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O poder de um momento

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25.08.2013 - 10:53:32

Goiânia – Primeiro longa de Daniel Aragão, Boa Sorte, Meu Amor (2013) chama a atenção por, entre altos e baixos, somar à galeria inventiva, criativa e produtiva do atual cinema pernambucano, grande mina da cinematografia nacional dos últimos anos. É, a exemplo do brilhante O Som ao Redor (2013), de Kleber Mendonça Filho, filme com um olhada e uma mão dirigida a um passado (de pessoas, de regiões e, com sorte, do país) que ditará certas regras no presente.
 
A fotografia é de Pedro Sotero, também fotógrafo de O Som ao Redor, ambos filmados em scope. Realiza aqui um preto e branco severamente contrastante. Por muitas vezes essa dualidade plástica beira o quadrinesco, namorico estético que as divisões de capítulos não deixam negar. Aragão fez um filme visualmente bonito e, de certa forma, paciente, pois seus rumos finais viram outra coisa, de difícil precisão, com lugar para pelo menos uma cena forte.
 
O acúmulo de incertezas é até capaz de combinar com o tom quase alienígena a que algumas cenas se submetem, como no encontro entre o protagonista e o pai de sua namorada e também ao que me pareceu uma referência (e ponto alto do filme) a Skyscraper Symphony, curta-metragem avant-garde de 1929. Para uma (seria só uma?) escola (poderia se falar em escola?) tão incomodada com a predialização de Recife (Gabriel Mascaro, Kléber Mendonça Filho…), prédios e edifícios se fazendo de equalizadores de notas musicais gritantes é uma passagem que tem seu brilho.
 
Nosso personagem principal, Dirceu (Vinicius Zinn), trabalha justamente para uma empresa de demolição, fazendo dele um sujeito próximo a esse mundo feito do que é concreto. Apaixona-se por Maria (Christiana Ubach; as melhores cenas são com ela), estudante de música, garota escorregadia como a arte. Ela lembra uma visão no olhar e na câmera de Aragão, que a introduz com longo close em câmera lenta, uma espécie de encanto faceiro. É um close poderoso, fazendo dela, por alguns segundos escorregadios, uma estrela, até revelar que o trânsito entre a celebridade e o ordinário pode ser apenas uma questão de abertura do plano.
 
O protagonista, porém, não é dos mais fáceis. Trata-se de personagem que, se não é, soa meio babaca, e o filme não demonstra saber lidar muito bem com isso. Boa Sorte, Meu Amor sugere, enfim, uma história de redescoberta, ou talvez de renascimento – ou, ainda melhor, de reconstrução – mas de um sujeito que não tem muito a oferecer além do que me pareceu ser uma tensão mimada constante, o filme dando a impressão de procurar nele uma espécie de energia brutal, quando, seja notado, são nos momentos de sensibilidade que pode haver algo de vital aqui. Mais precisamente, o momento daquele close, de uma beleza quase irreal que, ironicamente, corre o risco de engolir o filme todo.
 
Boa Sorte, Meu Amor entra em cartaz no Cine Cultura nesta sexta-feira (23/8). Confira o horário das sessões aqui: http://cineculturagoias.wordpress.com/
 

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por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

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