Eu, José Eleutério de Epaminondas Dantas, simplesmente Zetéro, cidadão da zona intermediária de Alto Alegre dos Parecis – porque não fica nem na rural, nem na urbana – cheguei lá, de onde todo mundo dava notícia, mas eu jamais me imaginaria chegando: “na” velhice. Sem quaisquer eufemismos. Situação certa, assustadora e irreversível. Deitei pra dormir bem num dia e amanheci velho. Se há que piorar, a cada dia estou mais perto da morte. E assim como eu não acreditava chegar à velhice tão rápido, também acredito que ainda falta muito para eu encontrá-la. Até porque, a morte não manda recado. Ela só leva.
Ao acordar abri os olhos me virando para o teto do quarto e aquela rachadura de meses parecia ter sido reparada. “Será que o tempo e a humidade recuperaram o dano?” Me assustei quando apertei os olhos e enxerguei um leve traçado de forma geográfica no teto. Era ela. A rachadura ainda estava lá. Tão ativa quanto nunca. E, assim como eu, cada dia mais velha. O susto se referia à minha insuficiência visual sem os óculos multifocais.
Os cabelos da minha cabeça deixaram de cair e passaram a se atirar. E nas minhas costas começaram a crescer pelos como musgo em madeira úmida. Ontem após o banho passei, ao menos, três quartos de hora olhando os pelos nas minhas costas pelo reflexo do espelho. Uma das possíveis conclusões é de que os fios que caem da cabeça acabam germinando nas costas. E questionei ao Universo, olhando pra cima, por quê disso. Evolução? Não, gente. Anúncio da chegada, em definitivo, da velhice.
Terim, meu filho, de um dia pro outro virou um homem feito e já andei percebendo alguns fios prateados que ele adquiriu nas têmporas. José Eleutério de Epaminondas Dantas Filho, o Terim, está quase beirando meio século. É certo que o menino – pra mim sempre será! – foi concebido quando eu ainda tinha meus tenros 16 anos. Como somos muito parecidos, principalmente por causa do nariz e até o jeito de falar, já fomos confundidos com irmãos não apenas uma ou duas vezes. E o filho dele é mais velho do que eu era quando fui pai pela primeira vez.
Mas se há algo pra me encabular ainda mais é o Tobias, um vira-latas preto rajado de branco, que eu trouxe pra casa dia desses, quando o primeiro neto fez um ano. Me lembro como se fossem ontem, chegando com ele numa caixa de madeira acolchoada, com o nome dele gravado em um dos lados. Isso já tem 26 anos. E Tobias resiste, mas já dá sinais de que o tempo dele também já está perto da data de validade. Está senil, meu pobre e velho amigo.
É como dizia minha bisavô Exaltina Maria Cândida Dantas, a dona Tina, que viveu 128 anos afirmando em voz alta todos os dias que jamais iria envelhecer. Aos 74 anos, depois de emagrecer mais de 20 quilos por conta da febre amarela, contraída numa viagem que fizera ao Pantanal, a cara murchou e ela viu sua feição cair como se tivesse derretido. Bisa Tina quebrou o único espelho que tinha em casa e jurou nunca mais olhar para outro. A velhice, pra ela, era o passo adiante no quotidiano de todos nós. E não cansava de repetir a qualquer mortal sobre o passar do tempo durante a nossa existência: “Um dia a mais, um dia a menos”.
Hoje, sim, batendo na porta da casa da velhice, eu penso no que dona Tina falava com muito mais preocupação. Quase desesperado. E foi aí, com a realidade à frente, cara a cara, que caí na real e percebi que começamos a envelhecer no dia e no momento em que nascemos. Consequentemente, rumo à morte. Por esse ângulo de visão e pensamento, quanto mais eu vivo, menos eu tenho para viver. E já que é assim, o melhor conselho, de fato, é aproveitar cada dia e cada momento como se fossem os últimos. Um dia a gente acerta.
*Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo

Excelente crônica. Nunca imaginei que a construção bem costurada, com episódios como a dos cabelos ” que passam a germinar nas costas”. Essa linguagem tão engraçada, tornou a leitura tão saborosa . Mas não é sobre isso. É sobre: ” Cada dia a mais, é um dia a menos”. Então vamos levar a vida com mais leveza, ser mais generosos conosco mesmos, rir mais, viver com intensidade cada existência. Se a velhice nos surpreende , se avizinha sem a gente
perceber imagine a morte: apenas nos recolhe , nos leva. É a primeira vez que me deparo com uma crônica que conduz o leitor a experimentar sensações tão antagônicas. Bora viver!