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(Arte: Matheus Vieira/A Redação)

Goiânia 93 anos: conheça as histórias curiosas por trás dos nomes de ruas e praças da Capital

Apelidos revelam homenagens, personagens históricos e memórias que atravessam gerações

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24.10.2026 - 07:59:33

Samuel Straioto

Goiânia – Quem nunca marcou um encontro na Praça do Cruzeiro, passou pela Praça do Avião ou combinou de encontrar alguém perto da Praça do Ratinho? Em Goiânia, alguns lugares ficaram tão conhecidos pelos apelidos populares que seus nomes oficiais acabaram em segundo plano. Por trás das placas, porém, há histórias de personagens, acontecimentos e até de lugares que já não existem como antes. A capital completa 93 anos neste sábado (24).

Uma cidade também se conta pelos nomes que escolhe e pelos apelidos que inventa. Em Goiânia, nem sempre é preciso saber o que está escrito na placa para chegar ao lugar certo. Às vezes, basta dizer “Praça do Cruzeiro” e pronto: todo mundo sabe de onde você está falando. O curioso é que, por trás desse nome tão familiar, existe outro, oficial, que muita gente talvez nem reconheça.

Dar nome a um lugar é uma forma de guardar a memória de quem ajudou a construir a cidade. Mas quem foram essas pessoas, e por que seus nomes foram parar ali?

​Praças: o nome na placa, o apelido na boca

A Praça Cívica, por exemplo, se chama oficialmente Praça Doutor Pedro Ludovico Teixeira, médico fundador da capital. E cívica porque o espaço foi pensado para abrigar o centro cívico da capital. Até as placas de trânsito que indicam o caminho costumam deixar o nome completo de lado. No dia a dia, a cidade encurta o nome e deixa o fundador na burocracia.

Praça Cívica em Goiânia. Foto: Alego

Palácio das Esmeraldas. Foto: Prefeitura de Goiânia.

Em Campinas, milhares de pessoas passam todos os dias pela Praça Desembargador Perillo, onde fica o Terminal da Praça A. Mas, para muita gente, o endereço atende por outro nome: Praça OK. Pertinho dali está a Praça do Racha, que, nos registros oficiais, é a Praça Godofredo Leopoldino Azevedo. Dois exemplos de como o nome que pega nem sempre é aquele que aparece no papel.

Ainda em Campinas está situada a conhecida Praça Joaquim Lúcio, o nome tem história de sobra. Segundo a arquiteta Rosângela Deolinda Ribas Lopes, em sua dissertação de mestrado da defendida na PUC Goiás, a praça homenageia o coronel Joaquim Lúcio Tavares, fazendeiro natural de Silvânia que chegou a Campinas em 1890 e era sogro de Licardino Ney, intendente, como eram chamados os prefeitos da época.

A partir dos anos 1920, a praça virou ponto de encontro: tinha banda aos domingos, comícios, cinema e até futebol. O nome pode parecer estranho hoje, mas a prática era simples: rapazes e moças passeavam pelas calçadas, de olho uns nos outros. Era uma forma de ver e ser visto — e, quem sabe, começar um namoro. O coreto, construído em 1931, foi substituído em 1947 por outro, de linhas art déco, e depois demolido para dar lugar a fontes. Hoje, uma réplica do original, com o busto do coronel, ajuda a manter essa memória de pé.

No Setor Aeroporto, a Praça Santos Dumont é mais conhecida como Praça do Avião. E, nesse caso, o apelido faz todo o sentido. Ali ficava o primeiro aeroporto da cidade, planejado em 1937, com duas pistas que se cruzavam. Uma delas corresponde hoje à Avenida República do Líbano. A praça foi aberta em 1969, e o avião que restou no local é uma réplica do 14 Bis, obra do artista Fernando Nolêtho. A homenagem é a Santos Dumont, o aviador que criou a aeronave.

“Se você falar Praça Santos Dumont, tem gente que nem vai saber onde é. Agora, Praça do Avião, todo mundo conhece. O avião chama a atenção, faz parte da paisagem e acabou virando a principal referência daqui. É o nome que pegou mesmo”, conta Roberto Alves, de 54 anos, comerciante da região há 18 anos.

Ali perto, a Praça Genaro Maltes, ao lado do Cepal, é atravessada diariamente por motoristas e passageiros que talvez nem saibam como ela se chama. Já a Praça Gibran Khalil Gibran, no cruzamento das ruas 90 e 136, homenageia um poeta libanês.

