Ludymila Siqueira
Goiânia – Desde o início do ano, os efeitos do El Niño têm sido tema de atenção. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico na faixa próxima à Linha do Equador, não provoca mudanças apenas no clima, mas também pode impactar a produção agrícola, o preço dos alimentos e até o transporte no Brasil e no mundo. Embora a intensidade do fenômeno em 2026 ainda seja incerta, a previsão é de que ele ganhe força entre julho e outubro, com impactos especialmente relacionados às ondas de calor.
Na última semana, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) emitiu um alerta informando que o El Niño já se formou no Oceano Pacífico e deve se intensificar rapidamente, aumentando o risco de ondas de calor, secas, chuvas intensas e outros eventos extremos em diferentes partes do mundo. Os modelos apresentam resultados semelhantes, o que aumenta a confiança de que o episódio será classificado como forte. A OMM é uma agência das Nações Unidas responsável por acompanhar o clima.
Segundo o gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, o El Niño deve intensificar o excesso de chuvas na Região Sul do País, provocar chuvas irregulares no Brasil Central e manter um período de seca nas regiões Norte e Nordeste. Em Goiás, o principal impacto previsto é a ocorrência de ondas de calor intensas.
“O Brasil fica praticamente dividido em três etapas. Nós vamos ver estes efeitos com mais evidência entre setembro e outubro, de maneira que vamos perceber atraso e irregularidades da chuva, calor sucessivo e um período de seca prolongado. Além disso, o fenômeno deve se estender até abril de 2027”, explicou em entrevista à reportagem do Jornal A Redação.
A força do El Niño, contudo, depende do quanto o Pacífico Equatorial vai aquecer nos próximos meses e, principalmente, de como a atmosfera vai responder a esse aquecimento. Para que ganhe intensidade, é preciso que o sistema oceano-atmosfera passe a atuar de forma acoplada e persistente.
Desde 2006, uma sequência de episódios de El Niño vem mudando cada vez mais o clima do planeta, que se mostra cada vez mais quente. Esses eventos acabam aumentando o risco de extremos, como secas, enchentes e ondas de calor. Veja:
- 2006–2007: El Niño fraco a moderado.
- 2009–2010: El Niño moderado.
- 2014–2016: El Niño muito forte, ligado a recordes de calor e extremos mais frequentes.
- 2018–2019: El Niño fraco a moderado, mais curto e com impactos mais limitados.
- 2023–2024: El Niño forte, um dos mais intensos já registrados, associado a novos recordes de calor.
Desafios no setor agrícola
Assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Lucas Lopes afirma que, para o território goiano, o principal impacto esperado é a ocorrência de chuvas abaixo da média, maior irregularidade na distribuição das precipitações, veranicos prolongados e temperaturas mais elevadas. Para ele, o cenário exige cautela, mas não alarmismo. “Nós, como Federação da Agricultura, acompanhamos continuamente as atualizações meteorológicas, em conjunto com os dados do Cimehgo, para avaliar a evolução das condições climáticas regionalmente”, pontua à reportagem de A Redação.
No campo, um dos maiores riscos está relacionado ao início da semeadura da safra de verão, a partir do dia 25 de setembro. Ele explica que a ocorrência das chamadas “chuvas de falso engano”, especialmente entre agosto e setembro, pode induzir o produtor a iniciar o plantio antecipadamente. Caso essas precipitações não tenham continuidade, há comprometimento da germinação, da emergência das plantas e aumento significativo do risco de replantio.
As culturas mais sensíveis são a soja e o milho de verão, principalmente nas fases de implantação e desenvolvimento inicial. Além disso, o milho segunda safra também pode ser impactado posteriormente, uma vez que o desempenho dessa cultura depende diretamente das condições hídricas deixadas pela safra de verão.
“Os impactos não se restringem apenas à produção agrícola. A redução das chuvas também afeta os reservatórios de água, aumenta o risco de queimadas, eleva os custos de irrigação e pode refletir na oferta e nos preços dos alimentos ao consumidor”, afirmou o representante da Faeg.
As atividades agrícolas estão naturalmente sujeitas às incertezas climáticas, mas existem diversas práticas de manejo capazes de reduzir significativamente os riscos produtivos e aumentar a estabilidade no campo. Lucas detalha que o primeiro passo é respeitar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), evitando a antecipação da semeadura motivada por chuvas isoladas. O plantio deve ser realizado somente quando houver umidade adequada no solo e previsão de continuidade das precipitações, reduzindo o risco de falhas na germinação e no estabelecimento inicial das lavouras.
