporadas devem envolver personagens dos romances A Incendiária e O Instituto.
Essa tentativa de preparar mais um universo compartilhado é meio sem graça e bastante forçada, porém: no meio do drama, personagens iluminadas aparecem como se fossem uma versão de baixíssimo orçamento dos X-Men, quebrando a imersão e atrapalhando a trama tensa e dramática central. Teria sido melhor deixar isso ocupar um espaço mínimo, terciário na história, quase um aceno, para melhor desenvolver a ideia depois, fora da trama principal de Carrie.
