São Paulo – Tom Skerritt, o ator vencedor do Emmy, afável, de voz mansa, simultaneamente simples e imponente, cujos papéis mais conhecidos foram em filmes tão distintos quanto MAS*H, Alien e Flores de Aço, morreu nesta quarta-feira, 21, aos 93 anos. A família anunciou a morte em um comunicado, mas não forneceu mais detalhes.
Skerritt foi uma presença familiar e complexa nas telas por quase seis décadas. Em MAS*H (1970), de Robert Altman, ele interpretou Duke Forrest, um cirurgião do Exército com jeito juvenil e apreciador de martinis — um cara tranquilo, talvez não tão extravagantemente iconoclasta quanto alguns de seus colegas.
Ele compartilhava, no entanto, da mesma visão de mundo deles. Ao ver outro personagem, o Major Frank Burns, ser levado em uma camisa de força, ele ofereceu um pensamento ao seu oficial superior: “Se eu pegar a Hot Lips e der um soco no Hawkeye, posso ir para casa?”
Depois disso, ele se voltou a interpretar figuras de autoridade marcantes — homens da lei, militares, pais confiantes — que pareciam inata e incansavelmente americanos. Em Alien (1979), foi o sensato capitão da nave espacial, um herói relutante que fez a coisa certa quando um monstro estava à solta.
Em Top Gun (1986), viveu Viper, o durão instrutor de voo que disse ao personagem de Tom Cruise: “Isso é bastante arrogante”, para logo completar: “Gosto disso num piloto”. Mas Viper também conversou com compaixão com o jovem sobre seu falecido pai.
Em Momento de Decisão (1977), interpretou o marido firme e compreensivo de Shirley MacLaine — um bailarino de Nova York que se tornou marido, pai e professor de balé em Oklahoma City. Ele venceu o prêmio de melhor ator coadjuvante do National Board of Review pelo papel. E em Nada É Para Sempre (1992), foi um severo pastor presbiteriano, pai do personagem de Brad Pitt, que adorava pescar com mosca na zona rural de Montana no início do século 20.
Interpretar um xerife de uma pequena cidade do Wisconsin na série de horário nobre da CBS Picket Fences (1992–1996) tornou Skerritt amplamente conhecido pelo público americano e lhe rendeu um Emmy de melhor ator principal em série dramática. Alguns se perguntavam, contudo, se drama era a categoria certa. Em um episódio improvável da série criada por David E. Kelley, o papa visitou a cidade e presenciou um assassinato. Em outros, uma mulher obesa matou o marido sentando-se sobre ele, o prefeito atirou em um assaltante de carros, e uma vaca de alguma forma deu à luz um bebê humano.
“Era uma sátira maravilhosa, embora eu não saiba se sempre foi vista dessa forma”, disse Skerritt à revista Film Comment em 2016.
Trajetória de Tom Skerritt
Thomas Roy Skerritt nasceu em 25 de agosto de 1933, em Detroit, o caçula dos três filhos de Roy Skerritt, descrito como vendedor no censo de 1940, e Helen (Maybee) Skerritt.
Logo após o ensino médio, Tom Skerritt alistou-se na Força Aérea, onde serviu por quatro anos. De volta a Detroit, com a ajuda do GI Bill (programa de incentivo a veteranos), ingressou na Wayne State University para cursar Letras – Inglês e fez aulas de arte à noite.
Ao se interessar por cinema e direção, transferiu-se para a Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde atuou no teatro dentro e fora do campus. Em seu último semestre, foi escalado para o filme Obsessão de Matar (1962), sobre a Guerra da Coreia. O elenco também incluía Robert Redford e Sydney Pollack, na época desconhecidos que viriam a se tornar estrelas, amigos próximos e mentores.
Durante os anos 1960, Skerritt apareceu principalmente em séries de televisão — entre elas Combate! (Robert Altman dirigiu 10 episódios do programa), Death Valley Days, 12 O’Clock High e O Homem de Virgínia.
A televisão também continuou sendo uma parte importante de sua carreira nos anos posteriores. Interpretando cerca de 40 papéis em séries, minisséries e filmes para TV nos anos 2000, ele teve papéis recorrentes em Cheers (como o chefe rico, charmoso e cobiçado de Kirstie Alley) e em Brothers & Sisters (como o marido falecido que reaparecia em flashbacks).
“Por muito tempo, resisti à ideia de seguir a carreira de ator”, disse Skerritt à Film Comment. “Havia algo na totalidade da narrativa visual que me atraía”, por isso ele continuou mais interessado em dirigir e escrever.
Ele acabou desenvolvendo uma segunda intenção. Na mesma entrevista, lembrou de ter decidido que os trabalhos de atuação seriam “uma ótima maneira de aprender a ser diretor”. Por fim, ele chegou a dirigir alguns episódios de séries de televisão, principalmente nos anos 1990.
Além de suas interpretações mais famosas, ele apareceu em cerca de três dúzias de outros filmes, incluindo Flores de Aço (1989), como o pai irreverente de Julia Roberts na Louisiana; Renegados até a Última Rajada (1974), de Robert Altman, como o pai de Shelley Duvall e dono de um posto de gasolina; Na Hora da Zona Morta (1983), como o xerife de uma pequena cidade da Nova Inglaterra; e o drama de ficção científica Contato (1997), como um maquiavélico conselheiro presidencial.
Skerritt casou-se com Charlotte Shanks em 1957. Eles tiveram três filhos e se divorciaram em 1972. Ele e sua segunda mulher, Susan Ellen Aran, tiveram um filho e um casamento de 14 anos (1976–1990). Em 1998, casou-se com Julie Tokashiki, com quem teve um filho.
Informações sobre os familiares sobreviventes não estavam imediatamente disponíveis.
Suas décadas de trabalho na TV e no cinema o deixaram com uma visão lúcida sobre a indústria e o efeito que a aparência pode ter na carreira de alguém.
“Anos atrás, alguém disse que eu era um ator de caráter preso no corpo de um galã”, disse ele à revista People em 1993. “Achei um elogio maravilhoso.”
