A safra 2026/27 começa em Goiás com uma mudança relevante no planejamento operacional. Em caráter excepcional, a Instrução Normativa Agrodefesa nº 5/2026 antecipou a data permitida para presença de plântulas de soja emergidas no campo; a data final do calendário permanece em 2 de janeiro de 2027. São cinco dias que, isoladamente, parecem pouco, mas que podem ter valor estratégico em sistemas de sucessão soja e milho ou soja e sorgo, porque ampliam a possibilidade de posicionar a segunda safra em uma janela climática mais favorável. A antecipação não elimina as demais obrigações fitossanitárias aplicáveis à cultura.
Essa mudança, porém, não deve ser interpretada como sinal verde para plantar em qualquer condição. O ganho de calendário só existe quando a implantação da soja é tecnicamente segura. Chuva isolada não significa, necessariamente, início consolidado da estação chuvosa. O INMET ainda aponta limitação de água disponível no solo e dependência da regularização das precipitações em áreas de Goiás. Se a semeadura ocorrer após um evento pontual, sem continuidade de umidade no perfil, aumentam os riscos de germinação irregular, falhas de estande, desuniformidade de emergência e até replantio, situação que pode consumir rapidamente os cinco dias conquistados no calendário.
O componente climático merece atenção adicional. As projeções oficiais de setembro indicam um El Niño de intensidade muito forte, mas o fenômeno não deve ser usado como uma fórmula simples para prever o que ocorrerá dentro de cada propriedade. Para o produtor goiano, a decisão precisa ser regionalizada: histórico de chuva da fazenda, armazenamento de água no solo, textura e profundidade efetiva do perfil, capacidade de retenção, cultivar escolhida e previsão de precipitação para os dias seguintes à semeadura pesam mais do que uma leitura genérica do fenômeno. Uma estratégia consistente é escalonar áreas e cultivares, evitando concentrar todo o risco operacional em uma única janela.
Do ponto de vista agronômico, a antecipação pode ser especialmente importante quando o planejamento começa pela segunda safra. Em vez de simplesmente perguntar “quando posso plantar soja?”, o produtor deve perguntar “em que data preciso colher a soja para posicionar milho ou sorgo dentro da melhor janela possível?”. A partir dessa resposta, definem-se grupo de maturidade, cultivar, ritmo de plantio, logística de colheita e capacidade de implantação da cultura seguinte. Antecipar sem esse encadeamento pode gerar pouco benefício; antecipar com planejamento de sistema pode representar maior proteção de produtividade e melhor uso da estrutura da fazenda.
A gestão de risco também precisa sair do campo e chegar ao preço. Em um ambiente de elevada incerteza climática, não basta proteger produtividade: é preciso proteger a margem. O produtor pode realizar fixações antecipadas e operações de hedge, uma estratégia financeira de proteção usada para reduzir riscos de perdas causadas por variações, com futuros, opções, termos e swaps, diretamente ou por meio de corretoras, mesas de commodities e instituições financeiras. Dependendo da estrutura, a proteção pode combinar referências do mercado internacional, como a Bolsa de Chicago (CBOT), com câmbio e demais componentes de formação do preço. Na prática, isso permite travar parte da receita esperada antes da colheita e reduzir a exposição a movimentos adversos do mercado.
Esse tipo de proteção, entretanto, exige a mesma disciplina do manejo agronômico. O hedge não elimina o risco de produção e não deve ser confundido com especulação. Em uma safra de maior incerteza climática, o mais prudente é trabalhar com volumes conservadores e travas graduais, compatíveis com uma produtividade que a propriedade tenha razoável segurança de entregar. Assim, evita-se transformar uma eventual quebra de safra em um problema adicional de recompra ou descasamento de posição. Seguro agrícola, comercialização escalonada e hedge de preço devem atuar de forma complementar.
No fim, os cinco dias antecipados são uma ferramenta, não uma garantia de resultado. A melhor decisão será aquela que integrar três dimensões: condição real de plantio, janela da segunda safra e proteção econômica da margem. Em uma safra marcada por El Niño forte, o diferencial não estará em “adivinhar” o clima, mas em construir uma operação capaz de absorver melhor seus desvios. No campo e no mercado, gestão de risco continua sendo a forma mais consistente de transformar incerteza em decisão.
*Lucas Almeida é engenheiro agrônomo e gerente de Expansão e Novos Negócios da Agro Ávila.