Do outro lado da cidade, no Setor Leste Universitário, perto do campo do Vila Nova, a Praça Tenente Veríssimo de Souza e Silva fica ao lado da Saneago. No Setor Leste Vila Nova, por exemplo, a homenagem foi para Boaventura Moreira de Andrade, migrante baiano, pedreiro e vereador por cinco mandatos. Conhecido pela simplicidade e pela popularidade, ele morreu em 1965, pouco antes da inauguração da praça que passou a levar seu nome. Uma história que merece uma parada mais adiante. Foi assim também com o fundador Pedro Ludovico Teixeira, que empresta seu nome a uma das praças mais importantes da capital

No Setor Pedro Ludovico, a Praça Izidória homenageia Izidória de Almeida Barbosa, esposa do político João Barbosa, adversário do vereador Manoel de Oliveira, liderança da região sul da capital. É uma praça com nome de mulher e uma história que também passa pelas disputas políticas dos bairros.

Há casos em que o apelido praticamente aposentou o nome oficial. A Praça Simão Carneiro, na T-63 com a Avenida 85, era a Praça do Chafariz e hoje o cenário ao redor mudou com o elevado e a trincheira. No Setor Marista, a Praça Latiff Sebba virou Praça do Ratinho. Já no Setor Oeste, a Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, cercada de bares e sombreada por gameleiras de cerca de 68 anos, é conhecida como Praça da Cirrose. Três nomes oficiais, três apelidos que contam outra história — embora a origem de alguns deles ainda precise ser esclarecida.

“Eu mesma conheço muitos lugares de Goiânia só pelo apelido. Às vezes, nem sei qual é o nome oficial, porque a gente se acostuma a ouvir as pessoas chamando daquele jeito e acaba chamando também. É tão comum que nem passa pela cabeça procurar saber se o lugar tem outro nome”, conta Maria de Fátima Oliveira, de 58 anos, moradora da capital há 32 anos.

Nem toda praça, porém, perdeu a disputa para o apelido. A Praça Tamandaré mantém o nome que homenageia o almirante Joaquim Marques Lisboa, o Marquês de Tamandaré, que dedicou a vida à Marinha. Já a Praça Honestino Guimarães é mais conhecida como Praça Universitária, ponto de encontro de estudantes, cercado por esculturas, grafites e edifícios que ajudam a compor a paisagem da região.

“Dedos de Deus”, uma das esculturas situadas na Praça Universitária. Foto: Samuel Straioto – Jornal A Redação

“Quando o apelido é mais fácil de lembrar ou está ligado a alguma característica marcante do lugar, ele acaba se incorporando à rotina das pessoas. O nome oficial pode até continuar nas placas, mas é a forma como a população se refere àquele espaço no dia a dia que determina como ele fica conhecido”, explica Carlos Eduardo Martins, historiador e pesquisador da história urbana.

Só que Goiânia tem uma espécie de cartório paralelo: o da boca do povo. Nele, não é preciso decreto, placa ou cerimônia. Se o apelido pega, pode acabar sendo mais conhecido que o nome oficial.

A Praça das Mães, no Setor Oeste, ajuda a contar essa história. Segundo a Comurg, não há registro histórico da origem do nome. Foi apenas na reforma de 2019 que o espaço ganhou o complemento “São Nicolau”, em referência à igreja ortodoxa em frente.

E você, saberia chegar à Praça Comendador Germano Roriz? Talvez fique mais fácil com outro nome: Praça do Cruzeiro. A denominação popular vem do Monumento do Cruzeiro do Sul, uma cruz que marca a identidade do espaço e está ligada à história religiosa da capital. O local recebeu a primeira missa campal de Goiânia, em 1948, e chegou a ser pensado como referência para a construção da Catedral da cidade. Planejada na década de 1940, a praça se tornou um dos marcos históricos da região e teve seu valor patrimonial reconhecido.

O espaço foi pensado para ser o epicentro do setor, mas o apelido acabou assumindo o protagonismo. Germano Roriz nasceu em Luziânia, foi ativista social cristão e recebeu do Vaticano a comenda de Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno. A biografia é extensa; o nome pelo qual a praça ficou conhecida é bem mais curto.

Praça do Cruzeiro. Foto: Samuel Straioto/ Jornal A Redação

​Avenidas: rios, estados e um bandeirante

Se as praças são o território dos apelidos, as avenidas contam como Goiânia foi pensada  e como a cidade mudou desde então. O urbanista Attilio Corrêa Lima, contratado em 1933, desenhou o centro como quem aponta um dedo para o alto. As avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins convergem para a Praça Cívica e formam um triângulo, atravessado pela Paranaíba. O traçado, inspirado no urbanismo francês, cria perspectivas que conduzem o olhar até o centro administrativo.

