Logo

De cavernas a hotéis, o espírito humano em cartaz no Cine Cultura

WhatsAppFacebookLinkedInX
09.08.2013 - 15:12:05

Goiania – O espectador que for ao Cine Cultura nesta semana que se inicia pode se deparar com um diálogo quase etéreo entre as sessões de Hotel Mekong (2012), do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, e A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010), de Werner Herzog. Os dois filmes, que estrearam por aqui na última sexta-feira (2/8) e ficam em cartaz até a próxima quinta (15/8), embora distintos em linguagem, ainda mais claramente, identidade cultural, parecem cultivar uma similaridade de espírito, de tentar arquitetar reflexões, sejam sólidas ou fugazes, a partir de uma imersão na natureza.

Herzog, com sua ampla experiência documental e as mais de 60 produções concebidas, no geral, com a disposição de alguém muito interessado no que pode haver de mais curioso no mundo que o abriga, é sempre esperado com a familiaridade que anos de cinema já lhe reservam, enquanto Apichatpong, por mais que tenha estourado de algum modo com sua Palma de Ouro em Cannes por Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), pode, sem muito esforço, se colocar na tela como se saísse duma cartola, sobretudo para o público ocidental e mesmo parte de nossa crítica e imprensa, que às vezes não sabe o que fazer com ele – ou vai que até sabe bastante, desenvolvendo alguma faísca de interesse, ainda que possa soar um tanto "desonesto" na hora que o filme começa a passar.

Não raramente, Hotel Mekong é tido como o "filme de vampiro" de Apichatpong. É verdade. Ou não?

Aqueles que já viram outros filmes do cineasta desconfiam, e com razão, pois existe ali um cinema particular, que versa pela autoria da fábula, do filme com fissuras, das narrativas de homens e espectros. Hotel Mekong tem muito de esboço, inclusive literalmente, pois há um mix de ficção e ensaio documental (de outro filme), mistura de registro e conto, tudo ligado pelo incansável violão de um músico. Vez ou outra surge uma mulher comendo um coração ou tripas humanas, sangue nos lençóis (belo cartaz, aliás), conversas sobre encarnações, todos os eventos situados no tal hotel, à beira do rio Mekong, cuja própria história muito interessaria a Herzog.

Apichatpong parece preferir o acontecimento por si só, a existência. A nós, cabe observar. O plano final é longo, fixo, o rio passa, ocupa quase toda a tela, e, bem comum na obra do diretor, agrega tecnologia e tradição num mesmo espaço, vistas à distância, pois o plano é bem aberto.

O fascínio exercido por Herzog é um tanto diferente, primeiro porque já é conhecido, vem embalado por sua inconfundível narração. É aquela coisa infalível, quase sempre tocante, interessado no que há de raro em suas oportunidades documentais, um perfeito escultor da natureza, e esse Caverna dos Sonhos Esquecidos não fica atrás.

Herzog e diminuta equipe são autorizados a adentrar e filmar o interior da caverna Chauvet, no sul da França. Logo de cara, frisa não somente como aquilo é importante, mas também importante para ele, pois não há, nos colocamentos de Herzog, nenhum receio de dramatizar a questão, pelo contrário. Daí vem parte do brilho de alguns de seus documentários, inclusive. Existe aqui um PS – PS mesmo, como numa carta – incrível, por exemplo, reflexão muito autoral, quase uma poesia ingênua para a humanidade, e, talvez justamente por isso, ou pela imagem de jacarés albinos dando gancho para o pensamento, munido de alguma beleza.

Nas paredes da caverna, as filmagens nos revelam pinturas e desenhos rupestres e ossadas de animais que ali viveram num passado distante. O clima do lugar é dominante, a sala de cinema parece logo se transformar numa outra câmara cavernosa e é fácil compreender o porquê de ter sido pensado numa versão 3D (o Cine Cultura exibe a cópia 2D, é bom avisar, mas a imersão é grande, até porque sou desses que vê na "imersão" do 3D uma mera redundância).

O documentário também colhe falas e informações de diversos pesquisadores, todos deles com aparente rigor e respeito em relação a esta caverna, alguns deles mais dispostos a se abrir ao filme, chegando a tocar uma flauta pré-histórica ou a simular o arremesso de uma lança. É bonitinho e muito humano.

O tour pela caverna e pelo tempo no Herzog age, inclusive, a favor de Hotel Mekong nessa sessão dupla, que, se visto isolado, poderia não ter surtido tanto efeito. Hotel Mekong talvez seja o Apichatpong mais enigmático, espécie de arranhada fluida e, curiosamente, musical. Só fui peneirá-lo melhor após ver Caverna dos Sonhos em seguida, pois há um momento no documentário de Herzog em que um pesquisador diz que, no lugar de homo sapiens, preferiria considerar um homo spiritualis. Os filmes de Apichatpong são justamente isso, um cinema de homo spiritualis.

A exemplo de Herzog, que busca compreender e aplicar uma visão em torno daquilo que foi traçado nas cavernas, por homens que tinham uma noção de mundo completamente distinta, e que tem a habilidade, não muito simples, de perceber um elemento artístico na própria concepção da natureza, talvez esta a nossa postura diante de um pequeno filme como Hotel Mekong. De sair tateando, guiados por luz, seja ela trêmula ou firme, o que pode nos parecer uma arte rupestre contemporânea.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]