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Quem diz que gosta de trabalhar mente

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02.10.2013 - 22:07:39

Deixemos de lado nosso espírito protestante de linha tradicional, que historicamente construiu a noção edificante do trabalho, e vamos assumir sem vergonha a verdade: nós odiamos trabalhar. Que nossos chefes não nos ouçam, mas só trabalhamos pelo simples motivo de não termos outra maneira de pagar as contas que nos atordoam ao longo do mês.

Relacionamos tudo que é difícil e chato ao trabalho. Veja só você o quanto a palavra trabalho tem percepção negativa em nosso linguajar diário: “Essa criança dá trabalho demais”; “Não faça assim, desse jeito dá menos trabalho”; “Ô cara que gosta de dar trabalho”…

Trabalho não é prazeroso, não é edificante, não nos satisfaz. O que é prazeroso se chama sexo. O que é edificante se chama hobby de cunho humanístico. O que satisfaz se chama almoço farto acompanhado de uma bela garrafa de vinho. O resto, na boa, é a mais pura groselha.

Dizem que se trabalho fosse bom, ninguém lhe pagaria por isso. Impossível não assinar embaixo. O que é bom de verdade é aquilo que gastamos nosso dinheiro para fazer, sacrificamos nosso tempo livre para estar lá. O que, cá entre nós, não é o caso de nossas atividades remuneradas.

Quando estou sonhando com o que faria se ganhasse na Mega Sena em um grupo, alguém sempre fala que não gostaria de parar de trabalhar. Mentira. O que ele queria era fazer aquilo que até pode exercer profissionalmente, mas sem a pressão de prazos, clientes, chefes, horários ou qualquer outra chatice. Sem isso, meu amigo, aquilo que você ama fazer não é trabalho, é hobby. Aí a coisa muda de figura.

Caso eu fosse milionário, até acho que continuaria escrevendo. Mas sem a pressão dos formatos, tamanhos, prazos e demais rotinas que burocratizam aquilo que gosto de fazer por prazer. Mesma coisa com meu trabalho na rádio, idem com minhas pesquisas musicais.

Se ganhar o cobiçado prêmio já é difícil para quem habitualmente faz sua fezinha, no meu caso é mais fácil o Super-Homem virar bolchevique, tendo em vista que há séculos não aposto meus suados reais em alguma Lotérica. Um amigo joga todo concurso. Ele diz que não paga para ganhar, compra seu direito de sonhar. Eu abdiquei desse direito. Meu sonho é chegar aos 65 anos e me aposentar com saúde para viver mais uns 25 anos, sem precisar da ajuda de ninguém para me limpar após as necessidades mais elementares.

Voltando ao lance do trabalho, precisamos revalorar Paul Lafargue, genro de Karl Marx, e seu clássico O Direito à Preguiça. Não ficarmos orgulhosos quando levamos trabalho para a casa ou passamos mais de 12 horas na firma. Isso deveria ser constrangedor e não algo que nos encha de honra. E não ficarmos envergonhados de assumirmos que detestamos trabalhar, que só fazemos isso pelo infortúnio de não termos nascido herdeiros de fortunas incalculáveis.

Todo mundo que joga limpo consigo mesmo é mais feliz. Não dizia aquele barbudo que mentir para si mesmo é sempre a pior mentira? Além disso, quem é honesto com suas vontades tende a atingir seus objetivos mais rapidamente. O meu é a aposentadoria tranquila na beira do mar. E sem remorso algum proclamar aos quatro cantos do mundo: eu odeio trabalhar!

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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