Os nomes também ajudam a entender o desenho. Goiás é o estado; Araguaia, Tocantins e Paranaíba são rios que pertenciam ao território goiano antes da criação do Tocantins. Das vias previstas no plano original, cinco receberam nomes próprios. As demais foram identificadas por números, uma característica que ajudou a consolidar a fama das ruas numeradas da capital. E, se você já ouviu dizer que o traçado esconde símbolos maçônicos ou a imagem de Nossa Senhora, saiba que essa interpretação é contestada pelo filho do urbanista, que nega que houvesse essa intenção no projeto.

A Avenida Anhanguera conta outra parte dessa história. Segundo a pesquisa de Rosângela Deolinda Ribas Lopes, Campinas — arraial fundado em 1810, elevado à categoria de cidade em 1907 e incorporado a Goiânia em 1935 seguia uma lógica própria para batizar suas vias: avenidas recebiam nomes de estados, enquanto ruas homenageavam cidades goianas. Foi assim que a atual Anhanguera já se chamou Avenida Amazonas, e a Castelo Branco, Avenida Maranhão.

Em 1938, a antiga Amazonas passou por obras de terraplenagem para conectar rodovias. Nas décadas seguintes, a via se tornou uma das principais ligações entre Campinas e a nova capital. O nome atual homenageia o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como Anhanguera.

Avenida Anhanguera – Centro de Goiânia. Foto: Câmara Municipal de Goiânia

Mas é a Avenida 24 de Outubro que guarda uma das descobertas mais curiosas dessa história. Em 1926, o proprietário de uma farmácia em Campinas pediu autorização para reformar o prédio. A planta da obra, preservada na Biblioteca Estadual Pio Vargas, registra o endereço: “Avenida Goiás esquina com Rua Jaraguá”.

O documento ganhou importância quase um século depois. O escritor Horiestes Gomes contou à pesquisadora Rosângela Deolinda Ribas Lopes que conheceu o prédio e a farmácia, ajudando a contextualizar o registro. A partir dessa pista, surgiu a hipótese de que a principal via de Campinas se chamava Avenida Goiás na década de 1920 e só passou a ser Avenida 24 de Outubro em 1930, em referência à data da Revolução de 1930. Assim, a data que entraria para a história de Goiânia já aparecia na história de Campinas antes mesmo da fundação oficial da capital.

Antes de ganhar esse nome, porém, a avenida era conhecida como estrada do Crimeia, caminho que levava à fazenda onde Goiânia seria construída. Segundo o relato de uma antiga moradora reunido na pesquisa, a via era estreita, sem árvores, com postes de energia de apenas um lado e fios de telégrafo no meio. Foi ali que se instalou a primeira bomba de gasolina do bairro, diante da loja do intendente Licardino Ney.

De acordo com o estudo, Licardino defendeu que a avenida fosse aberta mais larga do que o previsto inicialmente. A falta de recursos para desapropriações, porém, impediu um alargamento ainda maior. Em 1944, a prefeitura abriu concorrência para pavimentar a via.

Quem viveu naquele endereço guarda outra imagem. Maria Benedita Chagas, moradora de Campinas há mais de seis décadas, lembra de uma avenida tranquila, com casas, pequenas lojas, o campo do Atlético Goianiense e a praça. Depois vieram os cinemas e as sorveterias. Hoje, farmácias e lojas de eletrodomésticos se multiplicam ao longo da via, quase uma a cada esquina.

“Naquele tempo, era tudo muito diferente. A avenida era mais tranquila, tinha as casas, as lojinhas e a gente conhecia melhor o lugar. Depois começaram a chegar os cinemas, as sorveterias, e o movimento foi aumentando. Hoje, quando passo por ali, vejo como mudou. Tem hora que a gente olha e quase não reconhece alguns trechos”, lembra Maria Benedita.

Para quem acompanha de perto as mudanças no comércio, a transformação também é visível. “Estou aqui há muitos anos e vi a avenida mudar bastante. Antes, o comércio era outro, as pessoas tinham mais o costume de andar por aqui e conversar com os comerciantes. Muita coisa mudou, mas alguns nomes antigos continuam na memória de quem conhece Campinas há bastante tempo”, conta Antônio Carlos de Souza, de 67 anos, comerciante na Avenida 24 de Outubro há 35 anos.

