A Redação
Goiânia – O Ministério Público Federal (MPF) instaurou inquérito civil para apurar impactos ambientais, sociais e de saúde pública na zona rural de Alto Horizonte. O alvo das investigações é um empreendimento voltado à extração de cobre e ouro.
A atuação do MPF decorre de uma representação formal da Associação dos Atingidos e Contaminados por Poluição Resultante de Atividades de Mineradoras no Estado de Goiás (ACPRAM), que defende os interesses de moradores de propriedades situadas abaixo do fluxo das estruturas de rejeitos, com destaque para a Fazenda São Sebastião. Segundo os relatos, a expansão das atividades da empresa gerou uma degradação sistêmica na região.
Diante da gravidade dos fatos e dos laudos técnicos apresentados pela ACPRAM, o MPF também requisitou à Superintendência Regional da Polícia Federal no Estado de Goiás a abertura imediata de um inquérito policial para apurar a responsabilidade criminal por crime de poluição.
Medidas acautelatórias e recomendações urgentes
Nesta segunda-feira (20/7), o MPF expediu recomendações solicitando medidas urgentes para cessar os riscos à vida e à integridade dos atingidos:
À empresa, por exemplo, foi recomendado o fornecimento imediato, gratuito e contínuo de água potável (mineral ou via caminhões-pipa) às famílias afetadas; a perfuração e estruturação de um poço tubular profundo seguro; a instalação emergencial de sistemas de filtragem e tratamento; e a execução urgente de obras de engenharia para conter o carreamento de sedimentos oxidados vindos das pilhas de rejeito.
Aos órgãos de fiscalização (SEMAD e ANM), recomendou-se a realização de inspeções in loco emergenciais nas estruturas da mineradora e a aplicação do poder de polícia para exigir o cumprimento de medidas mitigadoras sob pena de multas ou embargo das atividades.
À Vigilância Sanitária municipal, a orientação é para que haja a emissão de uma notificação sanitária de alerta aos moradores sobre o risco da água e a orientação técnica para o isolamento zootécnico (cercamento) das margens dos córregos poluídos, evitando o acesso do gado.
Além disso, o MPF fixou o prazo comum e improrrogável de cinco dias úteis para que todas as partes informem se acatam os termos das Recomendações. A ausência de resposta ou a recusa motivará o ajuizamento imediato de uma Ação Civil Pública com pedidos de liminares urgentes e aplicação de penalidades diárias.
Plano de investigação oficial e apuração criminal
O MPF traçou um plano oficial de produção de provas técnicas e periciais para assegurar a ampla defesa e a robustez do processo. A Secretaria de Perícia e Pesquisa (SPPEA) do MPF foi acionada para designar uma banca multidisciplinar de especialistas em geologia, hidrogeologia, engenharia ambiental e toxicologia. Novas campanhas oficiais de coleta de água e solo serão coordenadas com os órgãos ambientais estatais.
Paralelamente, foi requisitada a condução de um amplo Estudo Epidemiológico oficial junto à Secretaria Estadual de Saúde de Goiás para dimensionar o impacto populacional crônico gerado na região, e equipes de segurança orgânica do MPF realizarão entrevistas formais de campo para reconstruir a cronologia dos danos.
Na esfera penal, a Polícia Federal buscará individualizar as condutas dentro da estrutura corporativa da mineradora. A investigação criminal buscará identificar diretores, gerentes de operação e engenheiros ambientais que tenham agido com dolo ou culpa, inclusive por omissão penalmente relevante ao deixarem de conter os resíduos tóxicos.
O MPF ressalta que as medidas adotadas obedecem a um juízo técnico acautelatório e de preservação da vida, sem configurar prejulgamento definitivo de culpabilidade da empresa ou de omissão estatal antes do encerramento das investigações.
