Samuel Straioto
Goiânia – No próximo dia 25 será o segundo turno das eleições presidenciais. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) são os dois nomes na disputa. Em Goiás, a disputa pelo governo do Estado já foi finalizado no primeiro turno, com a vitória de Daniel Vilela (MDB), que somou 59,17% dos votos (2.148.218). Diante disso, como ficará o interesse do eleitor goiano na fase final das eleições presidenciais?
O ponto de partida é a maior abstenção da série iniciada em 2014: segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 21,84% dos eleitores do estado, ou 1.109.003 pessoas, deixaram de votar no primeiro turno, enquanto 3.971.587 compareceram às urnas.
O índice ficou 0,76 ponto percentual acima da média nacional, de 21,08%, e representa 51.308 ausentes a mais do que em 2022. No primeiro turno, a abstenção em Goiás subiu a cada eleição geral: 18,83% em 2014, 20,19% em 2018, 21,72% em 2022 e 21,84% em 2026.
No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro teve 53,60% dos votos no estado (2.051.888), Lula somou 31,06% (1.188.880) e Ronaldo Caiado (PSD), 12,33% (472.041). Os votos em branco foram 1,15% e os nulos, 2,47%.
2014: com disputa estadual, menos comparecimento
A última vez que Goiás teve governador definido em segundo turno foi em 2014, quando Marconi Perillo (PSDB) venceu Iris Rezende (PMDB) por 57,44% a 42,56%. Mesmo com o governo em jogo, a abstenção subiu de 18,83% (815.396 eleitores) para 21,53% (932.427), alta de 2,70 pontos percentuais. Para presidente, Aécio Neves (PSDB) teve 57,11% no estado, contra 42,89% de Dilma Rousseff (PT).
O dado de 2014 afasta a ideia de que uma disputa estadual em aberto, por si só, leva mais gente às urnas no segundo turno. Para o cientista político Rodrigo Andrade, o resultado ajuda a entender o peso real da eleição local sobre o comportamento do eleitor.
“Em 2014 o eleitor goiano tinha governador em disputa e, mesmo assim, foi menos às urnas no segundo turno. Isso mostra que a eleição local, sozinha, não garante comparecimento”, afirma Rodrigo Andrade.
2018: governo decidido, engajamento baixo
Em 2018, com Ronaldo Caiado eleito governador no primeiro turno, o eleitor se mobilizou pouco: a abstenção passou de 20,19% para 21,61% (962.605 eleitores), alta de 1,42 ponto. Os votos em branco caíram de 2,29% para 1,71%, e os nulos, de 5,88% para 5,43%, mas a queda não compensou as ausências. Jair Bolsonaro (PSL) foi de 57,24% para 65,52% (2.124.739 votos) no estado, e Fernando Haddad (PT) ficou com 34,48%.
Os números de 2018 mostram que, com ou sem governador em disputa, o eleitor goiano chegou ao fim do segundo turno com um nível de ausência semelhante. Na avaliação do cientista político Rodrigo Andrade, isso indica que o comportamento daquele período não dependia da eleição estadual.
“Em 2018 o governo já estava definido e a abstenção no segundo turno ficou praticamente no mesmo nível de 2014. Ou seja, ter ou não disputa estadual não mudou o comportamento do eleitor naquele período”, analisa o cientista político.

2022: o eleitor se engajou
Em 2022, com Caiado novamente vitorioso no primeiro turno, o eleitor goiano reagiu de forma oposta. A abstenção caiu de 21,72% para 20,74%, queda de 0,98 ponto e a primeira vez na história do estado em que o índice do segundo turno ficou abaixo do primeiro. Brancos e nulos somaram 1,13% para presidente, o menor percentual já registrado em eleições presidenciais em Goiás. Bolsonaro (PL) foi de 52,16% para 58,71% (2.193.041 votos), e Lula (PT), de 39,51% para 41,29% (1.542.115).
Comparando apenas os segundos turnos, a abstenção foi de 21,53% em 2014, 21,61% em 2018 e 20,74% em 2022, o menor índice da série. A situação estadual era a mesma de 2018, com governo definido no primeiro turno, mas o resultado foi o inverso. Na leitura de Rodrigo Andrade, o que mudou foi o ambiente nacional daquela eleição.
“Em 2022 a situação no estado era a mesma de 2018, mas a polarização nacional foi tão intensa que o eleitor foi votar mesmo sem nada em jogo localmente. Esse é o comportamento que pode se repetir agora”, diz o cientista político.
O que esperar em 2026?
A abstenção do primeiro turno de 2026 é a mais alta da série e supera a de 2022. Ainda assim, em 2022 o eleitor goiano reduziu as ausências no segundo turno mesmo partindo de um patamar elevado, o que mantém a questão em aberto. Com a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, Rodrigo Andrade avalia as duas trajetórias possíveis: seguir o caminho de 2022 ou voltar ao padrão de 2014 e 2018.
“O eleitor chega ao segundo turno com a abstenção no nível mais alto da série, mas em 2022 ele reagiu mesmo partindo de um patamar alto. Se a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro mobilizar como mobilizou naquele ano, o goiano tende a se engajar mais. Se não, o cenário se aproxima de 2014 e 2018”, projeta o cientista político.
Rodrigo Andrade finaliza destacando que o cenário é incerto e que o índice de abstenção do segundo turno, divulgado pela Justiça Eleitoral, mostrará qual dos comportamentos o eleitor goiano vai repetir.
Brancos e nulos: queda entre os turnos em 2018 e 2022
Os votos brancos e nulos ajudam a medir o interesse de quem comparece às urnas. Em 2018, os brancos caíram de 81.276 (2,29%) no primeiro turno para 59.568 (1,71%) no segundo, e os nulos, de 208.869 (5,88%) para 189.457 (5,43%). Os votos válidos subiram de 91,84% para 92,87%, mas o voto nulo seguiu acima de 5% e a abstenção do segundo turno foi a mais alta entre as três eleições comparadas.
Em 2022, o movimento foi mais forte. No primeiro turno, Goiás registrou 48.539 votos brancos (1,27%) e 82.589 nulos (2,17%), com 96,56% de votos válidos (3.681.469). No segundo, brancos e nulos somaram 1,13% para presidente, o menor percentual já registrado em eleições presidenciais no estado. O conjunto caiu de 3,44% para 1,13%, no mesmo ano em que a abstenção também recuou.
Em 2026, o primeiro turno teve 45.643 votos brancos (1,15%) e 98.121 nulos (2,47%), com 3.827.823 votos válidos (96,38%), patamar próximo ao do primeiro turno de 2022.
Entre dois candidatos, o eleitor que vai ao segundo turno costuma chegar com a escolha mais definida, e a queda dos votos brancos e nulos entre os turnos mostra isso em números. Para o cientista político Rodrigo Andrade, o dado complementa a leitura da abstenção e ajuda a medir o grau de engajamento de quem compareceu.
“Em 2018 o eleitor que foi ao segundo turno ainda anulou o voto em proporção alta, acima de 5%. Em 2022 isso praticamente desapareceu, e quem compareceu estava decidido, o que combina com a queda da abstenção. Em 2026 o primeiro turno já chegou perto desse patamar, e o segundo vai mostrar se o eleitor mantém essa decisão”, analisa Rodrigo Andrade.

