Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização.
Quem faz o quê, em quanto tempo, a que custo e com qual resultado para o cliente: são essas as questões que antecedem a escolha da ferramenta. É certo que a tecnologia amplia significativamente a produção, mas amplia aquilo que encontra.
É para tratar dessas questões que a OAB-GO realiza, no dia 14 de outubro, a 2ª edição do Meeting de Gestão de Escritórios de Advocacia, em parceria com a Casag, a ESA-GO e o Sebrae Goiás. Será um dia inteiro, na sede da Seccional, dedicado a debates práticos sobre gestão, planejamento e desenvolvimento dos negócios jurídicos, pensado para escritórios de todos os portes.
O ponto de partida do encontro é simples. Em um escritório com fluxos definidos, prazos controlados e informações organizadas, a IA devolve horas à equipe, reduz o retrabalho e libera o advogado para aquilo que só ele pode fazer: a estratégia, o juízo técnico, a conversa difícil com o cliente. Em um escritório sem processos, ela apenas acelera a desordem.
Daí a necessidade de tratar a gestão como competência profissional, e não como assunto acessório. A formação jurídica nos prepara para a tese, a peça e a audiência. Raramente nos prepara para precificar honorários, ler um fluxo de caixa, desenvolver pessoas ou medir a produtividade de uma equipe. Essa lacuna sempre existiu.
A diferença é que, agora, ela custa mais caro, porque o cliente compara, o mercado se move depressa e a tecnologia tornou visível quem está organizado e quem não está. O Meeting nasce justamente dessas transformações e da convicção de que a Ordem deve oferecer à advocacia goiana as condições para enfrentá-las.
Há também uma dimensão que nenhum ganho de eficiência autoriza ignorar. O uso de IA na advocacia envolve sigilo profissional, proteção de dados e responsabilidade técnica. Inserir informações de um cliente em uma plataforma sem conhecer seus termos de uso é uma decisão de risco, não uma decisão operacional.
Assinar uma peça sem conferir cada citação e cada precedente indicado pela máquina é transferir a um sistema uma responsabilidade que a lei atribui, de forma indelegável, a quem advoga. A ferramenta auxilia. Quem responde é o advogado.
Por isso, a adoção responsável começa com regras internas: quais ferramentas a equipe pode usar, que tipo de informação pode ser inserida, quem revisa o que foi produzido e como o cliente é informado. Isso é governança, e governança é gestão.
Outro equívoco recorrente é supor que esse debate interessa apenas às grandes bancas. É o contrário, e por isso o Meeting foi pensado para todos os portes.
O advogado autônomo e o pequeno escritório, que acumulam a atividade-fim e a administração do negócio, são os que mais têm a ganhar com rotinas automatizadas de atendimento, agendamento, controle de prazos e organização de documentos. A tecnologia, bem empregada, reduz a distância entre estruturas de portes diferentes. Mal empregada, cria uma dependência que o profissional não domina.
Mais do que apresentar novidades, o encontro do dia 14 propõe uma mudança de mentalidade: a de que empreender na advocacia não diminui a profissão, e sim lhe dá sustentação.
A inteligência artificial não substituirá o advogado. Mas o advogado que compreende o próprio escritório, conhece seus números e usa a tecnologia com critério estará em posição muito distinta daquele que apenas reage às mudanças.
A ferramenta está disponível para todos. O que diferencia é a gestão.
Chrissia Bandim é advogada, secretaria-geral da Casag e diretora de comunicação da OAB-GO
