Fast food em excesso, consumo frequente de bebidas alcoólicas, cigarro, sedentarismo, noites mal dormidas, estresse constante e ganho de peso. Hábitos que parecem fazer parte da rotina de muitos adultos jovens podem, ao longo do tempo, criar um terreno perigoso para a saúde vascular. Isso porque favorecem condições como hipertensão, diabetes, obesidade e alterações no colesterol, fatores diretamente associados ao risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Talvez o maior problema seja que, aos 20, 30 ou 40 anos, poucas pessoas se imaginam tendo um AVC.
Ainda existe uma ideia muito forte de que essa é uma doença de idosos. A idade, de fato, é um importante fator de risco, mas o AVC não pergunta a idade antes de acontecer. Ele pode atingir adultos jovens e, justamente por ser menos esperado nessa faixa etária, há outro perigo: os sintomas podem ser subestimados e o atendimento demorar.
Dados da Rede Brasil AVC apontam que cerca de 18% dos casos registrados no país ocorrem entre pessoas de 18 a 45 anos. É uma faixa da população que, muitas vezes, trabalha muito, dorme pouco, vive sob estresse, negligencia exames preventivos e acredita que juventude é sinônimo de proteção.
Hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, colesterol elevado e sono inadequado não são problemas exclusivos de quem envelheceu. Essas condições vêm aparecendo cada vez mais cedo e ajudam a explicar por que precisamos falar de saúde cardiovascular e cerebral também com os jovens.
A alimentação entra nessa discussão. Não significa dizer que comer um hambúrguer ou beber eventualmente provocará um AVC. O problema está no padrão de vida construído ao longo do tempo: excesso de alimentos ultraprocessados, sal, açúcar e gorduras, pouca atividade física, consumo excessivo de álcool, tabagismo e ganho de peso. O organismo cobra essa conta.
Mas, no jovem, há ainda outra questão importante: nem todo AVC está relacionado aos fatores de risco mais conhecidos.
Quando um paciente jovem apresenta um AVC, precisamos investigar outras possibilidades com profundidade. Alterações cardíacas, distúrbios de coagulação e problemas nos vasos sanguíneos podem estar envolvidos. Entre as causas que merecem atenção estão a dissecção das artérias do pescoço, o forame oval patente, algumas trombofilias e o uso de drogas estimulantes.
Existem também combinações de fatores que exigem avaliação individual. Mulheres com enxaqueca com aura, por exemplo, podem apresentar aumento do risco vascular quando existem outros fatores associados, como tabagismo e uso de determinados anticoncepcionais hormonais. Não se trata de criar alarme ou recomendar a suspensão de medicamentos por conta própria, mas de conhecer os próprios fatores de risco e discuti-los com o médico.
O melhor tratamento, porém, continua começando antes do primeiro sintoma.
Conhecer a própria pressão arterial, acompanhar glicemia e colesterol, não fumar, evitar drogas estimulantes, praticar atividade física regularmente, moderar o consumo de álcool, cuidar da alimentação, do peso, do sono e do estresse são medidas que protegem não apenas o coração, mas também o cérebro.
No AVC, tempo é cérebro.
*Marcos Spadoni é neurocirurgião do Hospital Mater Dei Goiânia.