Além disso, é fundamental utilizar cultivares adaptadas às condições edafoclimáticas da região, preferencialmente com maior tolerância ao déficit hídrico, bem como investir continuamente no melhoramento genético das variedades. A manutenção do sistema de plantio direto na palha também exerce papel estratégico, pois aumenta a infiltração e a retenção de água no solo, reduz a evaporação e contribui para a conservação da umidade. Da mesma forma, a adoção de plantas de cobertura eleva os teores de matéria orgânica, melhora a estrutura física do solo e amplia sua capacidade de armazenamento de água.
Outras práticas igualmente importantes incluem a realização de uma semeadura de qualidade, respeitando a profundidade e a população de plantas recomendadas; a adoção de um manejo nutricional equilibrado; e a implementação de práticas conservacionistas de solo e água, que favorecem a estabilidade produtiva mesmo em condições climáticas adversas.
“Um aspecto indispensável é a gestão dos riscos por meio do seguro rural, que representa um dos principais instrumentos de proteção da renda do produtor diante de eventos climáticos extremos. No entanto, essa continua sendo uma das maiores fragilidades da política agrícola brasileira. Atualmente, apenas cerca de 4% da área cultivada no país conta com cobertura securitária. Além disso, a área segurada no Brasil sofreu uma redução expressiva nos últimos anos, passando de aproximadamente 13,7 milhões de hectares, em 2021, para cerca de 3,2 milhões de hectares, em 2025, o que representa uma queda superior a 76%. Esse cenário deixa milhões de hectares desprotegidos justamente em um momento de maior frequência e intensidade de eventos climáticos extremos”, esclareceu o assessor técnico da Faeg.
Ele ainda completa que somam-se a esses desafios os elevados custos de produção enfrentados pelo setor produtivo, impulsionados pelos preços de fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis, especialmente o diesel, além da volatilidade dos mercados internacionais decorrente das tensões geopolíticas. Nesse contexto, o sucesso da atividade agrícola depende cada vez mais da combinação entre planejamento, adoção de tecnologias, manejo agronômico eficiente e instrumentos eficazes de gestão de riscos, permitindo que o produtor minimize perdas e preserve a sustentabilidade econômica de sua atividade.
Monitoramento no agro
A Faeg acompanha permanentemente a evolução das condições climáticas por meio dos boletins meteorológicos, dos mapas elaborados pelo Cimehgo e das informações divulgadas pelos principais centros de monitoramento climático nacionais e internacionais. Esse acompanhamento permite orientar os produtores sobre os possíveis impactos do fenômeno, reforçando recomendações técnicas relacionadas ao período adequado de semeadura, ao manejo conservacionista do solo, ao uso de tecnologias que aumentem a eficiência no uso da água e às estratégias de mitigação dos riscos climáticos.
Além disso, a Federação mantém diálogo constante com as entidades do setor para defender o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao seguro rural e à gestão de riscos, entendendo que a previsibilidade climática precisa estar acompanhada de instrumentos econômicos capazes de proteger a renda do produtor.
“É importante destacar que o El Niño não é o único desafio enfrentado pelo produtor rural. Hoje convivemos simultaneamente com riscos climáticos, restrição de crédito, juros elevados, aumento dos custos de produção, volatilidade das commodities e um cenário internacional marcado por conflitos geopolíticos que afetam diretamente os mercados de fertilizantes, combustíveis e insumos agrícolas”, disse Lucas Lopes.
Nesse contexto, torna-se ainda mais necessário fortalecer as políticas de gestão de riscos no Brasil, especialmente o seguro rural. O produtor brasileiro tem investido continuamente em tecnologia, manejo, genética e sustentabilidade, mas nenhuma tecnologia é capaz de eliminar totalmente os efeitos de eventos climáticos extremos.
“A agricultura moderna depende cada vez mais de planejamento, informação técnica e políticas públicas eficientes. Por isso, a orientação da Faeg é que os produtores acompanhem as previsões climáticas, adotem práticas conservacionistas, respeitem o ZARC e façam uma gestão integrada dos riscos, permitindo maior segurança produtiva e econômica diante de um cenário climático cada vez mais desafiador”, arrematou ao A Redação.