​Ruas: números, cidades goianas e o que o tempo trocou

Em Goiânia, os números ajudam a encontrar o caminho. Em Campinas, durante muito tempo, eram os nomes de cidades goianas que orientavam quem circulava pelo bairro. Jaraguá, Catalão, Ipameri, Rio Verde e Anápolis estavam nas placas — uma lógica diferente daquela adotada no traçado da nova capital, em que predominam as ruas numeradas. A Rua Jaraguá, aliás, é justamente a que aparece na planta de 1926 que ajuda a reconstruir a história da Avenida 24 de Outubro.

Mas as placas mudaram, e nem todo mundo acompanhou a troca. O escritor José Mendonça Teles, cronista da vida cotidiana de Campinas, registrou o espanto em forma de pergunta: “Uai, cadê a Avenida Bahia que estava aqui?”. Em outro trecho, deixou claro que não havia perdido as lembranças: “As ruas da minha Campininha eu as carrego na memória.”

A Avenida Bahia que Teles recordava hoje se chama Alberto Miguel. A Pernambuco virou Honestino Guimarães, em homenagem a um farmacêutico do bairro, enquanto a Sergipe passou a ser Ademar Ferrugem, nome de um pracinha da Segunda Guerra Mundial. Nas ruas, a mudança também chegou: a Bonfim virou José Hermano; a Anápolis, Senador Morais Filho; e a Pires do Rio, Geraldo Ney.

Os nomes mudaram nas placas, mas a Campininha de Mendonça Teles continua viva na memória de quem conheceu suas antigas ruas.

​Outros nomes: os que já não combinam com o lugar

Há ainda os nomes que contam uma história que o lugar já não tem. O Setor Aeroporto não tem aeroporto, que fica no Setor Santa Genoveva, aberto em 1955. O Setor Norte Ferroviário não tem ferrovia, só uma estação isolada, que o tempo ainda não apagou.

Também há os que importam o nome de longe. O Jardim Europa tem a Rua Bélgica, a Praça Alemanha e a Avenida Itália. O Jardim Novo Mundo tem avenidas e ruas como New York, Lincoln, George Washington, Nova Orleans e Novo México, o que alimenta a ideia de que o bairro foi construído por norte-americanos. Não há comprovação disso. O bairro nasceu nos anos 1950, em terras da família Morais, que já estava em Campinas antes de Goiânia, e o nome Novo Mundo é o que se usa desde o século XV para as Américas.

Para fechar o círculo, o 24 de outubro também tem sua história. A inauguração oficial só aconteceu em 5 de julho de 1942, com o Batismo Cultural, no Teatro Goiânia. A data de outubro fica a um dia do aniversário de Pedro Ludovico, nascido em 23 de outubro de 1891, e o intervalo de quase nove anos até a inauguração ajuda a explicar por que o 24 se firmou na memória. A cidade, aliás, teve o próprio nome escolhido em concurso, em 1933, e Campinas, que virou bairro e seguiu se achando cidade, ainda é chamada de “Campininha” pelos mais antigos.

Em 2024, uma portaria do Iphan incluiu a estrutura viária do plano de Attilio Corrêa Lima no acervo arquitetônico e urbanístico Art Déco de Goiânia, o que dá ao traçado original proteção federal. Os nomes, no entanto, seguem em uso, e a origem de muitos ainda depende de pesquisa e da memória de quem viveu a cidade.

“Os nomes oficiais ajudam a preservar a memória de pessoas e acontecimentos, mas os apelidos revelam a relação cotidiana dos moradores com a cidade. Em muitos casos, eles surgem de uma característica marcante do lugar ou de uma lembrança compartilhada pela população. Quando passam de uma geração para outra, esses apelidos também se tornam parte da história urbana”, explica Carlos Eduardo Martins, historiador e pesquisador da história urbana.

No fim, Goiânia também se conta assim: nos nomes escritos nas placas, nas histórias guardadas pelos moradores e nos apelidos que atravessam gerações. Há praças que permanecem conhecidas pelo nome oficial, enquanto outras ganham uma identidade própria na conversa de quem vive a cidade. São pequenas marcas do cotidiano que ajudam a preservar a memória dos bairros e mostram que, para além dos mapas e dos registros históricos, uma cidade também é feita das lembranças e dos afetos de quem a chama de casa.

Praça do Chafariz antes da construção do viaduto da T-63. Foto: Reprodução: Prefeitura de Goiânia.

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por Samuel Straioto

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